A hora da Europa


No passado mês de maio, chegou ao porto de Antuérpia o primeiro comboio direto de mercadorias vindo da China, mais precisamente do porto de Tangshan. Foram 16 dias de viagem, 11 mil quilómetros e 34 contentores de mercadorias para serem distribuídos pelos quatro cantos da Europa, um bom exemplo da melhoria operacional inscrita na Belt and Road Initiative e que tem no corredor eurasiático um dos braços de afirmação geopolítica da China moderna. Se lhe acrescentarmos a rota do Ártico e o corredor indo-africano ficamos com uma ideia da ambição de Pequim nas próximas décadas.

Em primeiro lugar, massificar a sua capacidade exportadora para lá da região asiática, prosseguindo dessa forma uma radial de aceitação sobre o seu modelo económico e sobretudo político. Em segundo, alargar a sua pegada económica, financeira e de infraestruturas aos pontos estratégicos dos principais fluxos comerciais e securitários da Ásia, da Europa e de África: estreitos e portos no Índico, portos e ferrovias na costa europeia do Mediterrâneo, portos no mar do Norte e no Ártico, ferrovia na Ásia Central e na África Oriental. Só o uso da rota polar pode tirar dois mil quilómetros e alguns milhões aos custos do transporte comercial feito entre os portos chineses e a Europa, habitualmente conduzida através do canal de Suez. E, em terceiro, exponenciar a sua influência política e militar em países progressivamente condicionados pela sua ascensão meteórica, sejam ou não democracias. Desta forma, a China assegura uma nova aceitação internacional aos seus interesses, consegue intrometer-se nas divisões ocidentais e consolida o seu modelo de regime para consumo interno.

Tudo isto é não só perfeitamente legítimo como fruto de um fino pensamento estratégico, o que faz atualmente da China a única grande potência com uma grande estratégia em curso. Podemos ser mais ou menos otimistas sobre ela, olhá-la com mais ou menos ceticismo, considerá-la uma vantagem ou uma ameaça aos nossos valores. Estou de acordo que todas estas valências fazem parte do debate sobre a ascensão da China e que, por via disso, não devemos ser dogmáticos sobre a conduta adotada. Há esferas em que podemos ser mais flexíveis na acomodação dessa ascensão e outras em que devemos ter os níveis de alerta adequados. Não me chocaria, por exemplo, que se criasse um Conselho NATO-China (como já aqui propus em tempos) ou que conseguíssemos muito mais fluidez nos intercâmbios universitários e científicos. Penso que tudo isso só melhoraria o nosso conhecimento sobre as várias realidades chinesas e dar-nos-ia outra capacidade de envolver uma elite menos dependente do poder estatal, a braços com um tempo político vital à sua durabilidade.

Em conversa recente com George Friedman, incluída no livro O Futuro do Trabalho: Dez Entrevistas (coordenado pela Bárbara Reis e lançado nesta semana no principal evento anual da Fundação Francisco Manuel dos Santos), discutíamos o caminho chinês para os próximos anos. Friedman apontava um de dois rumos, ambos extremamente complexos para Xi Jinping, dadas as assimetrias de rendimentos (500 milhões abaixo do limiar de pobreza) e uma estrutura financeira parecida com a japonesa nos anos 1980: ou a China se torna numa ditadura clássica ou consegue ser acomodada regionalmente. Como a gestão destes dilemas é, para Friedman, uma impossibilidade, o cenário mais plausível é que a China caia numa guerra civil, mergulhando nela a Eurásia. Se há quem me atribua um pessimismo analítico constante, leiam os argumentos de Friedman e perceberão até onde pode ir o quadro negro. Mas se a tipologia de projeções é variada, há um ponto que me parece inegociável numa disputa argumentativa: como europeus, não devemos nunca, nessa como noutra relação com uma grande potência, abdicar de uma grelha que vem sustentando a consolidação das nossas democracias. Digo consolidação porque, como sabemos, está ainda muito por fazer.

Um dos mecanismos que a UE dispõe para arrumar as relações com grandes potências é a dinâmica negocial empregue a acordos comerciais, de investimento, defesa ambiental, regulação financeira, propriedade intelectual e resolução de conflitos sem recurso à força militar. É preciso dizer que, apesar de todas as pedras no caminho, a UE tem-se saído muito bem no cômputo geral. Tem sabido afirmar o seu mercado único como o mais vantajoso espaço comercial do mundo e tem conseguido manter uma base de entendimento com todas as regiões com base numa grelha jurídico-política e não numa conflitualidade latente.

O facto de considerar o senhor Juncker um erro de casting para liderar a Comissão neste tempo europeu, não quer dizer que não concorde com a prioridade que deu à força económica conjunta da UE no seu discurso desta semana ao Parlamento Europeu. Como também me parece importante valorizar o facto de esta Comissão ter dado um bom impulso às negociações com a China para um acordo de investimento bilateral que teve em julho a sua 17.ª ronda e que no final de outubro parte para uma nova. Importante, porque procura estabelecer um enquadramento legal e político imprescindível à atuação do investimento chinês na Europa, mas também à necessária reciprocidade das regras que manifestamente os europeus não possuem quando querem expandir os seus negócios ou investimentos para a China. Precisamos, para corrigir tudo aquilo que está mal nas relações económicas entre a UE e a China, de negociar mais e melhor, de conhecer o lado chinês com outro rigor, de evitar abafar a dinâmica negocial da Comissão através de mecanismos bilaterais entre os Estados membros e a China, os quais invariavelmente são sempre mais vantajosos para Pequim. Mas não podemos deixar de, a par da conduta negocial e da cadência jurídica, capitalizar a UE de mais força política, diplomática e militar. A credibilidade e a confiança negociais resultam muito desses três atributos.

É por isso que o próximo presidente da Comissão é tão relevante para o momento que se vive na Europa: coesão interna em risco com brexit oficializado e nacionalismos em subida; necessidade de afirmação externa no meio de um soberanismo agressivo em Washington e Moscovo, e com a China sem travão em plena passadeira vermelha. A isto, sim, chama-se a hora da Europa.

Investigador universitário

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