A condição humana e o PSD

No PSD estão neste momento definidas duas correntes, lideradas respetivamente pelo atual presidente e pelo seu opositor. E alguma coisa as separa, sendo a principal a forma como tratam a extrema-direita. E o que representa a extrema-direita nos dias de hoje?

Sem saber como nem porquê, dei por mim preocupado com as eleições no PSD e mais ainda quando vi um debate político na televisão espanhola com os seis ou sete partidos com assento no parlamento, incluindo o Vox. No PSD, partido em que nunca votei, estão neste momento definidas duas correntes, lideradas respetivamente pelo atual presidente e pelo seu opositor. E alguma coisa as separa, sendo a principal a forma como tratam a extrema-direita e, em particular, aquele embrião de partido liderado por um tal Ventura. Embora o atual presidente do PSD não seja totalmente claro na sua posição quanto a uma eventual aliança à extrema-direita, na verdade mostra-se mais reticente do que o adversário, que tem claramente apontado para a desvalorização do que ela significa e representa.

E o que representa a extrema-direita, em Portugal, em Espanha, na Europa, nos dias de hoje? Para alguns, representará o mesmo que a extrema-esquerda de há algumas décadas, quando tivemos o PREC, em Portugal, e os atentados terroristas em Espanha, na Itália ou na Alemanha Ocidental. Isso pode ser ou não verdade, mas o que interessa fundamentalmente é que se trata de uma questão ultrapassada pelos problemas dos tempos que correm.

Esses problemas não são necessariamente mais sérios, pois a Europa viveu décadas muito graves no passado recente. Lembremos, para além dos atentados de Munique e do assassinato de Aldo Moro, nos anos 1970, a guerra da Bósnia e a participação britânica na invasão do Iraque, na década de 1990. Agora, temos problemas de grosseira injustiça social que não está a ser devidamente atacada, problemas de desintegração e descoordenação politica internacional, e problemas de funcionamento da economia global. Quanto a estes problemas, a extrema-esquerda não tem culpas no cartório, mas a extrema-direita tem tomado posições graves e contraproducentes. Por outras palavras, todos podem ter a impressão de que os dois extremos são iguais (o que não será verdade), mas ninguém pode negar que, nesta década, o extremo da direita é mais preocupante do que o da esquerda.

Em Espanha, por exemplo, o Vox quer acabar com a evolução havida nas condições dos mais pobres, dos que foram durante décadas marginalizados, dos que têm menor capacidade de se defender. Quer acabar com a abertura do país ao exterior, com a diversidade cultural, com a capacidade de cada um de nós ter as armas necessárias para escolher aquilo que quer fazer. Em linguagem de economista, o Vox quer voltar ao Estado autoritário e deixar de lado o espírito europeu, iluminista, de Adam Smith. Estou a exagerar? Pode parecer, mas não estou. Acontece que esses partidos de extremo procuram colocar as discussões ao contrário, dizendo-se da liberdade de escolha, da preservação das tradições e dos valores, e muitos vão paulatinamente acreditando. Mas é do contrário que se trata. E não é uma questão geracional, como sabemos. Queremos o PSD aliado a malta desse tipo? A normalizá-la?

Mas há mais. Na verdade, as forças políticas têm força quando conseguem ganhar raízes em ambientes económicos e sociais que lhes servem de base - e que as financiam. A extrema-esquerda fez isso com os "burgueses" ou os filhos dos "burgueses". A extrema-direita está a fazer essas alianças com forças económicas que são factualmente prejudiciais ao desenvolvimento das sociedades nacionais e da sociedade global. A economia e a sociedade injusta, sem redistribuição de rendimentos, sem proteção aos menos afortunados, aos que precisam da escola e da saúde públicas, são piores e funcionam de pior forma.

A esses problemas internos acrescem problemas internacionais, mas isso até pode vir a ser menos grave. Trump e Johnson estão a perder peso no mundo, mas o resto do mundo está a ocupar o espaço deixado livre e ainda estamos para ver o que irá acontecer.

Pode ser um pouco de mais pensar em tanta coisa motivado apenas pelas eleições de um partido português da oposição. Mas o grande faz-se do pequeno e a condição humana depende tanto das grandes ações como das pequenas. Queremos um país, um mundo em que cada um trata de si e ninguém é responsável? Ou queremos uma sociedade e uma economia, dentro e fora de fronteiras, a caminhar para maior justiça, maior liberdade, mais escolha? Uns não se importam com o crescente papel da extrema-direita, em todas as suas formas. Outros importam-se.

A condição humana é há milénios injusta, mas também já temos alguns séculos de luta pela sua melhoria. Vamos continuar, e chamar à pedra a extrema-direita, ou parar, e acolhê-la? É essa a escolha que a cada passo temos pela frente e todos os passos contam. Não será?

Investigador da Universidade de Lisboa

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