Premium "Os nossos militares lá fora são considerados dos melhores, chamam-lhes Ronaldos"

João Gomes Cravinho, ministro da Defesa, faz elogio dos militares envolvidos em missões internacionais, como a atual na República Centro-Africana. Relembra que a segurança de um país já não está nas suas fronteiras, pode estar até muito longe.

A República Centro-Africana é o país que agora é mais noticiado quando falamos de militares portugueses no exterior, nomeadamente porque tem havido episódios de combate com milícias. Como ministro da Defesa tente dizer aos portugueses duas ou três razões para Portugal estar presente na República Centro-Africana.
De facto é uma questão que se coloca. A República Centro-Africana é um país que simplesmente não constava no imaginário dos portugueses, é um país mais ou menos desconhecido para a generalidade da população até este último par de anos em que nós temos dois contingentes. Um na Missão das Nações Unidas e um outro a fazer formação na Missão da União Europeia. Posso dar uma razão abstrata: nós, em Portugal, temos o dever de contribuir para a promoção da paz no contexto multilateral. Mas isso é uma razão vaga, sobretudo quando estamos a falar de algo que é muitíssimo concreto, que é colocar vidas portuguesas, militares portugueses numa situação de perigo. E aí acho que podemos concretizar de forma muito mais clara dizendo que a República Centro-Africana era, e ainda é, em boa medida, uma área de total desgovernação, em que falta capacidade de imposição de autoridade do Estado. E aquilo que nós verificamos é que, quando isso acontece, inevitavelmente, os territórios tornam-se um foco de atividades que depois têm efeito contágio para uma região muito mais alargada. A República Centro-Africana não é um país vizinho, mas é um país vizinho de uma vizinhança nossa, que é o Sahel. E nós, a Europa, e nós Portugal também, corremos riscos grandes se, numa região não muito próxima, mas uma região que já afeta o nosso espaço geral político, verificarmos uma situação de ingovernabilidade e uma situação em que grupos terroristas, traficantes de drogas, armas, e muitas vezes combinado entre o terrorismo e os tráficos vários, se permitem trabalhar em liberdade e com facilidade. E, portanto, é um contributo muito concreto para a segurança de Portugal. Aquilo que eu tenho dito aos militares portugueses quando os visito - e eles sentem quando estão no terreno - é que a nossa segurança começa longe das nossas fronteiras. O paradigma antigo de que a defesa de Portugal tinha que ver com a salvaguarda das nossas fronteiras hoje em dia não se compadece com a realidade do mundo contemporâneo. A nossa segurança tem de ser assegurada pela participação de militares portugueses em operações que não são próximas das nossas fronteiras mas contribuem diretamente para a criação de áreas de segurança que nos podem afetar.

Nesse âmbito, estamos a fazer esta entrevista numa data muito simbólica, que é 11 de setembro. Há 18 anos houve o maior atentado terrorista da história da humanidade, em Nova Iorque. A mesma explicação que estava a dar para a República Centro-Africana é a explicação porque enviámos tropas também para o Afeganistão pouco depois da queda das Torres Gémeas. Ou seja, a vizinhança não tem de ser imediata porque a ameaça também não tem de ser próxima, pode ser distante?
Nós não podemos imaginar que somos imunes ao flagelo do terrorismo internacional. Felizmente, não temos sido em Portugal alvo de ataques terroristas. Mas não podemos imaginar que de alguma maneira temos uma espécie de proteção mágica em relação a uma das dinâmicas mais perigosas do mundo contemporâneo. Temos um dever que é de solidariedade para com os nossos aliados, mas temos também um dever de participação num processo que tem que ver com a nossa própria segurança.

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