O arrastão holandês

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A 2 de novembro de 2004, estava há pouco mais de dois meses a viver em Delft, a cidade holandesa onde pintou Vermeer, quando, acabado de chegar a casa com as compras equilibradas na bicicleta, liguei a televisão e dei conta do assassinato do realizador Theo Van Gogh (1957-2004). Enquanto percorria as ruas perto do centro de Amesterdão na sua bicicleta, o holandês foi alvejado e esfaqueado por um homem de nacionalidade holandesa e marroquina e muçulmano. Van Gogh, que era bisneto de Theo Van Gogh, irmão de Vincent Van Gogh, era uma voz livre, polémica para alguns e assertiva para outros. Não se abstinha de criticar ferozmente o Islão e sobretudo a maneira como os muçulmanos tratam as mulheres. Fê-lo de várias formas, uma das quais com o filme Submission (2004). Tudo isso lhe valeu repetidas ameaças de morte e, naquele fatídico dia, o consequente assassinato.

Mal sabia eu, ainda sem ter pousado os sacos com as compras, que estava a assistir a um dos principais momentos que levariam, 20 anos depois, o político de direita populista Geert Wilders e o seu partido (PVV - Partido Pela Liberdade) a serem os mais votados nas eleições para o Parlamento dos Países Baixos.

Foi na recente noite de 23 de novembro que se assistiu à chegada da direita populista ao poder de um país da Europa Ocidental. Ainda que, na altura em que escrevo estas linhas, Wilders não tenha conseguido formar Governo, por várias recusas de outros partidos em formarem coligações, convém perceber quem é este político de cabelo loiro estranho (mais um!), populista, radical e em certa forma carismático. E perceber o que levou um povo tão liberal, com uma ética protestante tão acentuada, a cair na armadilha da direita radical e do populismo que parece estar a alastrar pela Europa Ocidental. Wilders é um planador da política neerlandesa. Está no Parlamento dos Países Baixos - a segunda câmara - há cerca de 25 anos, é um dos mais antigos. Pertenceu ao partido do ex-primeiro-ministro (Mark Rutte) até formar o seu próprio partido - o Partido da Liberdade - há 17 anos. E, tal como já afirmou publicamente, o assassinato do realizador Theo Van Gogh foi um dos motivos para que tenha acentuado o seu discurso contra o Islão. Wilders, que é adjetivado por vários jornalistas, holandeses e de outras nacionalidades, como alguém muito gentil e simpático, "transforma-se" no "palco" do Parlamento ao fazer discursos que muitas vezes podem ser confundidos com performances de comédia stand up. Ele e o ex-primeiro ministro Mark Rutte (seu ex-companheiro de partido no VVD) foram protagonistas nas legislaturas anteriores de vários momentos de risadas e piadas entre acusações mútuas, a lembrar um espetáculo de humor, o que remete de alguma forma para as interações entre António Costa e André Ventura no nosso Parlamento. Ora Wilders é contra a emigração, diz-se a favor da proibição do Corão, e compara-o ao Mein Kampf de Adolf Hitler. E sim, o discurso dele tem algum eco num país com verdadeiros problemas de integração, problemas que nos últimos governos, da esquerda à direita, não se resolveram. Apesar de tudo isso ter o seu peso, o que levou verdadeiramente os holandeses a votarem em Wilders foram problemas que afetam também os portugueses: o elevado custo de vida (embora um cabaz de compras essenciais fique mais barato nos Países Baixos do que nos supermercados portugueses), o custo da energia, da saúde (com os seguros privados a cobraram muito e a cobrirem pouco), o custo do ensino (os estudantes holandeses terminam o curso com dívidas elevadas que terão de pagar no futuro) e a enorme crise na habitação.

Há semanas regressei a Amesterdão, onde há 20 anos também vivi um par de anos. Apesar de sempre fantástica e vibrante, e com supermercados com preços mais em conta, achei a cidade menos simpática, com muito menos paciência e tolerância com os turistas. Falei com portugueses que vivem lá, com holandeses com quem mantive amizade ao longo destes anos, e ambos indicaram estar fartos da situação que vivem. Fartos dos partidos mainstream e dos escândalos dos últimos anos, dos casos e "casinhos" do Governo liderado por Rutte (foram 13 anos como primeiro-ministro de várias coligações) e fartos de pagarem cada vez mais por tudo.

Felizmente a sensatez e a grande tradição de tolerância holandesa irá travar o ímpeto xenófobo de Wilders (tenho essa esperança). Mas há lições a reter perante este novo cenário num país que leva a liberdade individual muito a sério: são os partidos moderados que estão a falir e a desiludir o povo. A culpa não é de Wilders e do seu discurso tonto, e sim dos políticos ditos do "círculo governativo" que se afastaram da vida comum, do dia a dia, da realidade e que vivem numa bolha. Se não saírem dela, nos Países Baixos, aqui em Portugal e no resto da Europa Ocidental, é bem provável que Wilders se torne um arrastão e leve outros populistas e demais políticos da direita radical ao poder.

Isto quase 100 anos depois do que a História nos ensinou sobre o resultado que trouxeram o populismo e o fascismo. Por cá não temos problemas de integração (se comparado com a França, Bélgica e Países Baixos), por muito que isso entristeça André Ventura. Mas o povo está farto e irritado. Em breve teremos eleições legislativas em Portugal e será uma excelente oportunidade para os políticos, da direita à esquerda, deixarem de dar atenção só aos seus spin doctors, descerem à terra e perceberem realmente como vivem os portugueses. Se continuarem na sua bolha, o mais certo é que daqui a poucos anos apareça um Wilders português - se é que ele já não anda por aí. E já sabemos as consequências disso, estão escritas nos livros de História.

Editor do Diário de Notícias

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