Premium "Movimento populista global" na agenda de Trump em Londres

Entre polémicas e manifestações, o presidente americano recebeu apoio de grupos da "direita alternativa" com quem Steve Bannon esteve reunido. O objetivo é claro: mudar a política europeia.

A entrada, pintada de azul-celeste, é recente. Mas o edifício vitoriano, com os seus tijolos castanhos, já recebe clientes desde 1871, neste número 43 da Blythe Road, em Hammersmith, Londres ocidental. As duas pipas de madeira continuam à porta, uma de cada lado. Mas o nome do pub foi tapado. Em vez de Jameson, desde sexta-feira passada, lê-se "The Trump Arms".

No sábado, o pub deu uma festa - 32 libras cobradas à porta - para mostrar ao presidente americano "umas acolhedoras boas-vindas". O sentimento vê-se, dos bonés com o slogan de campanha (Make Americ a great again) às bandeiras de riscas e estrelas. O dono do pub, Damien Smyth, gosta de Donald Trump. Mas a festa tem mais significados.

Quando o jornal inglês The Independent lá foi, na sexta-feira, fazer reportagem, um dos atarefados organizadores era Gawain Towler, o conhecido porta-voz do UKIP que, desta vez, está a trabalhar para Patrick Sullivan, o líder de um think tank londrino ligado ao Partido Conservador, chamado Parliament Street.

Outros grupos de reflexão política juntam-se à festa - o Bow Group e o Bruges Group. Sullivan explica a intenção: "Estamos aqui em nome da maioria silenciosa dos britânicos. Estamos a mostrar a Trump que, afinal, os britânicos apoiam-no e que os insubordinados não falam por todos nós." Os "insubordinados" a que se refere são, claro, os anti-Trump, que organizaram manifestações em quase todas as cidades inglesas, escocesas, galesas e irlandesas para protestar contra a administração americana.

Quando Trump soube que o Jameson mudara de nome para o apoiar, reagiu com uma daquelas suas frases simples e eficazes: "Adoro essas pessoas. Essas pessoas são o meu povo."

Aproximação entre conservadores e alt-right

O Bow Group é o mais velho think tank conservador britânico. Ainda Trump estava a aterrar em Londres já os membros do Bow o homenageavam, entregando a um representante do Partido Republicano dos EUA um busto de Winston Churchill (uma vez que Trump voltou a colocar na Sala Oval um busto do ex-primeiro-ministro britânico, depois de Obama o ter trocado por uma escultura de Martin Luther King).

Churchill é apenas um símbolo, aqui. Há outros, mais relevantes. A lista de oradores do encontro incluiu Nigel Farage (ex-líder do UKIP e amigo de Trump), que criticou a primeira-ministra conservadora britânica por "em cada possível oportunidade seguir a manada do politicamente correto e criticar Trump e as suas ações".

Falou também Raheem Kassan, o ex-editor em Londres do jornal da "direita alternativa" americano Breitbart. E também o presidente do Bow, Ben Harris-Quinney, um conservador que apelou ao voto no UKIP em 201, e que membros do seu próprio partido consideram ser um "homófobo e uma ameaça" depois de ter considerado uma "indignidade" a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo pelo governo conservador de James Cameron.

Nos últimos tempos, revela a imprensa inglesa, alguns destes clubes políticos têm-se aproximado de outros - menos conservadores e mais alt-right - como o Traditional Britain, que defende a deportação de "pessoas de cor" para "as suas terras de origem".

A estratégia para a Europa

Na origem desta aproximação entre setores antagónicos da direita britânica está o persistente trabalho no terreno do ex-estratega de Trump, Steve Bannon. Ele está agora em Londres, segundo revelou ao jornal Politico, para "ser o representante nos media britânicos" da visita de Trump.

Raheem Kassan explicou a importância disso à revista The Atlantic: "O Steve sabe que estamos num momento de mudança na história e na política neste momento, e é alguém que trabalha neste movimento há dez anos." "Ele não é um zé-ninguém, é alguém que está comprometido com um movimento global", acrescenta o líder do Bow Group, Harris-Quinney.

A Europa é o principal palco para a formação desse seu movimento, como mostram os recentes encontros de Bannon com Marine Le Pen, o novo ministro do Interior italiano Salvini ou o primeiro-ministro húngaro Orbán - os principais rostos do euroceticismo. "Aproveitar a visita de Trump a Londres é parte do esforço para aumentar a sua reputação como líder daquilo que ele próprio vê como um movimento populista global", analisa a The Atlantic.

Ler mais

Exclusivos

Premium

João Almeida Moreira

Bolsonaro, curiosidade ou fúria

Perante um fenómeno que nos pareça ultrajante podemos ter uma de duas atitudes: ficar furiosos ou curiosos. Como a fúria é o menos produtivo dos sentimentos, optemos por experimentar curiosidade pela ascensão de Jair Bolsonaro, o candidato de extrema-direita do PSL em quem um em cada três eleitores brasileiros vota, segundo sondagem de segunda-feira do banco BTG Pactual e do Instituto FSB, apesar do seu passado (e presente) machista, xenófobo e homofóbico.