O verdadeiro método de estudar

Uma cunhada minha - mal acostumada às notas altas da restante prole - teve de chamar a atenção da filha de 10 anos (que não seguiu, pelos vistos, as pisadas dos irmãos) para a importância de estudar. Mas a miúda, em vez de acusar o toque e prometer endireitar-se, deixou a mãe perdida de riso ao replicar que "há vida para além da escola". A verdade é que eu, até chegar ao último ciclo do secundário, em que pude finalmente estudar o que me interessava, também não fui uma aluna por aí além; gostava de conversar nas aulas, tinha preguiça de copiar do quadro e, regra geral, estava a olhar pela janela para um dia lindo quando a professora ditava alguma coisa que era preciso anotar. Não fosse a perseverança da minha mãe, o mais certo era ter perdido um ano, de tal modo me desentendi com a Física e a Matemática numa altura em que só se podia chumbar a uma delas.

Hoje estou-lhe grata por, entre outras coisas, me ter obrigado a decorar o compêndio de Zoologia (dos protozoários aos proboscídeos); a composição dos minerais (quartzo, feldspato e mica), os cognomes dos reis (ai o Formoso...) e até as produções agrícolas das ex-Colónias (café, cacau e bananas). Como nesse tempo os livros eram sempre os mesmos e passavam de irmão para irmão, ninguém os podia sublinhar, pelo que o meu método de estudo consistia em copiar parágrafos inteirinhos para um caderno e ir relendo e passando a limpo até ter tudo na cabeça (e então, sim, a minha mãe sujeitava-me a uma sabatina). Vendiam-se também uns conjuntos de cábulas não assumidas (as Memofichas), que eram resumos da matéria destinados a quem não tinha tempo para mais, e uns cadernos de testes que se destacavam pelo picotado e nos quais íamos treinando respostas até ao exame. E, se mesmo assim continuávamos a sentir-nos perdidos em alguma disciplina, valia-nos um colega que se oferecia para nos explicar aquela coisa sinistra das roldanas e alavancas ou emprestar uns apontamentos bestiais que acabavam com todas as dúvidas.

Não imagino como se estuda na era digital, mas sei que, em Direito, muitos professores ditam ainda as lições das suas velhas sebentas. Pobre, porém, do aluno que adoece com gripe e falta às aulas uma semana: quando regressa, o mais provável é encontrar, em vez de colegas solícitos, estudantes que, agindo já como futuros advogados e homens de negócios, lhe vendem numa pen as aulas que gravam diariamente para esse efeito. Adeus, futuro.

Editora e escritora. Escreve de acordo com antiga ortografia

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