"Vocês vieram aqui só para ver e ouvir os bandidos cantar?"

Com o projeto Ópera na Prisão, 30 jovens reclusos do Estabelecimento Prisional de Leiria e 67 familiares e amigos seus cantaram Così Fan Tutte. Mozart é o nome de um enclave de liberdade na prisão.

"Um dia fui à visita e ele disse-me que entrou na ópera. Eu comecei a fazer troça. Ele disse para eu não rir, que era a sério. Aquilo não me entrava na cabeça. Só tinha visto ópera na televisão, fazia pouco daquilo." O terceiro dos cinco filhos de Joaquina Borges está preso há quatro anos. Chama-se Tiago, em agosto fará 24 anos, e ela, auxiliar de limpeza num hospital, visita-o de 15 em 15 dias. Nessa altura sai de Oeiras pela manhã para fazer a viagem até ao Estabelecimento Prisional de Leiria para jovens, onde passa uma hora e meia com o filho - menos tempo do que dura a viagem - a conversar e a brincar ao jogo do galo. Aconteceu chegar lá, depois de vários autocarros, e voltar para trás, porque ele estava de castigo e ela não foi avisada. Normalmente leva consigo Nádia, a filha mais velha de Tiago.

Naquele dia, há cerca de dois anos, ele anunciou que se juntara ao projeto Ópera na Prisão. "No primeiro dia em que fui ao ensaio fartámo-nos de rir. Fui eu e o Kevin, meu neto, com quatro anos, ele adorou. Estavam lá muitas mães que só conhecia da visita." Paulo Lameiro, diretor artístico do projeto e da SAMP (Sociedade Artística Musical dos Pousos) já a tinha convidado várias vezes. E foi assim que Joaquina entrou na história que a levaria a cantar parte de Cosi Fan Tutte, de Mozart, ao lado do seu filho, e cerca de 30 colegas de prisão e 67 dos seus familiares e amigos, além de funcionários da prisão, cinco solistas profissionais e a Orquestra Gulbenkian, conduzida pelo maestro José Eduardo Gomes.

Havia quatro anos que ela não passava tanto tempo com o filho como no dia 7 deste mês, dia do espetáculo Só Zerlina ou Così Fan Tutte? no Estabelecimento Prisional de Leiria. Foi a primeira vez em que a Orquestra Gulbenkian tocou atrás das grades.

Naquela manhã em que chegamos à porta da prisão de Leiria, o ensaio prestes a começar antecipava a atuação do grupo no grande auditório da Fundação Gulbenkian, em Lisboa, onde só 19 dos reclusos estariam presentes. Os restantes não tiveram permissão para ir, por faltas disciplinares ou pena acessória de expulsão do país (no caso dos que não são portugueses).

Para muitos, essa ausência não implica apenas falhar um concerto. Implica também perder a oportunidade de ver familiares e amigos com quem não estão há anos nalguns casos, e de serem vistos por eles a cantar em cima de um dos maiores palcos do país. A maioria dos reclusos deste grupo é da zona de Lisboa, e nem todos os seus familiares - no caso daqueles que os têm presentes - conseguem fazer o que faz Joaquina, e ir até Leiria. Bruno é um dos que ficou na prisão e não foi cantar à Gulbenkian, apesar de a sua mãe, Ludmila Lopes, e das suas irmãs terem subido ao palco onde cantaram Bella vita militar!.

Entramos. David Ramy ainda se espanta com o facto de, naquela prisão, entre as chaves da cozinha ou do pavilhão de saúde, estar uma que diz "Ópera", como se espanta ao ouvir reclusos cantarem uma ária de Mozart enquanto trabalham. É ele quem assina a dramaturgia da peça.

Entre quase 200 reclusos dos 16 aos 26 anos que vivem nesta prisão, há este grupo que agora chega à tanoaria desativada onde ensaiam. Sentam-se numa meia-lua, e Paulo Lameiro começa a tocar piano. "Olá, bom dia, eu sou o Paulo", canta de mansinho. De repente, tudo muda, da atmosfera à postura de todos naquele pavilhão. Um por um, todos cantam apresentando o seu nome. É o ritual que sempre fazem no começo do ensaio. Lá estava o Paulo, o Nelson, o Nuno, o João, o Rodrigo, o Joel, o Bruno, e "Olá, bom dia, eu sou o Tiago", diz ele, entre o canto e a fala. É o filho de Joaquina.

Até Fátima, guarda prisional, se apresenta a cantar. Mas apesar da presença de guardas e, aqui e ali, da ausência de alguém que termina uma aula ou faz um teste de despiste de drogas, este é um ensaio que poderia acontecer em qualquer escola de música. Pelo menos até chegarmos à serenata em Così Fan Tutte (Assim fazem todas, em português), feita em rap.

Joaquina resumiria rapidamente a história da ópera: "Dois rapazes foram para a guerra e achavam que as noivas eram fiéis. Apareceram dois [que ali eram os noivos, disfarçados] para ver se conseguiam encantar as meninas. E elas caíram. Mas acaba por ser um final feliz, a história é bonita." Não é por acaso que ali se canta a fraqueza e o erro, comuns à natureza humana.

"Estas pessoas cometeram um erro, alguns deles feios e graves, é verdade, mas eles não são feios nem graves", diz o maestro Paulo Lameiro. "Estes rapazes são extraordinários. O nível de literacia deste grupo é muito mais baixo do que parece. Há aqui gente que não sabe ler."

E agora cantam Mozart neste projeto a três anos (financiado pelo programa PARTIS - Práticas Artísticas para a Inclusão Social, da Gulbenkian). Mesmo que quase nenhum saiba ler uma partitura. Rodrigo é uma exceção. Estudou violoncelo antes de ser preso. "Quando estas pessoas nos dedicaram tanta atenção ao início foi um pouco estranho, achamos que era do momento, que depois se fartavam. Mas depois provaram-nos o contrário. E tratam-nos como pessoas normais. São praticamente família já", diz.

Êxtase do rap

Foi talvez na serenata que, na quinta e na sexta-feira, a plateia da Gulbenkian olhou verdadeiramente para aqueles rapazes. É a hora do rap que Mathieu e Tiago escreveram e cantam, sobre beatbox, e em que os restantes são o coro. Antes eles já tinham respondido aos gestos que nas primeiras filas se levantavam para eles, já tinham piscado o olho a uma ou outra criança, e em gestos discretos perguntavam por alguém que não estava. Mas então Mathieu canta versos como "mesmo na prisão o teu sorriso é liberdade" e depois Tiago, dirigindo-se à mãe, dizendo que tem alegria para dar, falando das duas filhas, e pedindo desculpa: "Por vezes não dá mãe, mas continuo com muitas saudades".

No ensaio, ainda na prisão, Tiago diria: "Entramos aqui e estamos quase noutro mundo. Estamos todos juntos. Há mais aconchego, mais afetos. É só nosso." Mathieu, que em 2016 já estivera na Gulbenkian a cantar Don Giovanni, primeira apresentação do projeto de que só se mantêm dois rapazes no grupo atual, afirma: "Não é a questão de ser mais livre, é de me abstrair. A gente entra na personagem. Saio do mundo prisional para o da personagem do Don Alfonso [personagem do velho sábio que aposta com os rapazes que as suas noivas lhes serão infiéis, tornada aqui coletiva para ser interpretada pelos 19 reclusos." Quando sair da prisão, onde está há oito anos, quer "uma casa, uma família, um filho, essas coisas". A ópera põe-no nesse caminho? "Tira-me as silvas do caminho".

Que o diga Diogo Varela, um dos participantes da Ópera na Prisão em Don Giovanni, hoje funcionário da Fundação Gulbenkian e pai de um bebé de quatro meses a quem canta para o acalmar. Diogo foi uma das três pessoas que deram o seu testemunho durante o espetáculo. Pouco antes, o seu cunhado contava ao DN como ele se tornou "noutro Diogo" depois deste projeto, e como em sua casa o encontra agora a ouvir ópera, e já não só rap e kizomba.

Houve uma espécie de explosão na plateia quando Joaquina falou, com Kevin e Nádia ao seu lado. Contou a quem não o sabia as dificuldades que atravessam as mães daqueles reclusos para os verem - ela que não conhece Mozart mas conheceu muitos Don Giovannis, graceja - e perguntou se aqueles que tinha à frente "só vieram aqui para ver e ouvir os bandidos cantar. "É muito fixe, não é, ver os bandidos a cantar?" Tamanha comoção só viria talvez no momento do trap (diferente do rap, mais rápido), com todos os rapazes a cantar "Tem de chegar, liberdade para nós tem de chegar."

Depois de Joaquina viria João - o filho tem o mesmo nome. "Não temos tempo para visitar os nossos filhos nem para cantar esta ópera toda", afirmou, lamentando ainda viver num país onde precisou "de ter um filho preso para cantar ópera com ele".

"Hoje [no projeto] estamos mais dedicados aos amigos e famílias lá fora. Todos nós sabemos como mudamos a nossa vida por alguém de quem gostamos, é isso que nos move", afirma Paulo Lameiro.

No final do espetáculo, muitas famílias permaneciam na Gulbenkian. Aos reclusos foi dada a possibilidade de darem o nome de uma pessoa com quem puderam estar num breve período.

Uma visita peculiar ao museu

Como os jovens não podem visitar o Museu Gulbenkian, antes dos espetáculos duas obras da coleção moderna foram levadas até eles. No primeiro dia, Destruição, de Fernando Calhau, e imagens de Tela Habitada e Pintura Habitada, de Helena Almeida. Na sexta-feira, a instalação de Noé Sendas The Rest is Silence II.

A partir da obra de Calhau, de 1975, filmada em super 8, em que o artista vai pintando a película de preto até pouco vermos, Sofia Cabrita e Margarida Vieira, do serviço educativo, falam com os rapazes de censura e de liberdade, do antes e pós 25 de abril, e perguntam: "O que vemos quando não vemos?" Um diz: "Nos jogos de futebol imaginamos com o que o comentador está a dizer". Outro: "No fim há a luz no escuro, como se alguma coisa estivesse a renascer. A esperança está sempre lá. Aquela parte branca volta sempre."

Haveriam ainda de correr, individualmente, de olhos vendados até serem amparados pelo grupo. Não estão a brincar à liberdade, é outra coisa. No final é-lhes pedido que façam o que quiserem numa tela branca de papel e depois se escondam atrás dela. Escrevem ou desenham e, um a um, passam para trás, até ficar só a tela. Aparece: "Eu sou o Tiago", "Amizade", "Família", uma cruz e "Jesus Cristo está chegando", uma figura com a frase "Não é a imagem que faz a pessoa", "Liberdade", "Voz".

"Isto não acaba aqui", dizia no ensaio Paulo Lameiro aos rapazes. Segue-se o Pavilhão Mozart, uma espécie de enclave na prisão que se deverá transformar num espaço cultural aberto à cidade de Leiria, "também para que a comunidade venha testemunhar que esta malta consegue fazer alguma coisa. É o que todos nós precisamos, que alguém acredite em nós", remata o maestro. Haverá ali aulas de dança clássica para os reclusos, seguir-se-á o teatro. É um pequeno enclave de liberdade chamado Mozart.

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