Aqueles que não vemos

A Europa está cheia de pessoas que todos os dias trabalham sem que os seus direitos sejam reconhecidos. Mais do que isso, a Europa está cheia de pessoas que trabalham sem que se saiba que elas existem. Portugal não é exceção. Basta pensarmos nos trabalhadores nos olivais intensivos no Alentejo e nas sucessivas denúncias de violação dos seus direitos para termos apenas um exemplo. É por isso que a luta dos 26 trabalhadores sem papéis da Chronopost Alforteville e a sua vitória desta semana é tão bonita e tão simbólica.

Falo de 26 trabalhadores que não se conheciam, que tiveram trajetórias diferentes e ao mesmo tempo comuns, que se viram forçados a abandonar os seus países e, em alguns casos, a atravessar o Mediterrâneo para chegar a França. Vindos do Senegal, da Guiné, da Mauritânia ou de outros países, estes trabalhadores encontraram trabalho na filial da La Poste onde descarregavam camiões, faziam scan das encomendas, carregavam camiões, e assim sucessivamente, numa rotina mais do que dura. Estes homens eram o elo mais fraco da cadeia de distribuição e rapidamente perceberam isso quando foram ignorados pelas entidades patronais e não viram nenhum dos seus direitos reconhecidos. Na realidade, quando os reivindicaram foram-lhes negados e acabaram por decidir em conjunto montar um piquete de greve. À medida que o tempo passou foram conquistando o apoio de sindicatos, de representantes de partidos de esquerda e do presidente do governo local de Val-de-Marne. A luta permitiu que se encontrasse uma brecha na lei para que se começasse o processo do seu reconhecimento. No dia em que iniciaram a luta perderam o direito ao seu salário, mas iniciaram um processo que viria a ser colmatado com uma vitória importante.

Ao fim de sete meses e quatro dias de greve, os trabalhadores sem papéis da Chronopost Alforteville conseguiram obter coletivamente o direito de residência. Tratou-se, na realidade, de um dois em um: uma vitória política e sindical. Uma vitória política, porque já não podem ser expulsos, uma vitória sindical porque o trabalho antes feito às escondidas passou a ser reconhecido. Nesta luta foi fundamental o papel da própria autarquia, que se associou aos grevistas e foi imprescindível toda a solidariedade gerada em torno deste caso. Os 26 trabalhadores que mal se conheciam obrigaram-se a partilhar o mesmo espaço e acabaram por tornar-se uma família. Contar este caso é importante nos dias que correm. As pressões para os baixos salários e para a precariedade, assim como o desmantelamento da contratação coletiva, estão a ajudar a afundar os direitos mais básicos nas democracias europeias. A luta destes homens, da comunidade de acolhimento, de sindicalistas e de dirigentes políticos mostraram bem a diferença quando funciona o coletivo. Não é a vitória toda, mas fez-se caminho.

Eurodeputada do BE

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