Tempo de morangos

Morangos, espargos e pêssegos que ficam por apanhar. Ovelhas com a lã por tosquiar. Um pouco por toda a Europa vai aumentando o desespero de agricultores que não têm mão-de-obra. A "ilegalidade" de muitos imigrantes residentes retira-lhes a capacidade de movimento e não há quem possa apanhar as culturas. A isto acresce que as restrições de viagens impossibilitam as deslocações de trabalhadores sazonais. Aqueles que durante anos dependeram de trabalho migrante sem direitos ou reconhecimento apelam hoje aos governos para legalizar a mão-de-obra existente.

Se os migrantes já eram mais afetados por serem mais precários, por terem mais dificuldade de acesso a cuidados de saúde e ausência de redes sociais, com a crise pandémica muitos deixaram de poder trabalhar pelo facto de não terem papéis. O medo de serem "apanhados" e repatriados sobrepõe-se ao medo da exploração. A agricultura não se faz sem trabalho manual e a pandemia acabou por trazer visibilidade a uma realidade tantas vezes escondida. A exploração, os salários baixos, as horas mais do que extras, tudo isso tem sido tolerado e aceite nos países europeus. O cinismo é por de mais evidente, já que dificilmente nos chega comida à mesa se eliminarmos o trabalho migrante.

Nos últimos dias, e à medida que os apelos para a regularização destes trabalhadores sobem de tom, pensei que poderíamos estar perante uma mudança de perceção sobre a migração, mas pensei mal. O trabalho migrante tem sido o alvo do ataque político da extrema-direita e nem a ameaça da destruição de muitas produções agrícolas ajudou a mudar de alvo. Quanto mais se pede o reconhecimento destes trabalhadores, mais os partidos de extrema-direita se opõem e acusam quem o defende de usar a pandemia como desculpa para uma amnistia à migração ilegal.

Com tudo o que tenho lido sobre este debate na Itália, na Alemanha ou na França, não deixo de surpreender-me. Parece-me evidente que o que estes países estão a viver é uma clara demonstração da importância do trabalho migrante. Também me parece evidente que toda a gente sabe que estamos a falar de pessoas que já estão nos países ou, no caso do trabalho sazonal, que estariam nos países nesta altura e que não vão estar. Se tudo isto parece evidente, como é que se pode sustentar a tese de que o reconhecimento destes migrantes iria provocar o aumento do crime?

Ou a tese de que estes migrantes "roubam" o trabalho aos cidadãos nacionais? Como é que se pode sustentar o argumento da ameaça se estes não são trabalhadores novos e se conviveram com eles quando não eram reconhecidos legalmente? Podem as pessoas que defendem a sua expulsão comer o que resulta do seu trabalho se ele for quase escravo, mas não se o trabalho for legal? Por fim, parece-me evidente que estes trabalhadores merecem a nossa gratidão, veremos, entretanto, se os merecemos.

Eurodeputada do BE

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