Operação Atalanta. Comando em língua portuguesa no mar da Somália

Um navio de assalto anfíbio, um helicóptero, um avião patrulha , duas lanchas e dois drones, com cerca de 450 militares espanhóis, estão sob comando português numa missão da UE. Entendem-se, claro está, em "portunhol".

A mais de sete mil quilómetros de distância, o comodoro Diogo Arroteia responde ao nosso bom dia (aqui são 11.00) com um sorridente "boa tarde" - onde está, a cerca de cinco quilómetros da costa da Somália, são três da tarde e o dia começa cedo, com o primeiro briefing logo às oito.

Está a bordo do navio de assalto anfíbio Castilla, da Armada Espanhola , o quartel-general em alto mar da Operação Atalanta da União Europeia (UE) que tem como objetivo proteger os navios fretados pelo World Food Programme para transporte de ajuda humanitária à população da Somália, assim como outros navios de risco que que atravessem o Golfo de Áden e a Bacia da Somália, por onde passa cerca de 80% do comércio mundial de petróleo a caminho do canal do Suez.

Este oficial da Marinha portuguesa, de 53 anos (feitos em janeiro, pela primeira vez na sua vida a navegar), tem consigo uma equipa, toda portuguesa, que comanda esta força destacada pela UE.

O cabo Sandro Azevedo, os capitães-tenentes Bruno Ribeiro, Ernestina Silva e Lopes de Sousa, e o 1º tenente Pedro Faustino (na foto da esquerda para a direita) constituem o Estado-Maior e são a espinha dorsal das operações - apoio à decisão, planos, estudos, informações.

São responsáveis por comandar, controlar e coordenar toda a atividade operacional da Operação Atalanta, incluindo os navios e as aeronaves atribuídas à missão.

São responsáveis por comandar, controlar e coordenar toda a atividade operacional da Operação Atalanta, incluindo os navios e as aeronaves atribuídas à missão. Sob a orientação destes portugueses estão, além do Castilla, um helicóptero, um avião patrulha, dois drones e duas lanchas - todos da Armada espanhola e com cerca de 450 militares também espanhóis.

E como é que estão portugueses a comandar uma operação com uma força toda espanhola? "Foi um convite que surgiu fruto de excelentes relações bilaterais de décadas entre a Marinha portuguesa e a espanhola, que se têm intensificado nos últimos anos, um reconhecimento da nossa capacidade de comandar uma força internacional. É uma enorme responsabilidade", reconhece o comodoro Arroteia, um oficial que se especializou em Comunicações e navegou, entre outros, ao comando das fragatas Corte-Real e Vasco da Gama.

É a primeira vez que navega num navio de assalto anfíbio (Portugal não tem embarcações com estas características), que tem uma doca interna com capacidade para atracar quatro lanchas (que medem cerca de 20 metros cada uma), e um enorme espaço para estacionar tanques e carros de combate prontos a desembarcar fuzileiros em operações especiais.

"Toda esta experiência tem sido maravilhosa em vários aspetos. Este navio espanhol foi mesmo a cereja em cima do bolo. Faz-nos mais marinheiros", afirma o comandante da Operação Atalanta.

Língua oficial: "portunhol"

Nesta missão do Castilla, que já tinha estado no mar da Somália também em 2012, estão apenas duas lanchas e no grande espaço que servia para estacionar as viaturas foi instalado um ginásio gigante para a prática de desporto dos militares.

"Por causa da pandemia todos fomos testados e vacinados e não podemos ir nunca a terra nos quatro meses da missão. Normalmente, de 15 em 15 dias, no máximo, atraca-se num porto e pode-se ir dar uma volta. Nunca ficámos tanto tempo seguido no mar. Por isso é muito importante para o bem estar dos militares que se mantenham em forma. O convés é extenso e todos os dias se vê gente a correr e a treinar. Pelo que vejo diariamente, mais de 80% da guarnição faz exercício físico todos os dias. Outro fator importante para esse bem estar é o wi-fi, ligado a um satélite próprio, sempre disponível para todos poderem usar para falar com as suas famílias e amigos", afiança Diogo Arroteia.

"Os briefings são em inglês, mas assim que saímos da porta da sala falamos à vontade "portunhol""

Quando lhe perguntamos como se entendem com os militares espanhóis (toda a guarnição do navio e aeronaves é espanhola), o comodoro deixa escapar novo sorriso: "não tem nenhum problema: os briefings são em inglês, mas assim que saímos da porta da sala falamos à vontade "portunhol". Quando ficamos num impasse, com alguém que não está mesmo a perceber, rapidamente se passa de novo para o inglês".

Arroteia também não encontra "grandes diferenças" nas práticas de navegação dos marinheiros espanhóis e dos portugueses porque, assinala, "temos uma cultura parecida e uma cultura naval que se assemelha ainda mais, uma vez que integramos a NATO há dezenas de anos com procedimentos padrão. Comandar esta força espanhola é praticamente igual a comandar uma portuguesa. Sentimo-nos em casa e criámos laços de amizade que vão durar uma vida".

A cumplicidade luso-espanhola é de tal forma que nem na comida, em relação à qual os portugueses têm muita (demasiada às vezes) sensibilidade, o comodoro Diogo Arroteia vê anticorpos. "O Castilla tem uma cozinha extraordinária. A grande diferença é que, enquanto nós estamos habituados à sopa e a um prato, eles têm um prato de peixe e um de carne, sem sopa. Come-se um bocado mais. Mas por isso é que se faz mais exercício físico", assinala.

A Operação Atalanta, conduzida pela força naval da União Europeia (EU NAVFOR), foi aprovada em 2008, quando a pirataria e roubo armado naquela zona começou a perturbar a região, chegando aos 176 ataques em 2011

A Operação Atalanta, conduzida pela força naval da União Europeia (EU NAVFOR), foi aprovada em 2008, quando a pirataria e roubo armado naquela zona começou a perturbar a região, chegando aos 176 ataques em 2011.

Porém, desde 2013, segundo os dados oficiais da EU NAVFOR, que praticamente não existem assaltos desta natureza, devido, precisamente, às patrulhas internacionais como a do Castilla. "Em 2020 atingiu-se o pico máximo do sucesso destas operações, com zero registos de ataques de pirataria. No entanto, não se pode dar como garantido que está para sempre erradicada. Está contida, sim, mas não erradicada e a nossa grande função é evitar que a oportunidade surja", explica Diogo Arroteia.

Em 22 de dezembro de 2020, e em resultado da análise estratégica da Atalanta, aprovou a prorrogação do mandato até 31 de dezembro de 2022.

Por isso mesmo o Conselho da UE tem mantido esta operação. Em 22 de dezembro de 2020, e em resultado da análise estratégica da Atalanta, aprovou a prorrogação do mandato até 31 de dezembro de 2022.

Além da prevenção da pirataria, foram introduzidas novas tarefas para os marinheiros, como o combate ao tráfico de armas e estupefacientes, a monitorização da pesca ilegal e do comércio ilícito de carvão ao largo da costa da Somália, bem como apoiar outras missões internacionais ou da UE, que contribuam para o objetivo de aumento de segurança marítima na região.

Entre os dias 19 e 21 de janeiro, noticiou o Estado-Maior General das Forças Armadas (EMGFA), foi executada a primeira "operação focada" - designada Buzzard - cujo objetivo foi, entre outros, "a partilha de informação com outras entidades a operar na região, internacionais e locais" para conhecer a situação marítima da zona e "aprofundar possíveis formas de cooperação ao nível local e regional".

Houve até contactos com o comando da Guarda Costeira de Somalilândia (um Estado não-reconhecido internacionalmente que, embora pertença oficialmente à Somália, declarou unilateralmente sua independência em 1991) para avaliar o estado de segurança na região e perceber como a Atalanta pode apoiar as entidades regionais no domínio da segurança marítima.

13 missões em 11 países

Uma destas operações, sob coordenação portuguesa, contou também, com o apoio de um navio e uma aeronave de patrulha marítima da Marinha do Japão, de combate à pirataria, pertencente à Força Multinacional Combinada, sediada no Bahrein.

De acordo com o EMGFA, nestas patrulhas focadas "realizaram-se inúmeras aproximações a embarcações de pesca, com questionários realizados a partir das semirrígidas do navio-almirante.

Estes questionários servem para verificar se têm existido alterações ao ambiente securitário marítimo ou para detetar situações anómalas aos padrões de comportamento dos navios de pesca.

Foram, ainda, realizados vários voos de vigilância e reconhecimento, tanto com a aeronave de patrulha marítima espanhola P3-ORION, como com os meios orgânicos do navio-almirante, helicóptero e drone, para compilação de informação e esclarecimento do panorama situacional marítimo da área de operações".

Desde o início da operação Atalanta, Portugal tem participado todos os anos, quer com militares nos Estado-Maior da Operação da Força, quer com aeronaves de patrulha marítima, quer com meios navais (Fragatas ).

Portugal já comandou a Operação Atalanta em 2011, 2013 e 2019 - esta última encabeçada pelo oficial-general comodoro Vizinha Mirones e os seu staff de cinco militares do Estado-Maior, a bordo do navio-almirante também da Marinha de Espanha, ESPS Victoria e ESPS Numancia.

"É uma grande honra para mim e para a Marinha Portuguesa assumir este comando tão importante, permitindo que a UE continue a promover um ambiente de segurança marítima na região e, simultaneamente, garantindo que a ajuda humanitária internacional chegue ao povo somali"

"É uma grande honra para mim e para a Marinha Portuguesa assumir este comando tão importante, permitindo que a UE continue a promover um ambiente de segurança marítima na região e, simultaneamente, garantindo que a ajuda humanitária internacional chegue ao povo somali", afirma Diogo Arroteia.

Lembra que o nosso país "tem contribuído muito para a segurança e estabilidade mundial, com um rácio enorme de participações em missões internacionais" - neste momento há 530 militares empenhados em 13 missões localizadas em 11 pontos do mundo (Somália, Somália Índico, Golfo da Guiné, Mali, S.Tomé e Príncipe, República Centro Africana, Afeganistão, Iraque, Jordânia, Itália (Roma) e Colômbia).

A imagem da videochamada mostra um comandante animado e orgulhoso da sua responsabilidade. Mas não esconde a saudade de voltar a casa.

A imagem da videochamada mostra um comandante animado e orgulhoso da sua responsabilidade. Mas não esconde a saudade de voltar a casa.

Desde dois de dezembro do ano passado, primeiro no ESPS Reina Sofia e agora no ESPS Castilla, até 15 de fevereiro - período que corresponde à monção de inverno - que não sai do navio-almirante. Está em contagem decrescente. "Abraçar a família e comer um bom bacalhau", confessa, são os seus maiores desejos.

valentina.marcelino@dn.pt

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