Seleção regressa a Milão, onde há 25 anos Queiroz falou em "varrer a porcaria da federação"

Portugal volta neste sábado a jogar em Itália, onde a 16 de novembro de 1993 falhou o apuramento para o Mundial 94 que fez estalar uma das maiores polémicas do futebol nacional. Tudo mudou após esse episódio de San Siro. Sobretudo desde que Fernando Gomes preside à FPF.

Faz neste sábado 25 anos que se escreveu uma das páginas mais polémicas do futebol português. Nessa noite Portugal foi afastado do Mundial 1994 com uma derrota com Itália (0-1) no Estádio Giuseppe Meazza, em Milão, e, no final, Carlos Queiroz, o então selecionador nacional, soltou uma frase que ficou célebre: "É preciso varrer a porcaria que há na federação."

Neste sábado, Portugal volta a disputar um jogo oficial naquele palco, desta vez a contar para a Liga das Nações, cuja qualificação para o playoff final está apenas dependente de um empate. Agora, Fernando Santos é o treinador nacional e muita coisa mudou na Federação Portuguesa de Futebol (FPF) desde aquele dia.

No dia 17 de novembro de 1993, a seleção nacional precisava de vencer para garantir o passaporte para a fase final do Mundial que se realizaria nos Estados Unidos. O futebol português vivia ainda no rescaldo de uma revolução causada pelo caso Saltillo no Mundial do México (1986) e das conquistas dos dois campeonatos do mundo de sub-20 por aquela que foi denominada de geração de ouro. A equipa que entrou no relvado de San Siro era composta por uma mistura entre a nova e a velha geração: Vítor Baía; João Pinto, Jorge Costa, Fernando Couto, Veloso; Paulo Sousa; Vítor Paneira, Rui Costa, Paulo Futre; Rui Barros, João Vieira Pinto. Foram ainda utilizados Rui Águas e Domingos Paciência.

A esperança no apuramento morreu aos 83 minutos, quando Dino Baggio fez o único golo da partida que originou muita contestação do lado dos portugueses, que defendiam que o médio italiano estava em posição de fora-de-jogo. Além disso, Fernando Couto foi expulso nos instantes finais, por se envolver num conflito com os italianos. Por toda esta sucessão de acontecimentos, a frustração apoderou-se de Carlos Queiroz que após o jogo, ainda no relvado, com o microfone da RTP à frente, lançou a bomba que acabou por lhe custar a continuidade no cargo: "É preciso varrer a porcaria que há na federação."

Em agosto de 2017, numa entrevista ao jornal i, recordou que nessa altura se viviam tempos de instabilidade, a fazer recordar casos antigos."Era um filme medonho. Contratos de publicidade, jogadores dispostos a repetir a situação de Saltillo, falta de equipamentos... E, mesmo assim, estivemos na luta pela qualificação até ao último minuto e perdemos com um golo fora de jogo do Dino Baggio", disse, alegando numa outra entrevista ao DN, um mês depois, que não se orgulhava daquilo que disse na altura. Se não fossem as merdas que a gente viveu até este jogo, até onde podíamos ter chegado? Naquele tempo não é como agora, a imprensa entrava dentro do campo e estava ali mesmo ao lado, e quando o jogo acaba eu saio e o António Esteves Martins põe-me o microfone à frente e eu, entre várias coisas, saiu-me esta barbaridade. Como não podia dizer merdas, disse 'enquanto não varrermos as porcarias que existem dentro da federação, a gente não chega a lado nenhum'. Não é propriamente dos melhores momentos da minha vida, até porque esse comentário, a seguir ao sentimento de tristeza e de angustia que se estabelece depois de um resultado negativo, caiu naquela altura que nem uma bomba."

Antes dessa partida de Milão, a FPF presidida por João Rodrigues tinha assinado um contrato de patrocínio com a Sagres, sem que os jogadores tivessem sido consultados... era quase uma réplica do que se passara no México, onde os jogadores da equipa das quinas reclamavam o pagamento de verbas relativas aos contratos publicitários estabelecidos pela federação, tendo até treinado com as camisolas viradas ao contrário para que não se visse o nome do patrocinador.

Sucesso em campo e... Ronaldo

Passaram entretanto 25 anos. E pela Federação Portuguesa de Futebol passaram quatro presidentes: Lopes da Silva, Vítor Vasques, Gilberto Madail e, desde 2011, Fernando Gomes. Desde 2000 Portugal participou em todas as fases finais de grandes competições, tendo inclusivamente organizado o Campeonato da Europa de 2004. A seleção alcançou um quarto lugar no Mundial 2008, enquanto nos Europeus foi terceiro classificado em 2008, finalista vencido em 2004 e conquistou o título inédito em 2016, em França, batendo na final os gauleses treinados por Deschamps com um golo de Eder no prolongamento. Neste sábado, um empate com a Itália pode colocar Portugal já no playoff da Liga das Nações, a nova prova criada pela UEFA.

As sucessivas qualificações da equipa das quinas para fases finais permitiram à FPF realizar importantes encaixes financeiros e, com a liderança de Fernando Gomes, a instituição consolidou um plano de desenvolvimento, com uma estrutura profissional, que não existia em 1993, altura em que a federação ainda tinha um funcionamento amador no exíguo edifício da Praça da Alegria, em Lisboa. Depois disso, passou para Avenida Alexandre Herculano, antes de se mudar de armas e bagagens para a magnífica Cidade do Futebol, em Oeiras, onde além de todas as instalações do organismo nasceu, em 2016, um centro de treinos para todas as seleções nacionais.

Além do rendimento da seleção nacional, a FPF beneficiou ainda do facto de na última década ter podido contar com Cristiano Ronaldo, cujo estatuto de melhor jogador do mundo permitiu contratos de publicidade e cachês para jogos particulares muito vantajosos.

Também a nível dos escalões inferiores Portugal surgiu como uma das maiores potências mundiais, com vários títulos conquistados desde 1993. A seleção de sub-19 foi campeão da Europa neste ano, os sub-18 venceram os Europeus em 1994 e 1999, os sub-17 em 2003 e 2016 e os sub-16 nos anos de 1995, 1996 e 2000. Para além disso, a Federação Portuguesa de Futebol conseguiu ainda um título europeu no futsal (2018) e vários no futebol de praia.

Faltam estrelas à seleção italiana

A diferença é abissal em comparação com a federação de há 25 anos. E mesmo no plano desportivo a seleção nacional encontra-se no sétimo lugar do ranking da FIFA, muito à frente da Itália, que está no 19.º lugar dessa tabela e atravessa uma crise profunda, que levou a que tivesse ficado fora do Mundial 2018.

Ao contrário do que tem atualmente, em 1993, os italianos tinham uma das melhores seleções do mundo, com estrelas como Franco Baresi, Paolo Maldini, Donadoni ou Roberto Baggio, entre outros. A Liga italiana era a mais importante da Europa e tinha o AC Milan como grande dominador, graças também a um lote de jogadores de respeito como Frankl Rijkaard, Ruud Gullit, Marco van Basten e Jean-Pierre Papin, entre outros.

Neste sábado, a seleção nacional vai tentar garantir o apuramento para o play-ff final da Liga A da Liga das Nações. Para isso bastará um empate, algo que nunca conseguiu, pois em três jogos - todos disputados em San Siro - sofreu três derrotas (3-0 em 1957, 3-0 em 1987 e 1-0 em 1993) e nunca marcou qualquer golo. Só por duas vezes, em onze jogos particulares, a equipa das quinas regressou a Portugal sem perder: 1-1 em 1967, graças a um golo de Eusébio; e 0-0 em 1992.

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