Cães como nós

Na semana passada, encontrei um amigo que não via há séculos com um cão enorme pela trela (ou seria ao contrário?) e fiz-lhe uma grande festa (ao amigo, claro). Tratava-se de alguém próximo e querido, e a única razão para termos deixado de nos dar foi ele ter ido viver para os Estados Unidos.

Depois de farejada de alto a baixo pelo seu animal, propus-lhe que nos sentássemos numa esplanada ali perto e puséssemos a conversa em dia; mas ele disse-me que teria de ficar para outra vez, pois ia a um concerto com o cão e já estava atrasado. Conheço alguns cafés e restaurantes que admitem a entrada a animais domésticos, mas estranhei que deixassem um cão assistir a um concerto, mesmo ao ar livre, porque os seus latidos decerto interfeririam com a música. O meu amigo explicou-me, porém, que, caso eu não tivesse percebido (e não tinha), aquele era um concerto expressamente para cães, pois certos tipos de música têm o condão de baixar os níveis de stress canino, sendo por isso aconselháveis a qualquer raça; e, perante o meu ar espantado, acrescentou que, na cidade onde vivia, existia também um cinema que passava filmes para cães, ao que parece com o mesmo efeito calmante, mas que isso ainda não tinha experimentado.

Em conversa com amigos no dia seguinte, concluí que já não faz sentido queixarmo-nos de uma "vida de cão" porque, além de concertos, filmes e um canal de TV por cabo para cães, existem agora hotéis de luxo para cães, psicólogos e babysitters para cães, funcionários que, além de passearem os cães, vão a casa dar-lhes o almoço e fazer-lhes companhia por umas horas e, segundo me dizem, muito mais gente interessada em adoptar um cão do que uma criança. Até há jornais que publicam obituários de cães.

Mas a maior surpresa ainda estava para vir: o negócio em que se transformou em várias zonas do globo a organização de casamentos caninos. E, atenção, não falo do apuramento de raças feito por criadores, mas de festas a sério, em que os cachorros são vestidos de noivos (a cadela com véu branco e o macho com smoking, peitilho e laço), as damas de honor levam vestidos vaporosos e os restantes convidados (todos de quatro patas) usam modelitos de alta-costura copiados das revistas e por vezes vêm enfeitados com as jóias das donas. E, para o dia ser inesquecível, trocam-se coleiras em vez de alianças e o bolo, em forma de osso, tem dois noivos em cima. Cães, como nós. Adeus, futuro.

Editora e escritora. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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A América foi fundada também por angolanos

Faz hoje, 25 de agosto, exatos 400 anos que desembarcaram na América os primeiros negros. Eram angolanos os primeiros 20 africanos a chegar à América - a Jamestown, colónia inglesa acabada se ser fundada no que viria a ser o estado da Virgínia. O jornal The New York Times tem vindo a publicar uma série de peças jornalísticas, inseridas no Project 1619, dedicadas ao legado da escravatura nos Estados Unidos. Os 20 angolanos de Jamestown vinham num navio negreiro espanhol, a caminho das minas de prata do México; o barco foi apresado por piratas ingleses e levados para a nova Jamestown. O destino dos angolanos acabou por ser igual ao de muitos colonos ingleses: primeiro obrigados a trabalhar como contratados e, ao fim de alguns anos, livres e, por vezes, donos de plantações. Passados sete anos, em 1626, chegaram os primeiros 11 negros a Nova Iorque (então, Nova Amesterdão) - também eram angolanos. O Jornal de Angola publicou ontem um longo dossiê sobre estes acontecimentos que, a partir de uma das maiores tragédias da História moderna, a escravatura, acabaram por juntar o destino de dois países, Angola e Estados Unidos, de dois continentes distantes.