A Europa, entre Putins e Tiagos

Enquanto em alguns países da Europa de Leste há milícias populares armadas que perseguem migrantes e refugiados junto à fronteira e pelas ruas de vilas e aldeias, pela Europa fora há gente como o Tiago Cardoso, entrevistado na edição de terça-feira passada do Expresso Diário, que se voluntaria para dar um mínimo de decência às condições em que esses migrantes e refugiados vivem quando chegam cá. Entre uns e outros há uma enorme diferença moral e uma preocupante coincidência: a ausência do Estado. A diferença tem difícil solução, a coincidência é o maior problema das eleições europeias e é um exagero que está a crescer.

Na entrevista, Tiago Cardoso conta o episódio horrível de um casal que fez a travessia num daqueles barcos para 30 onde vão cem pessoas. O bebé do casal passa o tempo todo a chorar até que outro passageiro, num ataque de fúria, o atira borda fora. Assim, sem mais. Os pais nem puderam reagir porque nem para isso havia espaço no barco. Aquilo que é preciso lembrarmo-nos todos os dias é que ambos chegaram à costa europeia: o casal e o homem. E ambos são tratados da mesma forma. Por norma, deixados em campos de pré-fabricados de onde são mandados para a Turquia ou onde ficam até nunca se sabe quando, em condições miseráveis.

A confusão que se tem deixado fazer entre gente corajosa que foge das guerras, pulhas, oportunistas, homens e mulheres com forças para atravessar continentes e mares à procura de uma vida melhor e quem não quer mais do que os benefícios da segurança social dos países ricos, todos recebidos da mesma forma, e alimentando os mesmos sentimentos é, em grande parte porque o Estado, os Estados, não fazem o que devem: acolher, verificar, encaminhar, aplicar as leis.

No Leste da Europa, na República Checa, na Eslovénia e na Eslováquia, onde se têm formado milícias armadas de gente manifesta e inequivocamente racista e violenta, não são os números que explicam estas ações, é o discurso político. Em 2017, a República Checa recebeu 12 migrantes da Grécia e concedeu asilo a 145 pessoas. Os eslovenos concederam asilo a 152. Dificilmente estamos a falar de uma invasão, de "substituir a população europeia por muçulmanos e africanos", como alguns dizem por ali. Este discurso político, que Putin agradece, alimenta e financia como pode, tem por base uma grande dose de genuíno racismo. Mas também é viabilizado pelos exageros de quem acha que podem todos entrar e que somos nós que temos de nos adaptar. Exigir que se respeitem as regras, que não se imponham mudanças de hábitos, que não se ofenda quem está não é radical nem xenófobo, é bom senso, é respeitar o que levou séculos a construir e de que nos orgulhamos, e é sinalizar que é quem chega que se adapta (experimentem as escolas públicas belgas e perceberão do que estou a falar), mas também que a quem recebe exige-se humanidade. Um Estado titubeante ou ausente permite que o espaço seja ocupado pelas milícias e pelo Tiago. Pelos maus e pelos bons. Em maio, se ninguém falar, esse espaço político será preenchido.

PS I: Sou, há muitos anos, amigo do Tiago. Mas se não fosse, queria ser.

PS II: Em resposta ao que aqui escrevi na semana passada, sobre como devemos lidar com o brexit, recebi a seguinte indicação: "Os deputados à Assembleia da República realizaram uma visita de trabalho ao Reino Unido, fizeram várias audições à embaixadora britânica em Lisboa sobre o tema, receberam o ermbaixador João de Vallera, além de terem feito duas audições com o líder da estrutura Portugal In. Por outro lado, nas audições após os conselhos europeus, os membros do governo estiveram em audição na Comissão de Assuntos Europeus para o debriefing. Finalmente, o embaixador de Portugal junto do Reino Unido, antes de ser colocado em posto, teve uma audição na Comissão de Negócios Estrangeiros. Está tudo no site Parlamento." Sem questionar a importância que tem de ser dada ao tema (e como devia ser norma), e o trabalho que ainda importa fazer, isto é muito mais do que eu pensava e indiquei. Ainda bem.

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