Premium Millôr no Além

Millôr Fernandes, escritor, cartoonista, teatrólogo, tradutor, atleta (sim!) e o mais perto do que o Brasil já produziu de um pensador original, morreu em 2012,
no Rio, aos 89 anos. Numa carreira de mais de 70 anos, desenhando e escrevendo onde quisesse, Millôr destilou sua inteligência e lógica implacáveis sobre todos os assuntos. Suas preocupações iam de sexo ("O homem feliz não usava camisinha", "Machão não come mel - come abelha") e política ("Não gosto da direita porque ela é de direita e não gosto da esquerda porque ela é de direita", "Roube ainda hoje! Amanhã pode ser ilegal!") até ao que você quisesse imaginar.

Educação, por exemplo: "Um facto é concreto. Quem inventou o alfabeto foi um analfabeto." Religião: "Se Cristo tivesse sido enforcado, a forca teria a mesma força simbólica da cruz?" Anatomia: "Anatomia é essa coisa que os homens também têm, mas que nas mulheres fica muito melhor." Linguagem: "Os chineses inventaram, e todos os bobos repetem, que uma imagem vale por mil palavras. Diga isso agora sem palavras."

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Henrique Burnay

A ameaça dos campeões europeus

No dia 6 de fevereiro, Margrethe Vestager, numa só decisão, fez várias coisas importantes para o futuro da Europa, mas (quase) só os jornais económicos repararam. A comissária europeia para a Concorrência, ao impedir a compra da Alstom pela Siemens, mostrou que, onde a Comissão manda, manda mais do que os Estados membros, mesmo os grandes; e, por isso mesmo, fez a Alemanha e a França dizerem que querem rever as regras do jogo; relançou o debate sobre se a Europa precisa, ou não (e em que condições), de campeões para competir na economia global; e arrasou com as suas possibilidades (se é que existiam) de vir a suceder a Jean-Claude Juncker.

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Anselmo Borges

Islamofobia e cristianofobia

1. Não há dúvida de que a visita do Papa Francisco aos Emirados Árabes Unidos de 3 a 5 deste mês constituiu uma visita para a história, como aqui procurei mostrar na semana passada. O próprio Francisco caracterizou a sua viagem como "uma nova página no diálogo entre cristianismo e islão". É preciso ler e estudar o "Documento sobre a fraternidade humana", então assinado por ele e pelo grande imã de Al-Azhar. Também foi a primeira vez que um Papa celebrou missa para 150 mil cristãos na Península Arábica, berço do islão, num espaço público.

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Adriano Moreira

Uma ameaça à cidadania

A conquista ocidental, que com ela procurou ocidentalizar o mundo em que agora crescem os emergentes que parecem desenhar-lhe o outono, do modelo democrático-liberal, no qual a cidadania implica o dever de votar, escolhendo entre propostas claras a que lhe parece mais adequada para servir o interesse comum, nacional e internacional, tem sofrido fragilidades que vão para além da reforma do sistema porque vão no sentido de o substituir. Não há muitas décadas, a última foi a da lembrança que deixou rasto na Segunda Guerra Mundial, pelo que a ameaça regressa a várias latitudes.