Negócios, negócios, amigos à parte

Os britânicos querem sair da União Europeia e não querem marxismo. Por muitas interpretações que se tentem fazer, é difícil não reconhecer que os resultados das eleições no Reino Unido mostram que os britânicos estavam resolvidos quanto ao Brexit e que se resolveram quanto a Corbyn.

Além disso, a tese de que os eleitores tinham sido manipulados durante o referendo tem agora mais dificuldade em sustentar-se. Se assim fosse, e tendo em conta o que entretanto aconteceu, seria mais provável que castigassem os responsáveis, não que os elegessem com enorme maioria. No mínimo, poderiam ter votado nos LibDems, se quisessem muito ficar e não quisessem Corbyn. Isso não aconteceu. E não se pode invocar o sistema eleitoral para explicar o (não) voto. Os LibDems já tiveram melhores resultados com o mesmo sistema eleitoral.

E agora? O acordo com os EUA não é uma alternativa ao acordo com a Europa. Não se muda de clientes e fornecedores assim. Londres saberá isso e Bruxelas irá saber, também. As empresas que exportam e importam para e do Reino Unido terão de explicá-lo, eventualmente.

O que não quer dizer que não haja dificuldades em fazer o acordo de comércio entre ambas as partes. Há. A questão do alinhamento regulatório é a mais complicada. Por um lado, Bruxelas (agora, sim), não quererá uma Singapura no Thames. Seria um risco para a União Europeia, mas também seria para a economia do Reino Unido se a resposta da Europa fosse uma relação comercial mais distante. Mas é uma opção.

Convém começar a pensar na falta que os britânicos vão fazer. Quanto ao comércio internacional, à defesa, à influência francesa, ao centralismo e ao federalismo, ao ambiente favorável aos negócios, à economia...

É por isso, porque agora o que está em causa são os interesse económicos concretos de cada um, que podem começar as divisões dentro da UE. É o que se ouve dizer. É verdade, sim, mas... Nas negociações do Mercosul ou do TTIP houve divisões entre Estados membros. Isso não é o fim da Europa, é o normal. A grande questão aqui é que o que a economia quer não é exatamente o que a política do Reino Unido está disposta a aceitar (depender das regras europeias), ou a de Bruxelas a dar (manterem acesso ao mercado sem terem as mesmas regras). Vêm aí negociações sensíveis. Se correrem bem, a nova relação comercial inaugura a presidência portuguesa, em janeiro de 2021. Se não, as negociações encrencadas aterram no nosso colo.

No Reino Unido, que pode deixar de o ser, as grandes incógnitas são a Irlanda (a permanência no Reino, que pode estar em causa e fazer regressar os problemas), e o risco de uma saída da Escócia, que há mais de três anos tem uma task force a trabalhar em Bruxelas. Mas o jogo não está feito. E na Europa não há um grande entusiasmo por promover a divisão de países.

Para terminar, convém começar a pensar na falta que os britânicos vão fazer. Quanto ao comércio internacional, à defesa, à influência francesa, ao centralismo e federalismo, ao ambiente favorável aos negócios, à economia (nomeadamente sobre o que o Estado pode e deve ou não financiar). E sempre são uns milhões de consumidores.

Vêm aí negociações. Agora é a economia que conta. É melhor trabalhar nos objetivos em vez de fazer futurologia. Não tem corrido bem.

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