A estratégia de Macron 

A longa entrevista de Emmanuel Macron à revista The Economist tem marcado a semana transatlântica. Houve quem elogiasse o desassombro e quem criticasse o alarmismo. Afinal, o que propôs Macron? E Portugal, deve seguir a sua estratégia?

A polémica entrevista de Macron à The Economist traz menos novidade do que o alarmismo causado. O Macron-analista usa termos apocalípticos para assegurar que as mensagens não passam ao lado da torrente política internacional em curso, em que o impeachment intercala com o Brexit, a morte do califa do ISIS com altas tensões comerciais, ou a nova Comissão Europeia com a passada chinesa. Deste ponto de vista, os dois objetivos principais foram alcançados. Por um lado, criou o frisson necessário para recolocar Paris no centro do pensamento estratégico europeu, no momento em que Londres está à deriva e Berlim perdeu impacto. Por outro, obrigou a reações várias que antecipam alinhamentos e dissonâncias de fundo. Mas foi o Macron-político quem mais sobressaiu.

Macron é explícito sobre a viragem da administração Trump, num bullying a aliados, à NATO e à ONU. É neste quadro de inversão com os compromissos do pós-Guerra Fria que a França, segundo Macron, tem uma oportunidade: a de forçar a autonomia da União Europeia na defesa, aproveitando o desinteresse de Washington. A novidade está aqui e não na autonomia europeia. Ela foi ensaiada ao longo da integração europeia, passando por proclamações efusivas e pela aceitação da impotência. Por contextos que motivavam um grupo mais alargado de aderentes e por momentos geopolíticos que indiciavam a certeza do caminho. Por mais complementaridade com a NATO ou por uma dissonância de interesses.

O que é novo é o momento político atual e é por isso que Macron sobe a parada, sentenciando a "morte cerebral" da NATO e propondo um "diálogo com a Rússia".

A administração americana é dúbia sobre a importância da NATO, a principal potência militar da UE (Reino Unido) na NATO está de saída da primeira, e o aliado com o segundo maior Exército (Turquia) é abertamente disfuncional na articulação com os restantes membros da Aliança, o que cria uma pressão permanente à segurança coletiva expressa no artigo 5.º do Tratado de Washington. Acrescem a isto um congelamento sine die de novos alargamentos, a queda em desgraça das missões "fora de área" e o congelamento da relação com a Rússia desde a invasão da Crimeia, há cinco anos. Para Macron, este é o momento para projetar a França no meio destas dinâmicas. Como? Sublinhando o seu carácter de única potência nuclear na UE. Sinalizando a dinâmica imposta na defesa europeia desde que chegou ao Eliseu, reconfigurando-a como uma cooperação estruturada permanente, sem precisar de todos, instituindo-lhe uma Iniciativa de Intervenção conjunta e um fundo capaz de servir uma indústria mais moderna, mais capaz e mais credível.

A novidade na entrevista à The Economist está nos recados enviados. Primeiro, a Washington: percebemos as legítimas opções, amigo não empata amigo, seguiremos mais autónomos. Segundo, para Berlim: reconhecemos os esforços, mas não têm sido suficientes nem de alcance satisfatório, seguiremos mais líderes. Terceiro, para Londres: aceitamos o divórcio, alertamos para o estado da NATO, mas queremos uma parceria estratégica. Quarto, para Moscovo: vincamos as linhas vermelhas ultrapassadas, percebemos a vossa lógica de poder, mas temos de saber conviver para podermos lidar na Europa com a ascensão da China e todas as ameaças comuns que proliferam na nossa vizinhança. O Macron que começa analista e acaba político recupera todos os raciocínios clássicos da cultura presidencial francesa. O facto de não ser inovador não significa que nalguns pontos não esteja correto, nomeadamente na salvaguarda da relação com o Reino Unido e na necessidade de dotar a UE de maior credibilidade geopolítica pela via da defesa. Os dois pontos mais frágeis dizem respeito a Berlim e a Moscovo.

Aos alemães, por lhes colocar novamente uma pressão contraproducente, tendencialmente promotora de mais desagregação comunitária do que de convergência. Isto é válido para a defesa, mas também para a zona euro e para as linhas vermelhas ultrapassadas por alguns Estados membros, como a Hungria, sobre a qual Macron é acrítico. Recordo que Macron já havia colocado Merkel sob tensão quando enunciou o seu roteiro de reformas do euro logo após as legislativas alemãs de 2017, sabendo que Berlim não tinha condições de acompanhar o que quer que fosse sem um governo formado, o que levou seis meses a acontecer. O momento em Berlim é hoje de enorme fragilidade na coligação, com o fardo do arrefecimento económico a impactar a zona euro e uma disputa pela liderança no SPD. Dificilmente a Alemanha se juntará às dinâmicas europeias exigidas por Macron se sentir uma pressão absolutamente incomportável como a que resulta da entrevista à The Economist.

Aos russos, porque Macron é absolutamente condescendente com o Kremlin. Não há uma condenação às intromissões nas eleições ocidentais (vamos ver como evolui o dossiê de possível conluio com os conservadores britânicos), uma vontade pelo cumprimento dos acordos de Minsk, uma valorização da política de sanções da UE, nem mesmo a recusa em pactuar com a vitimização que Moscovo usa para criar a ilusão de cerco da NATO às suas fronteiras. A verdade é que o total da fronteira russa é de 20 mil km (14 Estados), sendo apenas de 1250 km com membros da NATO (cinco), além de que os alargamentos a leste foram uma legítima, soberana e acertada decisão dos Estados que passaram a integrar a Aliança. Para premiar a Rússia de Putin, o verdadeiro infrator nesta história, Macron abriu entretanto as portas do Conselho da Europa e vetou o início das negociações de adesão da UE com a Albânia e a Macedónia do Norte. O que propõe agora é voluntarista, não assegura nenhum nível de confiança dado pelo Kremlin, e apenas premeia com um apaziguamento cínico um regime que viola a soberania de terceiros em eleições, invade território soberano e mata opositores políticos. Ninguém defende um corte com a Rússia, mas não é desculpabilizando o regime de Putin que se torna a Rússia um parceiro confiável e duradouro.

Seja Macron-analítico ou Macron-político, ficou clara a sua estratégia: ter os americanos fora, os alemães em baixo e os russos dentro. Portugal não deve alinhar nisto.

Investigador universitário

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