Arábia Saudita. Pela fresta, o movimento

Mala de viagem (8). Um retrato muito pessoal da Arábia Saudita.

Riade é mítica e mística. Olaya é o coração comercial da cidade, com opções de alojamento, entretenimento, restaurantes e compras, e é também a sua parte mais antiga. Aqui, entrei num velho restaurante, de que o nome já não me vem à memória. Olhares prevenidos observaram-me. Sentei-me na mesa que ficava junto à janela estreita. O meu anfitrião aproximou-se de mim, com um papel manuscrito em árabe. Tentei passar a informação de que não percebia patavina do que ali se encontrava escrito. Ao lado, dois cavalheiros degustavam algo com bom aspeto. Apontei no sentido de o meu almoço vir a ser igual. O anfitrião deu meia volta, soltando uma gargalhada. Mais ao fundo, sentado numa cadeira isolada, um outro indivíduo lia o jornal, levantando por vezes os olhos, fitando-me e sorrindo, não sei se por simpatia ou por ironia. Na ironia do destino, e neste impasse, senti-me sujeito a um interrogatório sem palavras. E pus-me a observar a nesga de cidade, por aquela janela, até que chegasse o repasto. Isto é um mundo muito diferente do Ocidente. Vi vendedores ambulantes e alguns turistas pelo meio de uma corrente de gente de semblante característico destas coordenadas, mesclada de imigrantes de países vizinhos, presumo que fossem indianos, paquistaneses e egípcios, bem como de outros continentes, como europeus e norte-americanos, que vieram em busca das obras relacionadas com a exploração do petróleo. A comida chegou, entretanto. Era algo diferente do que os meus vizinhos de mesa comiam. Era carne, mas não parecia ao mesmo. Não seria de porco, certamente, porque é proibida aqui, segundo a sharia, ou seja, o direito islâmico. Noutro prato, havia arroz. Vejo sair da cozinha quem me pareceu ser o cozinheiro. Num esforçado inglês, disse-me que preparara o prato com carneiro, porque esta é a ementa especial no país para obsequiar visitantes, os expats, como era o caso, segundo ele - eu já sabia de que a cultura saudita gira à volta do bem receber -, e explicou que a carne de carneiro era muito consumida assim preparada, guisada e recheada com muitos temperos. Agradeci e fiquei comendo, enquanto os olhares circundantes não se retiravam de mim. No final, fui obsequiado com um mapa de Riade, com bolas assinaladas pelo simpático cozinheiro. Cada qual identificava um ponto turístico: o Forte Masmak, a Kingdom Tower e o Mercado Batha foram algumas das sugestões. E uma outra despertou-me a atenção, que visitei nessa tarde: as ruínas da cidade antiga, chamadas "Old Ad'Diriyah", onde se consegue ter uma ideia de como eram antigamente as ruas da cidade, nos tempos em que o petróleo não moldava a cabeça e a vida dos habitantes do reino.

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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