E se Trump diz alto o que muitos pensam calados?

O mundo é um lugar mais estranho, mais perigoso e mais complexo visto de um congresso de jornalistas em Austin, no Texas - onde estou por estes dias. Sobretudo na semana em que Bob Woodward editou o livro sobre a administração Trump, um relato da loucura que se vive na Casa Branca a que o autor chamou, sem pejo, Fear, Medo. E na ressaca da publicação pelo The New York Times do artigo anónimo de dentro da própria administração, em que o funcionário que o escreveu relatava um "estado de sítio".

Estes dois episódios são os mais recentes na guerra em que os media e Donald Trump entraram. Cada um dos lados tem usado as armas à disposição. Trump aproveitando algum descrédito do jornalismo e a fragilidade financeira das empresas de media desde que a concorrência de outras fontes de informação, como as plataformas e redes sociais, se tornou feroz. Os jornais amplificando todas as falhas, ridículos e exageros de uma figura caricatural e pouco ortodoxa. Os jornalistas estão acossados, os políticos e poderosos esfregam as mãos, o povo assiste na bancada.

Nunca se falou tanto em verdade num congresso de jornalistas. Dantes, não era preciso. Era a ordem natural das coisas. Os jornalistas perseguiam-na, os leitores acreditavam. Agora, com tantas versões da realidade a circular no inferno informativo, voltou a ser. "Sim, há uma verdade e uma mentira, sim, há factos e não, não há verdades alternativas, e uma notícia falsa, simplesmente não é notícia, é uma mentira", quase gritava Evan Smith, o fundador do Texas Tribune, um jornal online que só cobre política e políticas públicas e que apareceu para combater o que aqui se designa por deserto informativo - quando os grandes grupos abandonaram os pequenos mercados.

Fechados num hotel de Austin, no congresso da Online News Association, os jornalistas podem ter tendência a fazer aquilo que nas redações é um dos pecados capitais - olhar o mundo do seu ponto de vista. E o do público? Os cidadãos? Trump grita alto o que muitos pensam em surdina? E se tudo o que aqui, nos EUA, se vive tão à flor da pele seja o que se passa em todo o mundo de forma mais ou menos subterrânea?

A crise dos media é apenas um sintoma. Não é apenas a crise do jornalismo, é a crise da própria noção de democracia e do que os cidadãos querem fazer com ela, e nela. O jornalismo está a definhar, é certo - os dados da Pew mostram que há, hoje menos 23% dos jornalistas que havia há dez anos. Mas isso só acontece porque as pessoas, os consumidores e cidadãos, não valorizam o jornalismo - e não estão dispostas, por exemplo, a pagar por esse "serviço". Se quisessem escrutínio, como querem cervejas ao final da tarde num dia de calor, pagavam o escrutínio como pagam as cervejas. Se quisessem a verdade, e não mais uma versão do achismo, quanto mais escandaloso melhor, talvez estivessem dispostas a recusar o isco de cliques das notícias "mais ou menos" verdadeiras, mais ou menos ficcionais. O mesmo estudo do Instituto Pew mostra que 57% dos que veem notícias através das redes sociais esperam que sejam "altamente pouco rigorosas".

O jornalismo não está isento de culpas - por se ter distanciado do que as pessoas precisam, por se ter fechado em castelos de cristal, por ter estado mais perto do poder do que das pessoas, por não ter sido sempre rigoroso nem ter usado a integridade como o seu modelo de negócio. O que até é estranho, sendo que a vontade de ser jornalista envolve sempre uma missão altruísta, como dizia Dan Rather numa sessão: "Querer ser parte de algo maior do que só nós próprios, parte de alguma coisa que conta, que importa e se importa." Mas que ninguém tenha dúvidas. Como diz o The Washington Post, a democracia morre na escuridão. E é missão de todos iluminá-la.

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