135 anos a fazer bandeiras. Das famílias reais à árvore genealógica dos Dias-Gaspar

Com portas abertas na Baixa de Lisboa desde 1885, a Primeira Casa das Bandeiras tem o seu trabalho espalhado um pouco por todo o país, o que ainda "dá alento" para a loja enfrentar o maior desafio da sua história: resistir à pandemia de covid-19

As bandeiras, o trabalho minucioso que a confeção implicava, a pesquisa em livros e documentos antigos para ter a certeza o trabalho final respeitava a história do artigo que se produz, tudo isto era novidade para Margarida Silva quando, no início da década de 80 do século passado, começou a trabalhar na Primeira Casa da Bandeiras, em plena Baixa de Lisboa.

Recém casada com António, um dos netos do fundador da casa, Margarida lançou mãos à obras para aprender as artes de um ofício que, admite, na altura não lhe dizia "rigorosamente nada". "Tive de começar do zero e aprendi tudo de raiz, desde a parte de produção ao atendimento em balcão. Era muito jovem quando comecei a aprender, mas decidi abraçar esta profissão e ajudar o meu marido", recorda ao DN.

Quando Margarida começou a trabalhar aqui, já este pequeno espaço situado na Rua dos Correeiros (nº 149) tinha uma história quase centenária. Tudo começou em 1885 pelas mãos do alfaiate António de Almeida Cardoso, quando este decidiu mudar de ramo e dedicar-se em exclusivo à confeção de bandeiras. Foi a primeira loja de Lisboa especializada neste tipo de comércio, pelo que a seleção do nome não mereceu grande dúvida - Primeira Casa das Bandeiras. O negócio cresceu durante a monarquia e a casa ganhou reputação, tanto que foi de lá que saíram as primeiras bandeiras República Portuguesa quando esta foi proclamada em 1910. Além de organismos oficiais, sobretudo câmaras municipais, a casa foi sempre servindo clientes particulares, associações desportivas, instituições de solidariedade e pequenas e grandes empresas que procuravam os seus serviços.

Com o passar dos anos, às bandeiras juntaram-se outros produtos como galhardetes, estandartes, emblemas bordados, pins, carimbos ou hastes, que ainda hoje fazem parte do portfólio da loja.

Foi assim que chegaram robustos aos 100 anos de idade, celebrados a 28 de novembro de 1985, com um almoço festivo que juntou os funcionários da loja e a colocação de uma placa comemorativa (que ainda resiste) à porta do estabelecimento para registar um século de portas abertas.

Margarida Silva recorda esse dia, sem esconder alguma nostalgia pelo ambiente que então se vivia na baixa lisboeta. "Dava gosto vir à Baixa fazer compras. Era uma zona gira, atrativa, com muita gente na rua, que vinha até aqui precisamente à procura de tipos de comércio que não se viam noutros sítios. A oferta era muito mais completa do que aquilo que temos hoje", sublinha.

Atualmente, considera que se está a fazer pouco pela preservação do comércio tradicional de Lisboa, especialmente aquele que está situado na Baixa da cidade. "É verdade que existem algumas iniciativas que tentam promover este tipo de negócio, mas depois as lojas que vemos abrirem na Baixa são todas muito parecidas, vendem essencialmente as mesmas coisas. Sem espaços com ofertas diferentes, que se complementem, fica muito mais difícil trazer o dinamismo que uma zona nobre e histórica de uma capital como Lisboa devia ter. Na minha opinião, faltam políticas que promovam esse aspeto, até porque a idade que tenho permite-me dizer que isto já foi muito mais bonito há uns anos atrás".

Muito mais bonito e muito mais movimentado, acrescenta. As ruas praticamente desertas nesta manhã de novembro, em que o DN visita a loja, dão-lhe razão. Um vazio amplificado pelo disparar do número de infetados com covid-19 nesta segunda vaga da pandemia e pela debandada dos turistas que ainda há menos de um ano enchiam as ruas da baixa de Lisboa.

A crise provocada pela pandemia está a deixar marcas profundas no comércio da baixa de Lisboa: "Neste momento, o que estamos a fazer é tentar sobreviver, um dia de cada vez, sem fazer grandes planos de futuro"

A dimensão da crise é tal que agora, à beira de completar 135 anos, a luta é pela sobrevivência. "O cliente de rua, que antes da pandemia representava para nós cerca de 30% do negócio, praticamente desapareceu. De repente, foram-se os turistas e os emigrantes portugueses que nos procuravam. Resta-nos ver se conseguimos sobreviver só com a entidades oficiais, que também diminuíram bastante os pedidos. Há um travão generalizado. O único aprendizado que retiro desta situação atual foi ter aprendido a sobreviver com tanta coisa contra nós, ter essa resiliência de seguir em frente mesmo que as hipóteses de resistir sejam parcas. Neste momento, o que estamos a fazer é tentar sobreviver, um dia de cada vez, sem fazer grandes planos de futuro", explica Margarida Silva ao DN.

Arte com rigor

A diminuição de número de clientes não impede que se continue a dedicar toda a atenção à qualidade do produto final. Margarida Silva salienta que entre todos os artigos que comercializa, as bandeiras bordadas são aquelas que mais a orgulham, um processo que muitas vezes envolve um trabalho prévio de pesquisa e que é concluído pelas mãos experientes das bordadoras da casa.

"Uma bandeira bordada, até estar pronta, pode demorar uns 20, 30, 45 dias, tudo depende do tamanho e grau de dificuldade de reprodução. São, realmente, aquelas que mais nos desafiam e dão prazer fazer. Valorizamos sempre a história de cada bandeira e a recolha do máximo de elementos fidedignos para termos a certeza que o que vamos fazer é correto e fiel à heráldica. A nossa pesquisa pode tornar-se exaustiva devido a esse rigor que queremos manter, até porque ainda continuamos a fazer, por exemplo, bandeiras do tempo da monarquia. Também guardamos alguns registos históricos, imagens antigas, a que recorremos para garantir que o nosso trabalho é rigoroso. Esse nosso arquivo é essencial. É verdade que a internet, hoje, nos ajuda nesse trabalho, mas ao mesmo tempo também pode baralhar".

Feita a pesquisa, o trabalho é preparado numa oficina (o desenho, o corte e a montagem) e depois entregue às mulheres que bordam cada elemento da bandeira. A pandemia também trouxe alterações a este processo. As bordadoras da loja passaram a trabalhar, a maior parte do tempo, a partir da casa e não no atelier próprio que também fica situado na Baixa de Lisboa.

"São pessoas já com alguma idade, há algum medo da pandemia e nesta fase é melhor trabalharmos assim", diz Margarida Silva, admitindo que teme pelo futuro das bandeiras bordadas: "Não vejo interesse entre os mais jovens em aprender esta área. Este tipo de trabalho, em bordado artesanal, corre o risco de entrar em decadência e ser substituído por uma produção industrial. Para minha tristeza".

As bandeiras que podem ser compradas na hora, em loja, são, sobretudo, as impressas. As que têm mais procura estão distribuídas nas prateleiras de um grande móvel em madeira por detrás do balcão, onde também saltam à vista dezenas de gavetas, todas etiquetadas, que guardam trabalhos mais antigos, vários tipos de carimbos, peças em metal e outros artigos.

Na casa há sempre abertura para responder a pedidos especiais dos clientes. Como foi o caso dos Dias-Gaspar, quando estes quiseram assinalar uma reunião alargada de família com algo especial e tiveram a ideia de representar a sua árvore genealógica numa bandeira bordada. "Achámos a ideia engraçada e, na verdade, deu bastante trabalho para executar porque tinha muitos pormenores que não eram normais para nós. Mas é um bom exemplo do que podemos fazer aqui".

Existem, no entanto, linhas vermelhas em relação ao que sai da loja. Margarida Silva recorda o dia em que disse não a um cliente que desejava reproduzir símbolos nazis. "Isso não fazemos. Se for para ser utilizado numa produção de cinema, num teatro, isso tudo bem. Agora, se se tratar de um cliente particular à procura desse tipo de artigos, aí recusamos o serviço. É uma opção nossa".

As bandeiras bordadas à mão são "o orgulho" da casa. Trabalho que corre o risco de desaparecer devido à "falta de interesse" das gerações mais novas

A comerciante descreve o seu negócio como "uma empresa familiar, com uma estrutura pequena" e reconhece que será difícil passar o testemunho à geração seguinte, pois os dois filhos seguiram um percurso profissional muito distinto.

Mas, seja qual for o futuro da Primeira Casa das Bandeiras, há uma certeza: os trabalhos que dali saíram estão espalhados um pouco por toda a parte e a qualquer momento a família poderá dar de caras com uma obra sua. "É verdade, acontece algumas vezes. Se for um trabalho bordado, este tem características que nos permitem dizer de imediato que é nosso. Ainda há pouco tempo vivi uma dessas situações. Durante um passeio em família, no Palácio da Pena, em Sintra, vi lá uma bandeira portuguesa feita por nós e fiquei muito espantada por não sabia que estava ali. E isso, claro, é um motivo de satisfação, que nos dá alento", frisa Margarida Silva, antes de concluir: "Tenho a noção que este negócio deve terminar comigo. Mas não me arrependo de nada. O gosto que ganhei por este trabalho ficou-me no sangue".

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