Porque, no ténis, há mais campeãs do que campeões

Nos últimos 15 anos, apenas cinco tenistas quebraram o domínio avassalador de Nadal, Djokovic e Federer nos torneios do Grand Slam. Em contraste, no circuito feminino já não é novidade ver jovens talentos a passar a perna a Serena Williams.

Mais uma temporada de torneios do Grand Slam que chega ao fim, e mais um ano em que fica provado que o domínio dos big 3 (Nadal, Djokovic e Federer) no circuito masculino está para durar, em contraste com o que se passa em femininos, onde, apesar do domínio de Serena Williams, ao longo dos anos vão surgindo caras novas a vencer majors e a chegar a número um do mundo.

Nos últimos 15 anos (desde 2005), Rafael Nadal, Novak Djokovic e Roger Federer venceram 47 dos 60 torneios do Grand Slam (Open da Austrália, Roland Garros, Wimbledon e US Open), ou seja, 78%. As únicas exceções a este domínio demolidor foram Andy Murray (3 triunfos), Stan Wawrinka (3), Del Potro (1), Marin Cilic (1) e Marat Safin (1). Se observarmos apenas os três últimos anos, todos os majors foram ganhos pelos big 3. Triunfos de tenistas da chamada nova vaga em Grand Slam, casos de Alexander Zverev, Dominic Thiem, Stefanos Tsitsipas, Karen Khachanov, Borna Coric e Daniil Medvedev, nem vê-los.

Alexander Zverev, atual número quatro da hierarquia, é, entre todos, aquele que os especialistas apontam com maior probabilidades de de poder entrar neste restrito lote, até porque já conseguiu um triunfo no ATP Finals e vitórias em torneios Masters 1000 diante de Federer e Djokovic.

"É um sinal de debilidade para o ténis. No meu tempo de jogador havia superfícies extremamente rápidas, mas em França, por exemplo, era muito lento. O que se passa agora é que Nadal, Djokovic e Federer conseguem utilizar as mesmas táticas em todos os torneios. Então o ténis é igual. A pergunta que faço é a seguinte: são muito melhor do que os outros, ou o resto dos jogadores é que não são tão bons?", referiu recentemente Mats Wilander, antigo número um do mundo e atual comentador da modalidade.

O croata Marin Cilic foi dos poucos que nos últimos 15 anos conseguiram vencer uma prova do Grand Slam e quebrar a hegemonia dos big 3 - o US Open, em 2014. E tem uma justificação para este intenso domínio: "Eles os três estão permanentemente a lutar por recordes e, por esse facto, pressionam cada vez. Sentem-se desafiados e isso torna difícil a missão dos outros tenistas. São tão dominantes nesses torneios que para nós torna-se complicado batê-los. Mas acredito que em breve alguns jovens vão conseguir intrometer-se na luta. Quando? Não sei, talvez em um ou dois anos."

Menos otimista está o norte-americano Jim Courier, que na década de 1990 chegou a ser líder do ranking mundial. "Parece-me que o caminho só ficará aberto em mais ou menos cinco anos, quando estas incríveis lendas do ténis finalmente abandonarem a modalidade. Aí sim, acredito que haverá novos tenistas a ganhar seis ou sete, mas nunca exibindo os números deste trio, com 16, 17, 18, 19 ou 20 majors."

Já Andy Murray, o tenista que mais luta deu aos big 3, vencedor de três torneios do Grand Slam nos últimos 15 anos e que chegou a ser número um mundial em 2016, é da opinião que a hegemonia de Nadal, Djokovic e Federer não será tão duradoura. "Creio que vai acontecer algo não daqui a muito tempo. Os jovens vão dar um salto qualitativo e, ainda que possa haver títulos em Grand Slam de Djokovic, Federer e Nadal, o seu domínio permanente não pode durar mais de dois anos", admitiu.

Serena e a next gen feminina

Em contraste com o circuito masculino, em femininos a história é bem diferente. Aliás, este ano é uma boa prova disso, com as quatro provas do Grand Slam a ser ganhas por tenistas diferentes - Osaka venceu na Austrália; Ashleigh Barty em Roland Garros, Simona Halep triunfou em Wimbledon e a novata Bianca Andreescu o US Open. Aliás, em 2017 e 2018 já se tinha verificado a mesma situação.

Depois de concluído o US Open, há uma semana, o ranking feminino inclusivamente sofreu várias alterações. Ashleigh Barty passou a ser número um mundial, Naomi Osaka desceu para o quarto lugar e a supercampeã Serena Williams caiu para nono da hierarquia.
Fazendo um ponto de comparação com o masculino nos últimos 15 anos, chega-se rapidamente à conclusão de que a competitividade entre as tenistas é muito maior do que nos homens a nível dos torneios major - nos 60 Grand Slam disputados desde 2005, existiram 24 vencedoras diferentes (nos homens apenas oito).

Ao contrário dos homens, porém, existe apenas uma tenista que se destacou das restantes em termos em torneios do Grand Slam conquistados - Serena Williams. Enquanto em masculinos existem três tenistas com números muito aproximados (Nadal com 19 triunfos e Federer e Djokovic com 16) desde 2005, na WTA, a norte-americana está muito à frente, pois soma 17 contra os quatro triunfos obtidos por Justine Henin, Kim Clijsters e Maria Sharapova.

Mas a hegemonia de Serena parece ter terminado, pois desde que foi mãe não voltou a vencer um torneio do Grand Slam - o último foi o Open da Austrália, em janeiro de 2017, quando derrotou na final a sua irmã Venus.

Este ano a mais nova das manas Williams, de 37 anos, chegou à final do US Open, mas foi derrotada pela canadiana Bianca Andreescu, de 19 anos, que, com surpresa, conquistou o seu primeiro torneio Grand Slam (nem era nascida quando Serena ganhou o primeiro major). E no torneio anterior, em Wimbledon, tinha também caído na final, derrotada por Simona Halep.
"É algo de fantástico. No circuito feminino, o nível aumentou imenso e há um enorme equilíbrio entre as tenistas nos últimos anos", disse recentemente Ashleigh Barty, 23 anos, a atual número um da hierarquia feminina.

Ou seja, nas mulheres existe atualmente uma next gen, em que as favoritas não se resumem a um lote de três ou cinco tenistas. Olhando para o ranking, nas dez melhores colocadas apenas uma tem mais de 30 anos, precisamente Serena Williams. A líder Ashleigh Barty tem 23 e seguem-se Karolina Pliskova (27), Elina Svitolina (24), Naomi Osaka (21), Bianca Andreescu (19), Simona Halep (27), Petra Kvitova (29), Kiki Bertens (27) e Belinda Bencic (22).

Nos homens, há quatro jogadores no top 10 com mais de 30 anos, a começar logo pelos três primeiros: Novak Djokovic (32), Nadal (33) e Federer (38). O mais novo é o grego Stefanos Tsitsipas, de 21, seguido de Alexander Zverev, 22.

"Durante muito tempo fomos consistentes. A geração anterior à minha provavelmente não era tão boa. Mas agora, sim, na minha opinião temos uma geração que é muito boa. É só uma questão de tempo. É o meu sentimento. Zverev, Thiem, Tsitsipas, Shapovalov, Khachanov e Rublev são bons. Eles são muito, muito bons. Vão lutar por coisas importantes nos próximos cinco ou seis anos", disse Rafael Nadal à CNN, secundado por Djokovic: "Há muita qualidade nesta nova geração. Zverev é obviamente o líder dela. Já venceu três Masters 1000 na carreira, o que é incrível. Depois há também Khachanov, Tsitsipas e Coric. Acho que o ténis está em boas mãos. Nós, os mais velhos, ainda estamos a trabalhar no duro e com inteligência para continuar a dar o máximo. Quanto vai durar? Não sabemos." Para o ano logo se vê se a tendência é para manter e se haverá algum intruso a bater o pé aos big 3.

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