Invasões bárbaras

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Nem tudo o que é previsível perde relevância ou deixa de ser ameaçador. A invasão de Brasília de 8 de janeiro de 2023 parecia estar marcada nas cartas - mas ficará na História como um dos momentos de maior risco para a Democracia brasileira. Dá razão ao Presidente dos EUA, Joe Biden, quando escolhe como bandeira do seu mandato a defesa das democracias liberais perante o avanço dos comportamentos autocráticos.

As "invasões bárbaras" dos nossos tempos são protagonizadas por quem apoia os poderes de perfil autocrático e se sente autorizado a pisar as regras democráticas. Não são feitas pelo "outro", mas por quem acha que deve manter o poder. O mesmo processo eleitoral que elegeu líderes com esses traços é recusado quando estes falham as reeleições.

Nesta estranha terceira década do século XXI, o bizarro passou a parecer-nos normal. Primeiro foi a eleição de Trump para a Casa Branca: o comportamento inaceitável do 44.º Presidente dos EUA começou por chocar e indignar - mas a repetição levou a um encolher de ombros de demasiada gente. Depois foi Bolsonaro no Brasil. Não, não podia ser: aquela linguagem, aquela boçalidade, o ataque descarado à diferença e aos outros poderes. E o negacionismo criminoso durante a pandemia.

Só que o passar do tempo tem um efeito normalizador que devia ser, no mínimo, assustador.

A cartilha de ataque às instituições democráticas, negacionismo eleitoral e tendência para justificar os próprios insucesso com supostas conspirações montadas "pelos outros poderes" teve como precedente o ataque ao Capitólio a 6 de janeiro de 2021 (Washington DC) e como réplica tosca e sem propósito aparente os ataques simultâneos ao Palácio do Planalto, ao Congresso e ao Supremo Tribunal Federal de 8 de janeiro de 2023 (Brasília).

Claro que houve diferenças. O ataque ao Capitólio foi feito duas semanas antes da tomada de posse de Biden e horas depois do então Presidente Trump ter incitado a multidão a marchar para a sede do poder político norte-americano, enquanto os congressistas certificavam a vitória presidencial de Joe Biden. O ataque aos Três Poderes de Brasília ocorreu uma semana depois da posse de Lula, com Bolsonaro oportunamente recolhido na Florida, num domingo sem qualquer ato político relevante a influenciar ou perturbar.

Mas a base dos comportamentos revelados foi a mesma. O que os ocupantes de Washington e Brasília fizeram quando entraram nos edifícios foi incrivelmente semelhante. E mesmo o que disseram parecia advir do mesmo guião populista ("Esta é a nossa casa", "Somos o povo e quiseram roubar-nos").

Nesse domingo à noite, quando notei tal semelhança, lembrei-me dos avisos de Steve Bannon, o "ideólogo" da campanha Trump 2016: "Vocês ainda não perceberam ou não querem acreditar, mas isto é uma revolução. E numa revolução vale tudo para destruir o sistema vigente".

Pode ser que a invasão dos Três Poderes em Brasília tenha, finalmente, tirado as dúvidas que se mantinham em certas cabeças da "direita moderada" sobre quão errado é para a democracia insistir em "falsas equivalências" do estilo "Trump é mau, mas Biden está velho" ou "Bolsonaro e Lula são dois extremos igualmente condenáveis". Obviamente, não são. Bolsonaro ataca a democracia. Lula terá a tarefa imensa de a tentar salvar.

Um dos mais aspetos mais chocantes do que vimos a 8 de janeiro de 2023 tem a ver com o desligamento daqueles ocupantes destruidores com a realidade objetiva - tamanho será o grau de adesão que têm à esfera de desinformação e "fake news" montada há anos, com igual competência técnica e descaramento de conteúdos, pelo bolsonarismo.

Será que os vândalos de Brasília, mesmo depois do que centenas de pessoas a cumprir pena nos EUA pelo ataque ao Capitólio, não tinham a noção que estavam a autoincriminar-se, quando publicaram vídeos e tiraram selfies a partir vidros, destruir quadros, riscar mesas e roubar material de trabalho que os contribuintes brasileiros pagaram? Estariam cientes que os esperam processos judiciais e prováveis condenações exemplares? Ou foram instrumentalizados - em mistura de ignorância, desinformação e crença ideológica cega - por quem tem interesse em manter uma massa ignara, pronta a voltar a votar no populismo extremista?

Nem tudo é mau: sondagem saída quatro dias depois aponta para que 93% dos brasileiros condenam energicamente os tristes acontecimentos de Brasília. Mas terá Lula a capacidade e as condições de trazer para o arco democrático grande parte de quem votou Bolsonaro no segundo turno e não se revê nos atos criminosos de 8 de janeiro?

No livro Joe Biden - o Homem e as suas Circunstâncias: o Regresso da América na Era da Polarização Extrema dediquei um capítulo inteiro à invasão do Capitólio. A certo ponto, escrevi: "Há um aiC e um diC na História da democracia americana: antes da invasão do Capitólio e depois da invasão do Capitólio. O ato inominável de 6 de janeiro de 2021 ficará como marca inegável, indisfarçável e inapagável da pior presidência americana das últimas nove décadas. As instituições, depois de atacadas, têm que fazer respeitar-se".

Dois anos depois, o diagnóstico alarga-se dos EUA ao Brasil. As instituições democráticas não podem deixar em claro, por mera leitura tática do momento, ataques tão miseráveis. Ou reagem com firmeza e autoridade ou deixam de existir.


Autor de cinco livros sobre presidências dos EUA

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