Pois… "A Festa do Avante! é uma grande organização e de massas!"

A Igreja Católica, talvez pelo avanço que lhe leva de 1900 anos, deu em Fátima uma lição ao PCP sobre o uso do simbólico. A Igreja envelheceu melhor. Ela prescindiu das barracas de iconografia à volta do seu festival anual e dispensou a multidão. O que aconteceu foi que a Igreja Católica lembrou-se de que tem fôlego e pode apostar na estratégia: o que se perde hoje ganhar-se-á em amanhãs que cantam - bem visto para quem acredita na eternidade. Como diria um santo de outra paróquia, São Vladimir Lenine: "Um passo atrás, agora, para que haja a procissões amanhã..."
E os católicos foram também coerentes na frente unida internacional a que pertencem. Com nome de santo de revolta campesina, Francisco, líder do, digamos, Komintern, dera há semanas na, digamos, Praça Vermelha do Vaticano, uma lição semelhante de solidão, simbolismo, beleza e bom senso.

Já o PCP envelhece pior. Mais jovens do que os católicos mas também com tradições respeitáveis, ultimamente os comunistas derraparam como novatos. A CGTP foi patética no santuário da Alameda. Dias antes, 25 de Abril, acontecera um exemplo do que podia ser bem feito no domínio do simbólico. Um homem solitário, um santo precursor como os pregadores pré-marxistas, pôs a bandeira vermelha (e verde) às costas e, só, desfilou na Avenida da Liberdade. Um misto de São João Batista (2 a.C.-28 d.C.) e Saint-Simon (1760-1825) - já fiel às igrejas do futuro, cristianismo e socialismo, mas ainda sem multidões. Utópico mas eficaz, uma epifania, uma missa cantada em rito caldeu, uma beleza.

Os comunistas deviam ter aprendido, pois, como se faz. Uma imagem que mais parecia uma empolgante palavra de ordem, daquelas de punho erguido: "Assim/ Se vê/ A força da LSP [Linguagem Simbólica Portuguesa]! Assim/ Se vê!" Mas não... Logo na semana seguinte, no 1.º de Maio, os comunistas realizaram uma procissão parada, desnecessária e pífia. Só possível vinda de quem não conseguiu fazer, como aconselhara Marx, a análise concreta da situação concreta.
Que raio, pelo país fora as massas conseguiam uma unidade que nem no Verão Quente se vira, uma greve geral amplamente praticada. A vanguarda da sociedade, o proletariado esclarecido e também os intelectuais (os médicos, por exemplo) arrastaram consigo a pátria inteira e puseram-na ao sabor dos ventos da história: ficar em casa. Jerónimo de Sousa e Isabel Camarinha tinham ali uma adesão das massas de tamanho tal que, com um décimo disso, Álvaro Cunhal e Rosa Luxemburgo teriam tomado o poder.

E o que fizeram, então, os comunistas de hoje com essa mobilização nacional? Foram para a Alameda gritar: "Quem tem os delegados sindicais somos nós!" E mostrou-os, arrumadinhos, em filas verticais e horizontais, arregimentados em autocarros com passes de livre circulação como antigamente só os latifundiários. Enfim, uma fuga para a frente, própria dos inseguros que acham que têm de fazer prova de vida. E, fazendo-a, mostram estar moribundos.

No palanque, Camarinha, líder da CGTP, proclamou: "Alguns queriam calar-nos, mas não nos calamos." Disse-o a um milhar de sindicalistas, é certo que afastados em distância social, mas em quantidade não permitida aos reformados que, cada dia, naquela mesma Alameda querem jogar às damas. Queixar-se de silenciamento quando tão evidentemente se mostrava beneficiarem de um privilégio soou a falso. Parecia a lata do Carlos Costa do Banco de Portugal a dizer que a pandemia "penaliza" mais os ricos do que os pobres...

Não soube, pois, simbolizar - o partido de Catarina, dos famélicos da terra, do punho, da bandeira vermelha... - quando se lhes pedia só isso: um símbolo. Um símbolo que expressasse com a inteligência e simples sinal, uma ideia, uma imagem. Um homem conseguiu fazê-lo sozinho e uma bandeira, a 25 de A; e a Igreja Católica conseguiu num adro de imensidão vazia, a 13 do M. Mas o PCP e a CGTP, no Primeiro de Maio, só conseguiram uma polémica.

E, agora, a Festa do Avante!. Jerónimo diz que não é um festival. E, sim, não é um festival de música, só. E mesmo que fosse só, já haveria dúvidas se o PCP conseguiria tratá-lo em símbolo. Acontece, porém, que a Festa do Avante!, além de palcos de músicas, é vasto estacionamento de carros, enorme feira popular, comício do ano, pavilhão de desportos, compacto parque de campismo, o maior restaurante de Portugal, enfim, um engarrafamento de pessoas durante três dias... "E de massas", insiste a sua propaganda! Mesmo que cada atividade fosse representada só por um símbolo enxuto, só de símbolos seria uma multidão.

Então? Então não.

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