O esforço e a dedicação que fazem somar medalhas na ginástica na Maia

O Acro Clube da Maia tem apenas 15 anos mas é um caso de sucesso desportivo na ginástica acrobática. São mais de 30 medalhas em europeus e mundiais. Para tal, é preciso treinar quatro horas por dia.

Quando se fala em ginástica acrobática em Portugal é imperioso conhecer o Acro Clube da Maia. Nos últimos dez anos, este clube da Maia tem colecionado dezenas de medalhas na modalidade. No recente Campeonato da Europa, em Israel, estiveram 17 ginastas e três treinadores do Acro em representação de Portugal - a seleção nacional levou 25 atletas. No saco maiato vieram nove medalhas: três de ouro, cinco de prata e uma de bronze.

Em julho, nos Jogos Europeus de Minsk, também houve conquistas com destaque para o trio composto por Bárbara Sequeira, Francisca Maia e Francisca Sampaio, com uma medalha de bronze e duas de prata. São prémios por um trabalho que já leva anos e exige uma dedicação permanente: estes jovens ginastas treinam quatro a cinco horas por dia, só descansando aos domingos. "É preciso gostar muito, tem grande esforço e muito compromisso", resume Henrique Piqueiro, de 20 anos, um dos medalhados em Israel. É também um dos 15 atletas do clube nortenho que estão nomeados para os prémios da Federação de Ginástica de Portugal, em dezembro.

Rita Ferreira, de 19 anos, estudante do 2.º ano na Faculdade de Medicina do Porto, é um exemplo de como se chega às medalhas. Começou há 13 anos a fazer exercícios. "Foram os meus pais que me trouxeram para a ginástica, a conselho de uma professora. Eu tinha muita energia", conta a jovem que fazendo par com Ana Rita Teixeira, de 15 anos, ganhou duas medalhas de ouro e uma de prata no Europeu. A somar a mais dez alcançadas desde 2014 em mundiais e europeus. Todos os dias há treino. São quatro horas, ao fim do dia. Às terças e quintas os ginastas treinam ainda de manhã, a partir das 06.30. "É difícil coordenar tudo agora com a faculdade, mas consegue-se. Entre horas de faculdade, de estudo e de treinos, sobra pouco tempo."

Ana Rita Teixeira, que se estreou num Europeu, estuda no 10.º ano e diz que sai dos treinos às 21.00, "depois é tomar banho, comer e ir para a cama". Estas conquistas são uma recompensa, embora no Acro Clube da Maia todos digam que não são as medalhas que os movem. "Há um grande convívio, amizade e uma vontade de fazer melhor."

O clube nasceu em 2004 quando um grupo de pessoas decidiram dar corpo a uma aposta mais consequente a nível da ginástica. Começou com os escalões mais jovens e com a ginástica acrobática como principal modalidade. A seguir entraram a ginástica artística e os trampolins, em que os resultados, a nível de medalhas, não são iguais. "Há mais países em competição, mais atletas, logo é mais difícil", explica o diretor técnico Lourenço França. Mas em 2020, a ginasta Filipa Martins irá aos Jogos Olímpicos de Tóquio pela modalidade de ginástica artística. A acrobática não integra o calendário olímpico, para desgosto dos atletas. "É um dos nossos sonhos. Permitiria haver mais apoios e falar-se mais da modalidade", diz Rita Ferreira.

O sucesso na acrobática tem uma explicação comum a todos. Lourenço França sintetiza: "Trabalhar muito. Têm de gostar muito de fazer ginástica. Se não estivessem tão dedicados, de manhã à noite, era impossível obter estes resultados."

Ser médica e treinadora

O mesmo se aplica aos treinadores, 28 no total se incluirmos todas as vertentes. Úrsula Martins, de 31 anos, foi atleta e hoje treina a classe de elite de ginástica acrobática. É médica no Hospital de Santa Maria da Feira, a tempo inteiro, e vive entre esta cidade e a Maia, a mais de 40 km. "É um esforço enorme conciliar as duas coisas. Mas vale a pena. Para se ter resultados é preciso uma dedicação grande de toda a gente, para conciliar treino e vida pessoal." E isso acontece no Acro Clube onde está desde o primeiro dia. Acabou a carreira de atleta aos 20 anos e ficou a treinar, dedicando-se mais à vertente artística.

Na ginástica acrobática há pares, trios e quadras, com atletas masculinos e femininos a treinarem e a competirem juntos. Em cada vertente há três categorias: equilíbrio (figuras estáticas), dinâmicas (com saltos) e combinados (misto das duas anteriores). A presença feminina é maior entre os atletas, logo há também mais medalhas ganhas por elas. Mas no Acro Clube há rapazes que se destacam. Henrique Piqueiro, Frederico Silva, Henrique e Miguel Silva formam a quadra que conquistou três medalhas (ouro, prata e bronze) em Israel. Henrique Piqueiro, como a maioria dos ginastas, é estudante de Engenharia na Universidade do Porto, cidade onde reside e onde começou a praticar no Sport Clube do Porto. "Vim para o Acro há dez anos por querer mais competição", conta. A irmã foi ginasta e foi uma influência.

Os treinos diários são à base de muitos exercícios, muita repetição. "Só assim se evolui. As medalhas são boas porque dão visibilidade, incentivam a haver mais atletas, a aparecerem mais clubes", analisa. As horas diárias de trabalho exigem uma grande disciplina. "Há uma organização da vida que é também importante. Os pais ajudam imenso. Ainda não tive tempo para tirar a carta de condução e venho do Porto para a Maia com os meus pais." Mas não sente grande falta de mais tempo para a diversão. "Este convívio no clube é uma forma de vida social." E confessa que a namorada é a Francisca Maia, também do Acro Clube. "Foi na ginástica que a conheci."

Francisca, de 20 anos e estudante do 4.º ano de Medicina, faz trio com Francisca Sampaio e Bárbara Sequeira, também estudantes, a primeira do secundário e a segunda de Psicologia. As três, todas da Maia, ganharam medalhas nos Jogos Europeus de Minsk e agora no Campeonato da Europa. Bárbara começou aos 4 anos e agora é das mais velhas. Com 23 anos está na idade da veterania, embora no seu caso tenha havido um interregno na prática em 2014. "Foi a idade da estupidez", ri-se. Regressou e garante que "enquanto sentir capacidade é para continuar". Desvaloriza as eventuais lesões. Por vezes, há dores no corpo, tendinites, contraturas.

O treinador Lourenço França diz, em jeito de graça, que "isso não são lesões" e esclarece: "Há menos lesões na ginástica do que no futebol." Isto apesar da ginástica acrobática implicar segurar um corpo no ar ou dar saltos quando se está apoiado apenas nas mãos dos colegas. "Importante é não haver distrações nos exercícios", diz Bárbara Sequeira.

Todos os ginastas do Acro Clube da Maia têm um lamento - fala-se muito pouco na ginástica. "É transversal ao desporto em Portugal. Tirando o futebol há pouca atenção", diz Lourenço França, para quem as medalhas não fazem melhores atletas mas têm o efeito de "criar uma bola de neve que cresce, um espiral positivo, sai nos jornais, logo há mais patrocínios".

O Acro vive das suas organizações de eventos como a edição da Liga dos Campeões que decorreu no fim de semana passado na Maia, reunindo alguns dos melhores ginastas da atualidade. Outro evento, o Maia Internacional ArcoCup, já vai na 14.ª edição. Depois há as mensalidades dos praticantes e alguns apoios autárquicos. "Somos uma coletividade sem fins lucrativos. Vivemos como podemos", resume o diretor técnico que está no clube maiato requisitado pela Federação Portuguesa de Ginástica. Com instalações próprias, o clube criou a Acro Kids, um centro de estudo com 45 professores que serve os ginastas como qualquer outra pessoa.

No total, nos espaços do Acro andam 300 ginastas, com os mais novos de 3 anos. Aprendem a lidar com o meio, fazem motricidade duas vezes por semana. A partir do quinto ano já fazem ginástica. Depois a escolha da variante é dos atletas, com ajuda dos treinadores. "Explicamos o que será mais adaptável a cada um deles." Aos 15 anos passam a ser seniores. São estes que agora já pensam no Campeonato do Mundo de 2020 e nos Jogos Mundiais de 2021.

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