Mónica tem sete filhos, cinco prematuros. "É um drama irmos para casa de mãos vazias"

A história de uma mãe que teve sete filhos mas que a seguir aos partos só conseguiu deitar ao seu lado e amamentar de imediato três deles. Quatro, mal nasceram, seguiram para a incubadora. Mas, ao todo, cinco são prematuros. Confuso? Não, histórias de um quilo de gente que lutou pela vida como os gigantes.

É quase preciso um esquema para perceber a descendência de Mónica Cayolla da Veiga. Afinal, são sete filhos, cinco deles prematuros. Cinco histórias de sucesso para conhecer quando se comemora neste sábado o Dia Mundial da Prematuridade - anualmente nascem no mundo 15 milhões de crianças antes das 37 semanas, com pesos tantas vezes inferiores a um pacote de arroz, muitas delas sem hipótese de sobreviver. Em Portugal, segundo os números divulgados nesta quinta-feira pelo INE, 8,1 por cento das crianças nascidas no ano passado são prematuras.

Voltemos à história de Vicente Maria, e de Maria da Paz, e de Maria do Pilar e de Manuel Maria... os quatro filhos de Mónica que nasceram várias semanas antes de chegar ao termo da gravidez. Mas há também João Maria, que nasceu às 35 semanas mas não precisou de incubadora nem de internamento e, talvez, por isso, a mãe não o veja como prematuro. Mas é. Os manuais de obstetrícia e medicina materno-fetal consideram prematuras as crianças que nascem entre as 32 e as 37 semanas. Nestas gravidezes mais complicadas, Mónica, agora com 42 anos, jurista, sofreu de pré-eclâmpsia e oscilações graves de tensão. Hoje todos estão bem de saúde.

Vicente está agora com 16 meses, idade corrigida para 14. É o sétimo filho de Mónica e João Santos Pinto e conseguiu a proeza de nascer no dia 7 do mês sete de 2017. E o seu nome tem sete letras, mas só a posteriori a família descobriu mais essa coincidência.

É o mais novo de uma prole de cinco rapazes e duas raparigas e nasceu no Hospital de Santa Maria às 29 semanas de gestação, 1200 kg de gente. Esteve dois meses e duas semanas na incubadora, devido a problemas respiratórios. Quando nasceu, a mãe já era uma especialista nesta matéria. Afinal, já tinha tido outros três nestas condições... e um quarto que nasceu às 35 semanas sem complicações. O choque já não foi tão grande, conta Mónica, mas uma mãe teme sempre pela vida dos filhos... e até pela dela, quando no seu registo clínico constam seis cesarianas, pré-eclâmpsia e tensão arterial com grandes oscilações.

O batizado íntimo no serviço de neonatologia

Antes de Vicente Maria tinha nascido com 29 semanas e um dia a Maria da Paz, agora com 6 anos. Foi o caso mais complicado. Esteve um mês e meio muito mal, apanhou uma bactéria nos cuidados intensivos. "Andei todos os dias com o credo na boca, mas a evolução acabou por ser relativamente rápida." Mónica, que ia no terceiro filho prematuro, temeu seriamente pela vida da sua "caganita de 1,150 kg". A tal ponto que a sua formação católica a levou a pedir que se o pior acontecesse, de um momento para o outro, as enfermeiras lhe administrassem o batismo. Mas não aconteceu. A mãe falou então com o capelão do Hospital de Santa Maria e a Pazinha foi batizada na unidade de neonatologia. Nesse dia, as enfermeiras vestiram-na "toda pipi" (os bebés estão apenas de fralda na incubadora) e sentaram-na na cadeira de contenção que os ajuda a segurar a cabeça. "Foi sentada nesse trono que foi batizada. Foi um momento muito íntimo, muito intenso, a que só assistiram os pais, os avós e os padrinhos. Passado um dia, a Maria da Paz começou a melhorar", conta a mãe.

Maria do Pilar nasceu um ano antes de Maria da Paz, com 33 semanas e 1300 kg. Não chegou a estar internada um mês, foi tudo muito controlado. E antes a família recebeu o João Maria (9 anos), que nasceu às 35 semanas, mas a mãe nem o considera prematuro porque não precisou de incubadora nem de ficar internado.

Manuel Maria, o terceiro filho do casal, foi o primeiro a nascer antes do termo da gravidez. Hoje tem 10 anos o rapaz que pesava apenas 1 kg e chegou a um mínimo de 800 gramas. Esteve cerca de mês e meio internado, a maturidade pulmonar demorou a alcançar.

"Metemos a nossa mão na incubadora e é gigante em relação ao bebé. É arrepiante"

Como foi o primeiro parto prematuro de Mónica, foi talvez o seu maior choque no sentido de não lhe poder pegar, agarrar e amamentar logo ao peito. "É um drama ir para casa de mãos vazias. Quando nasceu o Jaime (14 anos) e o Vasco (13) regressei a casa com os meus bebés nos ovinhos. Neste caso não, foi um choque. Depois há ainda o facto de estarmos no piso das puérperas e ouvir os outros bebés a chorar, ver as outras mães a amamentarem e não termos a nossa cria ao nosso lado. E depois parte fisiológica a funcionar, a subida do leite..."

Mónica amamentou os sete filhos, mesmo os que estavam internados, com todo o sofrimento que, físico e emocional, isso lhe causava. O não poder pô-los ao peito, as dores provocadas pelas bombas de extração de leite, a logística de congelar biberões e levá-los para o hospital...

A gravidez do Manuel estava a correr bem, até que a ecografia do último trimestre revelou que o bebé não estava a desenvolver-se. Foi internada em Santa Maria - "disseram-me que tinha de ficar no choco" - à espera de uma decisão equilibrada entre fazerem o parto e o estado em que se encontrava o bebé. "E, contra tudo e contra todos, aconteceu uma graça, o Manuel Maria nasceu de parto natural, o único dos meus sete filhos, mas foi de imediato para a incubadora. Foi um choque não o ter ao pé de mim e deslocar-me do quinto ao oitavo piso, onde está a neonatologia. Um sítio estranho, cheio de máquinas a apitar. Ali tudo é diferente, temos de nos desinfetar, pôr máscaras, vestir uma bata. E não é agarrar o bebé quando se quer, porque está agarrado a um emaranhado de fios. As máquinas, o ambiente, a fragilidade assustam muito. Metemos a nossa mão na incubadora e é gigante em relação ao bebé. É arrepiante", conta Mónica Cayolla da Veiga.

Depois de tudo o que passou, quando soube que estava grávida do João Maria decidiu fazer uma viagem com o marido. Para se desanuviar de quaisquer problemas que pudessem advir e, ao mesmo tempo, descansar de uma situação dolorosa e extenuante. Mas ele nasceu às 35 semanas e não trouxe problemas. Um alívio para a família.

Ao sétimo filho, Mónica já estava mais do que habituada a percalços que a levavam a ficar internada antes dos partos e a voltar a casa sozinha sem os bebés. Mas sobre cada um tem um relato diferente para contar: A gravidez de Vicente, o do número 7, levou a mãe a ser seguida no público nas consultas de alto risco e a deparar-se com o drama de estar numa situação complicada, com todo o seu currículo clínico, e não lhe ser feita uma ecografia por causa da greve dos médicos. Entretanto fez umas análises que revelaram valores complicados, sentia-se estranha, e acabaria por ficar internada - "toda a gente a panicar com o meu historial", conta. Com pré-eclâmpsia e as análises de urina com valores elevadíssimos que tinham de ser repetidos de 24 em 24 horas voltou a deparar-se, desta vez, com a greve dos técnicos de laboratório.

Voltou para casa. Ao fim de uma semana aconteceu o que nunca tinha acontecido: teve uma hemorragia grande. Ainda esteve dois ou três dias no hospital até que a 7/7/2017 nasceu o Vicente Maria. Que Mónica, de 42 anos, diz que será o último dos seus filhos.

Idade aumenta risco de prematuridade

São as mulheres na faixa etária acima dos 40 anos que têm mais filhos prematuros - a idade mais avançada é, aliás, uma das causas apontadas pelos especialistas para o aumento deste fenómeno neonatal. Se compararmos, por exemplo, os partos das mulheres com 30-34 anos e os das mães com mais de 40, conclui-se que a percentagem de nascimentos prematuros é superior nas mais velhas (11,2%) enquanto nas mais jovens é de 7,9%.

Luís Graça, da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal, elege os fatores para explicar o aumento dos nascimentos prematuros: a idade cada vez maior das mães, que acarreta um maior número de patologias; o recurso a técnicas de reprodução medicamente assistidas e gravidezes gemelares.

E é a opção de as mulheres terem os filhos cada vez mais tarde que merece alguns reparos do especialista, por considerar tratar-se de uma moda engravidar depois dos 40 - questões socioeconómicas, a estabilidade e progressão na carreira e o estilo de vida têm levado as mulheres a optar por ter o primeiro filho muito tarde. Razões que levam o médico a deixar uma mensagem: "As mulheres têm de se reproduzir antes dos 35 anos, assim as complicações na gravidez, nomeadamente a prematuridade, são menores." E dá um exemplo que, na sua opinião, é preciso contrariar: em 2001 a média de idade materna era 29 anos, em 2017 andava por volta dos 32 anos.

O número de prematuros tem, alíás, vindo a crescer nos últimos anos. Em 2017 nasceram em Portugal 7011 crianças prematuras, mais 210 do que no ano anterior, segundo dados divulgados nesta quinta-feira nas Estatísticas Demográficas do Instituto Nacional de Estatística. Estes valores significam que 8,1 por cento dos bebés nascidos no nosso país são pré-termo.

Antes de engravidar, qualquer que seja a sua idade, uma mulher tem de ser avaliada do ponto de vista ginecológico para saber se tem um aparelho reprodutivo normal e se é saudável.

Em segundo lugar é preciso fazer um despiste e controlo das doenças que podem complicar a gravidez como a diabetes (em Portugal estima-se que só estejam diagnosticados 50% dos diabéticos) e a hipertensão. Por outro lado, é fundamental um seguimento correto durante a gestação que permita diagnosticar situações intrínsecas à gravidez.

Tirar partido da prematuridade

Mónica encara todas as situações que viveu sem demonstrar dramatismos, mas bastante consciente dos riscos corridos. Desde o primeiro caso, aprendeu a tirar proveito da prematuridade. "Não posso tê-lo, mas posso pedir à enfermeira que lhe tire os fios para fazer o canguru, uma técnica que ajuda ao desenvolvimento da relação entre o bebé e a mãe ao fazer contacto pele com pele, no mínimo uma hora." Não é fácil, assegura, ter uma criança sobre o peito durante este tempo quando se está tão debilitada. Mesmo assim chegou a ficar duas horas e mais, bastava que as enfermeiras deixassem. O marido fez questão de também praticar a mesma técnica.

Tornou-se uma "cliente" assídua do Hospital de Santa Maria e para todo o pessoal, dos médicos, enfermeiros aos auxiliares, só tem elogios. Os internamentos também lhe permitiram criar laços com outras mães, algumas são hoje suas amigas. Dos tempos de Vicente Maria ficou com o hábito de todos os trimestres fazer um almoço com a sua e as famílias de Sara, Joana, Raquel e Joice. Lucinda é de Angola, mas falam pelo WhatsApp.

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