Onde pára a geração Erasmus? 

A opinião em jornais, rádios e televisões está largamente dominada por homens, brancos, nascidos algures no século passado. O mesmo se passa com jornalistas e políticos que fazem a maior parte dos comentários. Este problema está há muito identificado e têm sido feitos alguns esforços para se chegar a uma maior diversificação desta importante função dos órgãos de comunicação social. A diversidade não é receita mágica para nada, mas a verdade é que ela necessariamente enriquece o debate. Quando se discute o rendimento mínimo de inserção, por exemplo, o estatuto, a experiência, o ponto de vista importa não só dentro da dicotomia entre esquerda e direita, mas também consoante as pessoas envolvidas estejam mais ou menos directamente ligadas aos efeitos das políticas em discussão. Esta constatação é demasiadamente banal para precisar de maior reflexão. Acontece que, paradoxalmente ou não, se tem assistido a uma maior diversificação social entre a classe política activa do que propriamente entre aqueles que sobre ela opinam.

Ora, no esforço que tem sido feito para reduzir o peso dos homens de um certo tipo na esfera da opinião, algo tem ficado de fora, a saber, a preocupação em trazer para o debate um maior número de membros daquilo a que podemos chamar a geração Erasmus. Trata-se de pessoas, quase sempre mais novas, que passaram algum tempo no estrangeiro, durante a formação académica. Essas pessoas estão muito pouco presentes nos debates e isso é pena. E por que é importante?

Vejamos alguns exemplos, sem dar nomes, nem locais de publicação, para tentar chegar mais facilmente a alguma generalização. Recentemente, um desses comentadores tradicionais comparou o actual governo chinês ao nazismo. Conseguiria alguém que tenha passado uma temporada na Alemanha dizer um disparate desse calibre? Dificilmente, diria eu. E se uma coisa dessas não for, de facto, dita, o debate torna-se necessariamente mais culto, mais avançado, permitindo uma maior concentração do pensamento nos verdadeiros problemas da repressão política na China.

Noutra vez, um colunista mais jovem, num jornal que por acaso até tem dado voz a essa faixa etária, surpreendia-se por Portugal não "avançar", apesar do seu passado glorioso. Quem se passeia um tempo suficiente pela Europa fora, de olhos bem abertos, sabe que na maior parte dos países, sobretudo europeus, da Roménia à Hungria, da Polónia à Inglaterra, se pode também formar essa sensação de um passado glorioso, e que isso de pouco serve para melhor compreender os problemas do presente.

Num outro caso, um desses partidos políticos pequenos que agora entraram no Parlamento entretém-se a comparar níveis de impostos de Portugal com os de um reduzido punhado de países do Leste Europeu. Qualquer estudante universitário que tenha passado por um desses países enriqueceria de imediato o debate sobre o tema, reduzindo a escombros quaisquer facilitismos argumentativos.

Nos debates sobre a avaliação dos serviços públicos, sobre a carga fiscal, nas discussões sobre o défice demográfico, sobre o papel do governo na organização da sociedade, sobre a intervenção política das minorias, sobre a capacidade de desenvolvimento, sobre uma imensidão de temas da actualidade, haveria muito a ganhar com um pouco mais de cultura internacional e a geração Erasmus poderia contribuir para isso.

Aliás, essa influência de quem passou algum tempo da sua vida formativa em outros países faz-se seguramente sentir em esferas mais estreitas, tanto em meios empresariais como familiares e universitários. Faz mesmo falta que essa influência passe para o debate público, para as colunas dos jornais, para o comentário radiofónico e televisivo. Nem tudo é negro, pois há notáveis excepções e são essas mesmas excepções a melhor prova de que o problema existe.

É claro que é preciso não esquecer que a geração Erasmus é uma geração privilegiada, pois ainda não são todos que têm capacidade financeira para frequentar o ensino superior - embora isso, felizmente, esteja a ser ultrapassado - e nem todos os que frequentam a universidade têm capacidade financeira para passar uma temporada fora de fronteiras. Por isso esta é apenas mais uma das várias diversificações necessárias a um país de debates mais cultos.

Digo isto tudo porque fui um dos privilegiados que cedo tiveram contactos com o exterior, contactos que me fizeram olhar para os problemas do país de uma forma que eu penso ser mais consistente, mais promissora. Com esse tipo de exercícios chega-se à importante conclusão de que Portugal não é um país "diferente", pois todos os países o são, mas sim um país europeu com problemas - e soluções - semelhantes aos demais. Esta conclusão, simples, genérica, banal, corriqueira, acreditem, leva os debates a níveis muito mais elevados.

Claro que haverá sempre resistência à mudança, vinda sobretudo daqueles cuja "inteligência é feita da estupidez dos outros", para citar uma das nossas grandes poetisas.

Investigador da Universidade de Lisboa. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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