Início de mais um turno da noite na recolha do lixo pela cidade de Lisboa.

COVID-19

Na noite de Lisboa com quem não pode ficar em casa para manter a cidade limpa

Os homens do lixo. Lixo doméstico aumentou, mas é bem menos do que faziam comércio e turismo. Reportagem com os homens sem direito a palmas pelo seu trabalho em prol da saúde pública.

Agora, no estado de emergência, os homens do lixo começam a chegar uma hora mais cedo ao Centro Operacional de Remoção, nos Olivais, para diminuir a densidade de trabalhadores nas instalações. Também foram divididos em dois grupos, cada um trabalha sete dias e descansa outros tantos, revezando-se. Juntaram uma máscara ao equipamento de proteção individual e lá vão eles, rua abaixo e rua acima, a arrastar os caixotes do lixo até ao camião, branco e do último modelo. A máquina despeja o conteúdo, acabando o homem por não ter contacto com o que lá vem dentro - "nem queremos saber", dizem -, o que diminui o risco em plena pandemia de covid-19. E há bem menos lixo.

Quem faz um circuito habitacional sente mais carga desde a declaração do estado de emergência, a 16 de março; quem vai para zonas de restaurantes, hotéis, centros comerciais, turistas, sente uma grande diminuição. Como fazem circuitos diversos e diferentes tipos de resíduos, no final, a balança do esforço fica equilibrada. Recolheram nas últimas três semanas a média diária de 596 toneladas de lixo, menos 311 (34 %) do que em igual período de 2019 (907).

Manuel Ademar Santos, o Nelo, e Ricardo Rodrigues não sentem uma tão grande diminuição de lixo, ainda menos no circuito da última quinta-feira, com início às 22.00 e fim por volta das 04.00. É o circuito 305, que começa na Estrada das Laranjeiras, passando pelo Jardim Zoológico, e apanha todos os caixotes e contentores até à Avenida dos Combatentes, num serpentear de ruas e vielas, passando algumas vezes pelo local de partida. É o circuito de indiferenciados porta a porta.

"Este circuito pouca diferença faz em comparação com os meses anteriores a março. É uma zona residencial e há mais lixo, mas não temos o dos restaurantes e outro comércio, que também não deita muita coisa fora", explica o Nelo, de 51 anos. Faz 26 anos no dia 6 de junho que se tornou cantoneiro de limpeza, a designação técnica. Teve receios quando soube que havia um novo coronavírus à solta e que matava, ele a limpar a sujidade que todos os outros fazem. "Como tenho uma doença crónica (poliartrite nodosa) é complicado se apanhar o vírus, mas sinto mais receio ao pé de lares e numa ou outra situação em que haja muito lixo no chão. Mas alguém tem de fazer este trabalho."

É verdade, continua a haver quem deite o lixo para o chão, ainda mais nestas últimas semanas. Será que não levantam a tampa pensando que podem ficar infetados?, questionam os homens do lixo. E com os caixotes vazios.

Ricardo, 35 anos, ainda não completou um mês de atividade. Entrou no último concurso, deixando para trás 14 anos a lavar carros. Pouca experiência para contar, apenas que não hesitou quando percebeu que ia andar na rua durante uma crise grave de saúde. "Entrei mesmo no início da pandemia, mas tomamos todas as precauções necessárias."

Plano de contingência

As precauções são as indicadas no plano de contingência elaborado pela Câmara Municipal de Lisboa e que terá a duração que ditarem as medidas para fazer face ao covid-19. Filipa Penedo, diretora municipal de Higiene, e André Gomes, diretor de departamento de Manutenção Mecânica, explicam o que mudou. Dividiram os 220 cantoneiros de limpeza da recolha de resíduos em dois grandes grupos, cada um trabalhando sete dias seguidos e fazendo uma espécie de quarentena nos sete dias seguintes, até voltarem ao trabalho. São cerca de 500 cantoneiros de limpeza no total em toda a cidade de Lisboa, distribuídos por vários turnos.

Ao Centro Operacional de Remoção, para o serviço noturno, começam a chegar às 22.00 para a entrada ao trabalho se fazer de forma gradual. "O objetivo é reduzir o número de pessoas nos balneários, antes e depois de entrarem. E, quando acabam o serviço, tomam o banho e vão imediatamente para casa. A opção foi proteger os trabalhadores e as suas famílias", sublinha Filipa Penedo, Significa que não é obrigatório fazer as seis horas diárias, desde que as ruas fiquem limpas.

A contingência implicou que se deixasse de fazer a recolha seletiva de lixo porta a porta, ou seja, caixotes com papel e caixotes com embalagens vão todos para o mesmo sítio. Mantém-se a recolha diferenciada do lixo em contentores e também a do vidro.

Cada cantoneiro usa habitualmente botas, fato, luvas e meias próprias, que cabe à autarquia providenciar e lavar. Neste momento, recebem um kit individual que inclui máscara, luvas descartáveis e desinfetante. É medida a temperatura a quem entra nas instalações com dezenas de camiões e outras viaturas de limpeza, uma frota recentemente renovada, num investimento de 18 milhões de euros. "Este é um processo contínuo", salienta André Gomes.

"É a minha secretária"

Os tradicionais carros do lixo verdes têm vindo a ser substituídos desde 2016. Agora são brancos, com dois metros de altura até chegar ao assento, cabine completamente isolada do lixo, com uma vista privilegiada para a cidade. Os caixotes e contentores são colocados com a tampa num dispositivo nas traseiras do carro e o lixo automaticamente recolhido.

Pedro Henriques, 36 anos, há sete anos que é motorista, a partir do momento em que tirou a carta de pesados. Era cantoneiro de limpeza. "Gosto da condução", explica. Trata a nova "bomba" como se fosse o seu carro. "Até trato melhor, ando aqui muitas horas, e gosto das coisas limpas, sou assim. E esta é uma viatura em condições." Conclui: "Como diz um colega, é a minha secretária."

Não foi o dinheiro que o levou a trocar de funções e há mais cantoneiros que o fazem, mas o prazer de conduzir, ainda por cima uma grande viatura e com um sistema de brecagem quase a 360 graus. Mas, curiosamente, se já há algumas cantoneiras, não há nenhuma mulher motorista destas viaturas.

O ordenado base são 635 euros, a que se juntam horas extraordinárias (descansam apenas um dia por semana), subsídio de insalubridade e de alimentação, diuturnidades. Conseguem levar para casa ao fim do mês entre 700 e mil euros, depende da antiguidade e das horas extra contabilizadas.

E se a nível das condições salariais Pedro Henriques têm críticas a fazer, tal não acontece com as viaturas. "Houve uma melhoria de 100 % a nível de conforto, tanto para mim como para os meus colegas que vêm lá atrás, houve uma evolução muito grande com este reforço da frota, melhorou muito o nosso trabalho." Colocou um boneco no tablier que um colega lhe deu quando estreou o camião, purificador do ar, fornecido pela câmara. Antes de entrar ao serviço, vê o nível do óleo e da água.

"Nota-se que o lixo decaiu um bocadinho nas últimas semanas, as pessoas estão mais tempo em casa e aumenta o lixo doméstico, mas falta tudo o resto", avalia o Pedro. O pior dia costuma ser a terça-feira, mas neste período a maior carga recolhida foi na segunda-feira a seguir à Páscoa. Habitualmente não há recolha às segundas. Passou a haver todos os dias durante este período.

Os motoristas não mudam de circuito como os cantoneiros precisamente por conhecerem bem a viatura e o percurso. E as equipas estão divididas por dias em vez de semanas. Pedro Henriques diz que costuma ajudar os colegas, agora não o faz por questão de segurança. Numa terça-feira chega a carregar 19 mil quilos de lixo, o que faz em duas voltas, a terminar cada uma na Valor Sul, em São João da Talha, mais 40 minutos na descarga. Esta quinta-feira será um dia de duas voltas.

Ricardo e Nelo não param de trazer, despejar e levar caixotes, num ritmo intenso e que não para. Filipa e André, ainda mais durante este período, perceberam que o nível de stress era maior. Esta madrugada, Nelo pede-lhes para resolverem um problema. São os caixotes do lixo de um pequeno bairro, em cuja rua o camião não consegue entrar. Os caixotes já estiveram concentrados junto à estrada principal mas um morador reclamou e agora estão espalhados por uma rua íngreme, meia hora a trazer e a levar caixotes cheios.

Eles lá andam rua abaixo e rua acima, numa profissão fundamental para a saúde pública. À pergunta: têm palmas e agradecimentos? Nelo responde: "Não há palmas, tudo normal. Mas só peço para não deitarem o lixo no chão."

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