A marcar passo, é como estamos

Os recentes arrufos entre as esquerdas dão bem conta do que têm sido estes três anos de governação: negociação permanente, para cá e para lá, cede aqui e cede ali, agora brilhas tu e depois brilho eu, ai que o Bloco se antecipou, lá vem o PCP que amuou, e mais os sindicatos a pedir, e os mercados a reagir, e é preciso não dar nas vistas na Europa, e faz mais um grupo de trabalho para entreter a esquerda, e redige aí um acordo ambíguo para dar para os dois lados, e que querem eles agora?, mas as propostas são impossíveis, não há dinheiro, talvez haja dinheiro, vamos fingir que há dinheiro, mas porque é que eles estão amuados?, e quem autorizou a Bloco a antecipar a medida?, claro, agora vem o PCP pedir satisfações, e eu só quero o Orçamento aprovado, depois na execução trocamos as voltas a isso tudo.

O governo das esquerdas tem sido isto, e só isto, num constante equilibrismo.

Há quem chame talento à capacidade de António Costa ir lidando com as irresponsabilidades das esquerdas. Há quem lhe admire o estoicismo de aturar dois partidos que dizem expressamente que tudo o que é bom foi feito por eles e tudo o que é mau é causado pelo PS. Há até quem sinta pena, imaginando as exigências constantes, o concurso de egos.

Não estou entre esses: estamos a pagar caro a existência de um governo que passa o tempo a negociar com inimigos da economia de mercado e que se desvia do essencial: em vez de estar a trabalhar na competitividade, na produtividade, na abertura da economia, nas reformas que nos coloquem a par dos nossos principais concorrentes, está neste jogo de tabuleiro, refém de dois partidos que nunca governaram, que nunca souberam governar, que desconfiam da Europa e da iniciativa privada e das empresas, e que encaram a política como um concurso de popularidade.

Na melhor conjuntura internacional dos últimos anos, o governo não tem tempo para espírito reformista porque está ocupado nestas habilidosas e estoicas negociações. Mas que negociações pode haver, que futuro pode haver, com partidos que querem a população toda empregue no Estado, que não suportam o lucro, que veem na liberdade de escolha uma ameaça e veneram o socialismo bolivariano que só trouxe miséria? Que de bom podem vir dessas negociações?

Estamos melhor do que há quatro anos, dizem-nos as esquerdas, achando que faz sentido comparar o Portugal de hoje, sem troika, sem memorando, sem lixo, com o Portugal na bancarrota, intervencionado, de mão estendida. Se o ponto de comparação é esse, estamos bem arranjados: não vamos sair da mediocridade.

Há devolução de rendimentos, dizem-nos as esquerdas, ignorando que a devolução começou antes das esquerdas e fazendo por esquecer que essa devolução foi acompanhada de maior carga fiscal, do menor investimento público de sempre e da degradação dos serviços públicos. Descobriu-se agora que não há dinheiro para tudo e o ponto é esse: não havendo dinheiro, preferiu sacrificar-se os serviços públicos, que já não estavam bem, preferiu sacrificar-se o amanhã.

Nada disto é ilegítimo, mas não foi nada disto que nos prometeram quando anunciaram o fim da austeridade. A austeridade não acabou, mas acabou-se, isso sim, a esperança de aproveitar um ciclo económico favorável para continuar a fazer o que há a fazer: abrir a nossa economia, prepará-la para a economia digital e ao comercio global, criando condições para que os sectores mais vulneráveis se preparem e adaptem e os mais dinâmicos se abalancem e vençam.

Os outros países conseguem, nós ficamos a ver navios porque estamos entretidos a negociar com quem nem viu o Muro de Berlim cair, todos contentes porque estamos melhor agora do que estávamos aquando da troika. Não vamos longe.

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