7 dias, 7 propostas por David Fonseca

Cinco filmes
Small Axe
HBO
Domingo
17 de janeiro

Este conjunto de cinco filmes de Steve McQueen (o mesmo realizador de 12 Years a Slave, Hunger e Shame) é um dos acontecimentos cinematográficos do estranho ano de 2020. Passados em Londres entre os anos 1960 e 80, os cinco filmes retratam várias realidades da comunidade caribenha e das suas lutas sociais numa Inglaterra conservadora. Cada episódio vive uma história isolada num tempo diferente, sem cruzamento de personagens entre filmes. Esta forma de apresentar uma série é pouco usual, mas acaba por conseguir retratar as várias componentes desta comunidade com uma largueza de espetro ainda maior. O episódio Lovers Rock é o meu preferido, com uma incursão a uma festa noturna a ter lugar numa casa privada. O momento em que a festa atinge o seu auge e o realizador nos leva ao calor daquele momento em longos planos ao som de Silly Games de Janet Kay e Kunta Kinte Version One dos The Revolutionaries são absolutamente hipnóticos, como se estivéssemos a presenciar uma espécie de documentário, uma performance que dá vontade de estar lá e não no sofá onde vi o filme.

Caminhar
Passeio e fotografia
Segunda
18 de janeiro

Desde que todas as nossas vidas foram avassaladas pelo covid-19, as caminhadas passaram a ser uma constante da vida de muitos, uma espécie de contraposição ao confinamento e às medidas que tivemos de adotar. Acredito que a maioria de nós não tinha o hábito de caminhar sem um objetivo específico. Caminhamos porque temos um sítio onde estar, não necessariamente pelo prazer do ato de caminhar. Nos últimos tempos dei por mim a caminhar sem um objetivo específico, usualmente a terminar a caminhada onde a comecei. Às vezes vou acompanhado, outras sozinho, mas dei sempre por mim a observar o mundo de forma diferente do que quando corro para um sítio ou outro. A certa altura levei a máquina fotográfica comigo e a comecei a captar o que vejo nestas caminhadas, talvez por ser uma maneira de continuar a perceber a beleza das pequenas coisas e dos pequenos gestos. Independentemente de usarem uma máquina fotográfica ou não, convido os leitores a usarem meia-hora de um dos seus dias e darem uma volta tranquila ao seu quarteirão. Observá-lo bem, os seus pormenores, as pessoas que o habitam. Posso garantir que terão sempre algo que contar à chegada a casa.

Podcast
Um lugar para ouvir
Terça
19 de janeiro

É certo que vivemos em tempos estranhos onde toda a gente quer falar e pouca gente gosta de ouvir. Talvez por isso os podcasts sejam uma forma de lutar contra essa ideia e deem espaço e tempo a ouvir o outro, com uma miríade de assuntos infindável. Viajo bastante de automóvel e passo muitas horas na companhia das conversas de outros, a debaterem ideias sérias, engraçadas, zangadas, úteis e inúteis. Dou muitas vezes por mim a responder de volta e a "dialogar" com estes podcasts, quase como se estas pessoas estivessem a viajar comigo. Num tempo onde o distanciamento é palavra de ordem, estar junto das vozes de pessoas é uma forma de estar junto de alguém, como ir a uma festa e ouvir uma conversa alheia sem se passar por abelhudo. Há imensos podcasts à escolha sobre os mais variados assuntos, mas hoje proponho três: Extremamente Desagradável de Joana Marques, uma rubrica matinal da Renascença que depois surge em formato podcast e que me leva a gargalhar ruidosamente no trânsito enquanto outros automobilistas me fitam com desdém; O Avesso da Canção de Luísa Sobral, uma conversa entre a Luísa e compositores de canções onde se viaja pelos processos de gravação e criação das canções (e onde tive o prazer de participar num dos episódios); e ainda o Song Exploder de Hrishikesh Hirway, onde se fala do processo de uma canção com os seus autores. Horas de diversão e companhia.

Netflix
Dick Johnson is Dead
Quarta-feira
20 de janeiro

Apesar do Netflix ser uma plataforma extremamente popular, há por lá muitos filmes que passam despercebidos ao grande público. Calculo que também aqui os algoritmos sejam inimigos dos filmes mais desafiantes e complexos, por isso é preciso investigar o que anda por lá nas gavetas e caixotes nas traseiras. Este documentário é um desses filmes por lá perdidos e que injustamente não tem o destaque que merece. Dick Johson é o pai de Kristen Johnson, uma realizadora de documentários que resolve filmar o seu pai em simulações caricatas onde o resultado é sempre o mesmo: a sua morte. É um documentário agridoce, que fala da comédia da morte de uma forma surpreendente. Arranca gargalhadas e lágrimas, ficção e realidade, uma mistura improvável que resulta em pleno e que nos mostra porque é que o formato do documentário é um dos géneros mais interessantes do audiovisual e que, muito justamente, tem ganho uma maior visibilidade com as plataformas de streaming.

Livro
Hayahisa Tomiyasu
Quinta
21 de janeiro

Apaixonado como sou por fotografia, tento acompanhar o tanto que se faz nesta área. Um dos livros mais bonitos que veio parar às minhas mãos é uma história absolutamente deliciosa. Tomiyasu caminhava em Leipzig (Alemanha) numa certa tarde e viu uma raposa em plena cidade. Ficou intrigado pelo acontecimento e, 15 dias mais tarde, viu-a de novo através da janela do seu quarto de estudante, perto de uma mesa de pingue-pongue instalada na rua. Com o fito de conseguir uma foto da raposa, montou a sua máquina fotográfica e apontou-a para a mesa e esperou. Ao observar a mesa com mais atenção, percebeu que ela era usada nas mais diferentes formas por pessoas, pelos elementos naturais, pelas circunstâncias. Fotografou a mesma mesa a partir da sua janela durante cinco anos e o resultado está neste livro espantoso e que não me canso de ver e rever. Ganhou o prestigiado 2018 MACK First Book Award e é um daqueles que ficam melhores à medida que olhamos mais para ele, a descobrir novos pormenores da vida incrível que rodeia aquela vulgar mesa de pingue-pongue.

Espetáculo
David Byrne
HBO
Sexta
22 de janeiro

O espetáculo American Utopia de David Byrne foi, de longe, um dos melhores e mais incríveis que tive a oportunidade de assistir. Vi-o na sua versão de digressão pelo mundo no EDP Cool Jazz em 2018 e mais tarde foi adaptado para a Broadway. A ideia de levar esse espetáculo ao ecrã com a realização do genial Spike Lee é uma daquelas junções que tem muito de improvável e que, ao mesmo tempo, tem tudo para resultar. Byrne e Lee são duas almas inquietas que nunca amansaram com o tempo, muito pelo contrário. A minha admiração pelos dois é enorme e estou sempre curioso para saber o que vão fazer a seguir, o que a sua imaginação projeta, o que têm para acrescentar ao mundo. Este American Utopia acaba por trazer mais pormenor ao espetáculo que vi, levando-nos de forma ainda mais intensa a esta história em formato canção tão bem explorada por Byrne e os seus músicos. Uma encenação simples e completamente inusitada no mundo dos espetáculos ao vivo, este é um momento de celebração de dois dos maiores criadores deste século.

Música
Aprender a tocar um instrumento musical
sábado
23 de janeiro

Bem sei, parece uma missão impossível para quem nunca se aproximou destes objetos estranhos que produzem sons. Mas não é, muito pelo contrário. Durante a minha vida, tive dois anos de formação musical entre os oito e os dez anos. Fiz solfejo durante o primeiro ano e toquei piano e órgão no segundo. Mais tarde aprendi a tocar guitarra por uma única razão: o tédio. Estava aborrecido, não tinha muito que fazer e olhei para aquele instrumento como uma forma de ocupar o tempo. No entanto, algo extraordinário aconteceu nesse processo. O prazer de tocar as minhas canções preferidas e fazer aquele som soar pelas minhas paredes, a minha voz tímida a ganhar confiança para cantar dava-me uma alegria difícil de explicar. Tocar um instrumento musical não é necessariamente uma coisa que se faz para se perseguir uma carreira. Faz-se principalmente pelo prazer gigante que dá a qualquer pessoa tocá-lo e transformar o silêncio em algo extraordinário. Faz-se porque aproxima os outros que cantam connosco e que partilham o mesmo gosto por esta ou aquela canção. Se estão com medo de arriscar, sugiro que comecem com um ukelele. Se estão mais confiantes, a guitarra é um clássico que não vos vai desapontar.

David Fonseca é músico.

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