Só em 75 escolas a maioria dos alunos passaram sempre

A maior parte dos estudantes acaba por perder pelo menos um ano ou ter negativa numa prova externa, tanto no secundário como no 3.º ciclo do ensino básico. Consulte aqui as principais listagens dos percursos de sucesso e dos rankings dos exames

Num universo de 551 escolas públicas e privadas, apenas 75 - menos de uma em cada sete - conseguiram que 50% ou mais dos seus alunos concluíssem o ensino secundário regular sem insucesso no triénio 2016-2018. No ensino básico, o total de escolas com uma maioria de estudantes com o percurso imaculado foi de 332 em 1141. Ou seja: pouco mais de um quarto.

Considerando o total de alunos abrangidos, a percentagem de casos de sucesso rondou os 40% no secundário, cerca de 70 mil alunos, e foi de 44% no básico, equivalendo a mais de 118 mil estudantes.

Dados que mostram que, apesar dos progressos registados ao longo dos anos - e recentemente foi anunciada a descida da taxa de abandono escolar precoce para uns históricos 11,8% -, o país continua, a vários níveis, a funcionar a diferentes velocidades na educação.

Estes dados baseiam-se nos "percursos diretos de sucesso", um indicador introduzido há dois anos pelo Ministério da Educação que considera o universo de estudantes que terminam um ciclo sem retenções e com nota positiva nas avaliações externas. E que nestas páginas dedicadas aos rankings das escolas ganha protagonismo em relação aos rankings tradicionais, baseados nos exames e provas finais, que não deixam de ter o seu espaço.

Novidade neste ano foi a introdução de estatísticas de percursos de sucesso para o ensino profissional. O DN optou por não criar um ranking para este indicador, devido à existência na base de muitas escolas de informações incoerentes ou incompletas. No entanto, os dados mostram que há mais percursos de sucesso face ao ensino regular - em 582 escolas comparáveis, apenas 167 não tiveram pelo menos 50% dos alunos a concluírem o curso no tempo previsto. Mas também que há grandes assimetrias, com seis escolas com 100% de percursos de sucesso em 2016-17 e sete que ficaram abaixo dos 10%.

Primeiros entre iguais

Nos rankings elaborados pelo DN com base nos percursos das áreas científico-humanísticas, o principal critério utilizado não é o total de casos de sucesso e sim a diferença entre o desempenho das escolas e a média de outros estabelecimentos de características semelhantes.

A lógica é, respondendo ao desafio lançado quando aquele indicador foi criado, tentar "comparar o comparável". Neste caso, escolas cuja população estudantil se assemelha em aspetos como as taxas de sucesso à entrada no ciclo de escolaridade em causa, nível socioeconómico das famílias e habilitações literárias das mães dos alunos.

Com base neste critério, que resulta numa distribuição mais equilibrada dos lugares da frente entre públicas e privadas, o destaque no ensino secundário vai para o Colégio de São Miguel, em Fátima, um estabelecimento com contrato de associação, seguindo-se a secundária de Felgueiras. O DN esteve nestas escolas, tal como na Básica Frei António das Chagas, da Vidigueira, para perceber por que fica esta escola no final da tabela quando se consideram os percursos até ao 3.º ciclo.

"Comparar o incomparável" é uma crítica recorrente aos rankings das escolas, desde que estes começaram a ser publicados no início deste século.

E, de facto, tendo em conta as evidentes diferenças de contexto face ao conjunto da rede, saber que, nos exames de 2018, a Academia de Música de Santa Cecília, de Lisboa, voltou a ser a melhor do ensino secundário, e que o Colégio do Rosário, do Porto, foi o melhor nas provas do ensino básico interessará sobretudo aos pais e às escolas de uma determinada franja socioeconómica.

Mas, se há diferenças que saltam à vista, também não faltam exemplos de assimetrias que não são tão facilmente explicáveis. Ou que, pelo menos, não deveriam ser aceites como fatalidades. E é na análise destes casos, em que se inclui a tentativa de perceber como algumas escolas superam as expectativas e outras ficam aquém do esperado, que os rankings poderão ter um papel.

Por exemplo, considerando os resultados dos exames - e por mais válido que seja o argumento de que as provas externas avaliam apenas uma pequena parcela das aprendizagens -, continua a fazer sentido tentar perceber como é que há escolas em que é gritante a diferença entre a classificação final da disciplina (CFD) e a nota obtida pelos alunos. Como a Secundária Fonseca Benevides, de Lisboa, em que a média CFD, de 11,24 valores, é superior em 5,41 pontos à média de exame. Ou o Externato Académico, do Porto, em que a classificação de exame é inferior à média interna em 4,93 valores.

Tal como continua a fazer sentido assinalar que, em 12 das 16 disciplinas com mais inscritos nos exames, que servem de base aos rankings do DN, as raparigas têm melhor média do que os rapazes.

Ou ainda que, apesar da evolução favorável das médias do ensino secundário, continuam a existir quatro distritos ou regiões - Bragança (9,91), Portalegre (9,67), Madeira (9,79) e Açores (9,75) - em que o conjunto das médias dos alunos ainda está abaixo dos dez valores, enquanto Braga e Coimbra superam os 11 valores.

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