O verdadeiro método de estudar

Uma cunhada minha - mal acostumada às notas altas da restante prole - teve de chamar a atenção da filha de 10 anos (que não seguiu, pelos vistos, as pisadas dos irmãos) para a importância de estudar. Mas a miúda, em vez de acusar o toque e prometer endireitar-se, deixou a mãe perdida de riso ao replicar que "há vida para além da escola". A verdade é que eu, até chegar ao último ciclo do secundário, em que pude finalmente estudar o que me interessava, também não fui uma aluna por aí além; gostava de conversar nas aulas, tinha preguiça de copiar do quadro e, regra geral, estava a olhar pela janela para um dia lindo quando a professora ditava alguma coisa que era preciso anotar. Não fosse a perseverança da minha mãe, o mais certo era ter perdido um ano, de tal modo me desentendi com a Física e a Matemática numa altura em que só se podia chumbar a uma delas.

Hoje estou-lhe grata por, entre outras coisas, me ter obrigado a decorar o compêndio de Zoologia (dos protozoários aos proboscídeos); a composição dos minerais (quartzo, feldspato e mica), os cognomes dos reis (ai o Formoso...) e até as produções agrícolas das ex-Colónias (café, cacau e bananas). Como nesse tempo os livros eram sempre os mesmos e passavam de irmão para irmão, ninguém os podia sublinhar, pelo que o meu método de estudo consistia em copiar parágrafos inteirinhos para um caderno e ir relendo e passando a limpo até ter tudo na cabeça (e então, sim, a minha mãe sujeitava-me a uma sabatina). Vendiam-se também uns conjuntos de cábulas não assumidas (as Memofichas), que eram resumos da matéria destinados a quem não tinha tempo para mais, e uns cadernos de testes que se destacavam pelo picotado e nos quais íamos treinando respostas até ao exame. E, se mesmo assim continuávamos a sentir-nos perdidos em alguma disciplina, valia-nos um colega que se oferecia para nos explicar aquela coisa sinistra das roldanas e alavancas ou emprestar uns apontamentos bestiais que acabavam com todas as dúvidas.

Não imagino como se estuda na era digital, mas sei que, em Direito, muitos professores ditam ainda as lições das suas velhas sebentas. Pobre, porém, do aluno que adoece com gripe e falta às aulas uma semana: quando regressa, o mais provável é encontrar, em vez de colegas solícitos, estudantes que, agindo já como futuros advogados e homens de negócios, lhe vendem numa pen as aulas que gravam diariamente para esse efeito. Adeus, futuro.

Editora e escritora. Escreve de acordo com antiga ortografia

Exclusivos

Premium

Ferreira Fernandes

A angústia de um espanhol no momento do referendo

Fernando Rosales, vou começar a inventá-lo, nasceu em Saucelle, numa margem do rio Douro. Se fosse na outra, seria português. Assim, é espanhol. Prossigo a invenção, verdadeira: era garoto, os seus pais levaram-no de férias a Barcelona. Foram ver um parque. Logo ficou com um daqueles nomes que se transformam no trenó Rosebud das nossas vidas: Parque Güell. Na verdade, saberia só mais tarde, era Barcelona, toda ela.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Dos pobres também reza a história

Já era tempo de a humanidade começar a atuar sem ideias preconcebidas sobre como erradicar a pobreza. A atribuição do Prémio Nobel da Economia esta semana a Esther Duflo, ao seu marido Abhijit Vinaayak Banerjee e a Michael Kremer, pela sua abordagem para reduzir a pobreza global, parece indicar que estamos finalmente nesse caminho. Logo à partida, esta escolha reforça a noção de que a pobreza é mesmo um problema global e que deve ser assumido como tal. Em seguida, ilustra a validade do experimentalismo na abordagem que se quer cada vez mais científica às questões económico-sociais. Por último, pela análise que os laureados têm feito de questões específicas e precisas, temos a demonstração da importância das políticas económico-financeiras orientadas para as pessoas.

Premium

Marisa Matias

A invasão ainda não acabou

Há uma semana fomos confrontados com a invasão de territórios curdos no norte da Síria por parte de forças militares turcas. Os Estados Unidos retiraram as suas tropas, na sequência da inenarrável declaração de Trump sobre a falta de apoio dos curdos na Normandia, e as populações de Rojava viram-se, uma vez mais, sob ataque. As tentativas sucessivas de genocídio e de eliminação cultural do povo curdo por parte da Turquia não é, infelizmente, uma novidade, mas não é por repetir-se que se deve naturalizar e abandonar as nossas preocupações.