Todos, ou quase todos, os setores da função pública têm razões de queixa. E todos, ou quase todos, acham que têm boas razões para isso. Porque ganham mal e querem ganhar melhor, porque têm fracas condições de trabalho, ou porque parte das carreiras que lhes foram prometidas devem ficar congeladas para todo o sempre..Durante três anos, o governo orgulhou-se da paz social que tinha sido restituída ao país. Os acordos à esquerda com o PCP e com o Bloco de Esquerda acalmaram os sindicatos, também eles vítimas - como lembrou e bem o Pedro Adão e Silva - da fadiga das pessoas e do desgaste financeiro provocado pelas centenas de protestos durante os anos da troika. Mas, acima de tudo, protestar contra um governo que nenhum sindicato queria ver derrubado seria contraproducente. E é isso que explica, em grande medida, a calmaria que o país viveu nos últimos três anos..Os motivos pelos quais os professores, os enfermeiros, os juízes, os guardas prisionais, entre tantos outros setores, protestam são tão válidos hoje como eram há um ano, ou há dois, ou há três. Basta entrar num hospital público para perceber que as pobres condições de trabalho dos enfermeiros ou dos médicos têm anos - porque não dizê-lo, décadas. Os baixos salários e as carreiras são tudo problemas endémicos de um Estado que nunca teve um governo com coragem, ou condições, para o reformar. É óbvio que durante a troika havia outros motivos - mais graves ainda - de protesto, mas esses só se somavam aos que já existiam e continuam a existir hoje. Problemas que nunca foram resolvidos. Nem em tempo de vacas gordas e, muito menos, em tempo de crise. Nem pelos governos do PSD-CDS nem pelos governos do PS..Mesmo que o quisesse fazer - e não é claro para mim que o quisesse -, António Costa não tinha quaisquer condições para iniciar uma reforma do Estado. Porque os acordos que assinou à esquerda - e que lhe permitiram governar - lhe prenderam os movimentos. E porque, para reformar o Estado, é preciso mais do que uma negociação de merceeiro com o PCP e com o Bloco de Esquerda..Para reformar o Estado é preciso muito mais do que devolver as 35 horas aos funcionários públicos, abrindo buracos por falta de pessoal e aumentando a despesa com horas extraordinárias. É preciso muito mais do que umas medidas simplex avulsas, num Estado que continua com listas de espera nas cirurgias e que deixa morrer pessoas em incêndios..Para reformar o Estado, é preciso pensá-lo como um todo. É preciso perceber que as funções do Estado em 2018 não podem ser as mesmas que eram em 1976. É preciso olhar para as várias carreiras na função pública e adaptá-las a uma realidade que já não se compadece com privilégios meramente eleitoralistas. Para reformar o Estado, é preciso coragem política para tratar diferente o que é diferente e igual o que é igual. E é, sobretudo, preciso garantir que o dinheiro dos contribuintes não lhes é extorquido a troco de nada..Regressemos às greves e arrumemos com o maior dos clichés: a greve é um direito previsto na Constituição que todos temos de respeitar. E eu respeito. O que não significa que concorde com todas. Desde logo, porque o capital de queixa está longe de ser o mesmo. E, sobretudo, porque uma greve, tal como eu a entendo, pelo impacto que tem na vida das pessoas, deve ser uma medida de último recurso, bem fundamentada e em que a principal motivação deve ser a melhoria das condições de trabalho - e não meramente política..Ora, o fenómeno de greves a que Portugal assiste neste momento deve-se apenas e só ao momento político que o país vive. Com quatro orçamentos do Estado aprovados e um ano de 2019 cheio de eleições, passou a ser cada um por si. PCP e Bloco de Esquerda já concluíram que a atual experiência governativa rendeu muito mais louros ao PS do que a qualquer um dos restantes parceiros e que é preciso fazer alguma coisa para sobreviver politicamente..O protesto que se faz hoje nas escolas, nos hospitais, nos tribunais - e um pouco por todos os setores do Estado - funciona como uma espécie de pré-campanha eleitoral, em que os sindicatos são uma espécie de guarda avançada dos partidos que os apoiam, numa tentativa de demarcação em relação ao Partido Socialista e, acima de tudo, para tentar evitar uma maioria absoluta do PS. Mas o risco deste tiro sair pela culatra dos partidos à esquerda é grande..Estou absolutamente convencido de que as greves em curso são mais benéficas eleitoralmente para o PS do que prejudiciais. A perceção - e as sondagens mostram isso mesmo - que a maioria dos eleitores tem do país está longe de ser a mesma que os sindicatos tentam pintar todos os dias. Para todos os efeitos, este foi o governo que devolveu rendimentos, que repôs as 35 horas, que aumentou o salário mínimo, que devolveu a sobretaxa, que fez baixar o desemprego, que meteu a economia a crescer e ainda reduziu o défice para próximo de zero..Mesmo que o mérito também tenha de ser dividido com o governo anterior, com o PCP e com o Bloco de Esquerda, para todos os efeitos foi um governo PS. Foi António Costa que, sem uma única reforma de fundo, trouxe o país para onde ele está. Se a isto juntarmos um PSD de rastos, num processo kamikaze, diria que dificilmente estas greves provocarão grandes problemas eleitorais ao Partido Socialista..Até porque gostava de as ter visto acontecer em 2016 e 2017, quando politicamente elas eram incómodas para o PCP e para o Bloco. E, sobretudo, porque estou cansado desta lógica de merceeiro com que estas negociações entre governo e sindicatos normalmente são feitas. Toda a minha solidariedade para os trabalhadores que lutam por melhores condições de trabalho, por melhores salários, por melhores serviços públicos. Zero simpatia com manipulações da opinião pública.