Padel cresce a um ritmo impressionante e já chegou aos cem mil praticantes em Portugal

Dados da Federação apontam para 6500 filiados, mas estima-se que no total haja cerca de cem mil praticantes. Entre este sábado e dia 23 realiza-se no Estádio Nacional o Padel Masters, uma das provas mais importantes do calendário da modalidade.

Joga-se com uma raquete, mas não é ténis. É uma modalidade praticada entre quatro paredes, mas não é de pavilhão. Tem nome parecido com uma modalidade aquática (stand up paddle), mas quem a pratica diz que o seu boom deve-se muito à facilidade em não meter água. O principal nome do padel português é Miguel Oliveira. A modalidade está em franco crescimento em Portugal, estimando-se que o número de praticantes (federados e informais) esteja a aumentar na ordem dos 80% a cada ano, perfazendo já um total de cem mil.

"É uma modalidade relativamente recente em Portugal, embora em Espanha se pratique há muito tempo e haja cerca de cinco milhões de praticantes. Em Espanha tem um impacto financeiro superior ao do ténis, apesar do Rafa Nadal e de todos aqueles outros grandes tenistas espanhóis. Em Portugal estamos longe disso, mas já haverá qualquer coisa como cem mil praticantes e não para de crescer. À medida que os campos são construídos, o número de praticantes vai crescendo, na ordem dos 80% ao ano. É certamente a modalidade desportiva em Portugal que mais tem crescido", explicou ao DN João Lagos, empresário ligado há décadas à produção de eventos desportivos e que está a organizar o torneio internacional Oeiras Valley Padel Masters, que vai decorrer entre este sábado e o dia 23 no Estádio Nacional, no Jamor.

Mas, afinal, o que leva tanta gente a praticar padel? "Acho que é um desporto bastante agradecido, no sentido da facilidade com que se pode começar a jogar. Ou seja, mesmo alguém que nunca tenha jogado desportos de raquete, consegue perceber a dinâmica e sentir a evolução após três ou quatro vezes. O facto de a bola estar sempre perto de ti também te ajuda a que possas sempre querer melhorar e aceitar que a próxima vais conseguir bater bem. Noutros desportos, podes não conseguir fazer a bola passar por cima da rede e sentes-te frustrado. Depois tem também uma componente social, em que as pessoas podem disputar torneios mas depois ficar no final a beber alguma coisa", considera o melhor português do ranking mundial (74.º), Miguel Oliveira, em declarações ao DN.

Esse crescimento também se reflete no número de clubes filiados na Federação Portuguesa de padel. Eram 52 no início de 2017. São 120 nos dias de hoje.

Mais homens federados, paridade entre praticantes informais

Segundo dados da Federação Portuguesa de Padel (FPP), existem 6500 atletas filiados, um bolo em que os homens ficam com a fatia maior. Ainda assim, é nesta modalidade que muitas mulheres encontram o espaço ideal para praticar desporto. "O número de federados tem muito que ver com o número de pessoas que faz competição. Aí há uma percentagem maior de homens filiados. Mas, no geral, olhando para os tais cem mil praticantes que há de norte a sul do país e até nas ilhas, há uma paridade muito grande entre homens e mulheres. Deve ser uma das poucas modalidades deste país em que há tantos homens como mulheres", assegura João Lagos, que chegou ao padel há cerca de dois anos, quando Portugal organizou os Campeonatos Mundiais masculinos e femininos por seleções em Cascais.

O elevado número de mulheres a praticar a modalidade, crê o empresário, está relacionado com a facilidade em "bater bem" as bolas e a diversão que provoca: "Há muitas senhoras que nunca tinham praticado qualquer modalidade e que descobriram o padel. De repente, aquilo para elas é um mundo novo e divertem-se imenso. Uma das razões para esse sucesso é que é relativamente fácil conseguir bater bem umas bolas, o que gera um grande entusiasmo."

Antigo praticante de ténis e ex-organizador do Estoril Open, João Lagos é da opinião de que o alegado elitismo associado a esta modalidade já foi há muito "desmistificado". E acredita que no padel também é assim, regulando-se apenas pela "lei da oferta e da procura". "Os preços estão ela por ela entre as duas modalidades. Mas o padel é muito rentável porque é jogado em duplas num curto espaço. Num court de ténis cabem três ou quatro campos de padel", salienta o empresário, acerca de uma modalidade que "tem vindo a internacionalizar-se". "Espanha é o país mais forte, mas a Argentina e outros países da América Latina também têm tradição. Há um boom em França, Inglaterra e nos países nórdicos. Existe uma Federação Internacional de Padel, mas está iminente a criação da Federação Europeia de Padel", acrescentou.

Do ténis a melhor português do ranking mundial

Miguel Oliveira tinha "22 ou 23 anos" quando entrou para uma modalidade que lhe mudou a vida. "Descobri o padel através de um dos meus melhores amigos, o Vasco Pascoal, que também é um grande jogador. Na altura eu estava no ténis e ele convidou-me para participar num torneio. Foi uma paixão à primeira vista. Consegui começar a jogar bem e a gostar de competir, da dinâmica de aprender a modalidade e de entendê-la", começou por contar o atleta português, de 30 anos.

A transição de uma modalidade para a outra, frisa, contempla facilidades e dificuldades. "Em termos de facilidades, manusear a raquete. O contacto da pala com a bola e os movimentos são parecidos. Em termos de dificuldades, a principal é a parte das paredes. No padel, como tens as paredes, que fazem que a bola volte a ficar no teu raio de ação e à frente do teu corpo, tens de perceber o timing adequado para lhe bater", explicou o atual n.º 74 do ranking mundial.

Passados nove meses da primeira experiência, em 2012, Oliveira já estava a representar Portugal no Mundial do México, onde se apercebeu de que o seu futuro passava pelo manuseamento de uma raquete, sim, mas com um parceiro ao lado e entre quatro paredes de vidro. "Voltei com a certeza de que já não queria ténis e que queria padel, deixei de dar aulas de ténis e passei a dar de padel. Mas, quando ia começar a dar aulas de padel, tive uma proposta através da FPP para ir trabalhar para Bilbau, dar aulas num clube e treinar, ter o padel presente na minha vida. Falei com os meus pais e eles aconselharam-me a ir. Fui numa perspetiva de Erasmus e passado um mês apercebi-me de que tinha de ficar lá um ano e passados três meses descobri que tinha de ficar lá três ou quatro anos. Quando fui para Espanha, o meu principal objetivo foi aprender e receber e beber informação e conhecimento que já lá existe, porque lá o padel existe há muitos mais anos do que aqui, para depois passá-lo para cá", narrou o jogador, que voltou a Portugal no ano passado.

"Este ano comecei por ir a Espanha treinar, até porque o meu parceiro [António Fernandez] é de Madrid e é importante que haja treino de equipa e estarmos juntos várias vezes. Desde que o novo selecionador veio para cá, o brasileiro Gervásio del Bono, senti que era importante estar em Portugal. Tem-me ajudado muito na muita evolução nos últimos seis meses, é uma pessoa espetacular", elogiou Oliveira, vice-campeão mundial de duplas em 2016 (com Diogo Rocha), vice-campeão da Europa de equipas pela seleção nacional em 2017 e semifinalista do Cabrera de Mar Challenger em 2018 - o melhor resultado de sempre de um português num torneio internacional.

Jamor acolhe torneio master equiparado aos Grand Slams

Apesar de Portugal ainda não ser um país de grande tradição no ténis, o Oeiras Valley Padel Masters, que vai decorrer entre este sábado e o dia 23 no Estádio Nacional, no Jamor, é um dos eventos mais importantes do circuito mundial. "É um dos três maiores e mais importantes torneios de padel do mundo. Faz parte do circuito profissional da modalidade, o World Padel Tour. É uma réplica do ATP Tour no ténis. Há quatro torneios masters, que podem equiparar-se aos Grand Slams do ténis: o nosso, Valência, Barcelona e Buenos Aires. Mas é um dos três mais importantes porque só três é que têm homens e mulheres. No ano passado fizemos só homens, mas agora, na segunda edição, quisemos incluir senhoras", explica João Lagos, entusiasmado por promover "muitas horas de padel na televisão".

No entanto, assegura o empresário, "isto ao vivo é espetacular e entusiasmante, mesmo para quem não está a perceber nada do que se está a passar". "Ainda por cima, o sistema de scoring é rigorosamente igual ao do ténis, à melhor de três sets", realça, à procura de levar o maior número de pessoas possível a "esta catedral do nosso desporto que é o Estádio Nacional".

"Espero que os bilhetes estejam esgotados e que o Estádio Nacional possa receber o melhor torneio do mundo. No ano passado correu bem, nos últimos dias esteve cheio e muita gente falou sobre isto. Penso que a presença do quadro feminino vai melhorar o torneio, até porque vamos ter a participação da melhor jogadora portuguesa de todos os tempos, a Ana Catarina Nogueira", acrescenta Miguel Oliveira, acerca da atual n.º 21 do ranking mundial.

"Temos um sítio próprio para as crianças e um espaço de street food, para que as pessoas possam ter uma experiência gastronómica simpática", finaliza João Lagos.

Os primeiros três dias da segunda edição do Oeiras Valley Padel Masters terão entrada gratuita e vão ser dedicados às qualificações para os quadros principais, que vão realizar-se entre terça-feira e domingo.

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