A falsa polémica sobre o Nosso Modo de Vida

A futura presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, propôs novos nomes aos diversos pelouros do seu governo. Acabou em polémica. Em geral costumo gostar da imaginação ao serviço dos nomes. Se os nomes dos condomínios de luxo são quase sempre pretensiosos (Varandas das Buganvílias...), já os das operações da PJ costumam ser bem esgalhados: chamar Cartas Fora do Baralho a um vulgar desvio de correspondência deram ao caso um não sei quê de poético. O angolano José Vieira Mateus da Graça, quando virou escritor, rebatizou-se Luandino Vieira, o que fez de uma sua condição fundamental, ser luandino (luandense), também sua identidade pública e reconhecida. Para muitos, o nome é acaso, mas outros exigem-lhe mais, um real significado.

Então, Von der Leyen pôs o comissário letão Valdis Dombrovskis - mero especialista, ao que se supunha até agora, das coisas orçamentais - a tratar da Economia ao Serviço das Pessoas. Lindo, acho eu. E passou a haver um cargo que se chama Democracia e Demografia, o que tem tudo que ver quando esta é galopante pelo mundo fora e aquela enfraquece por todo o lado, incluindo países europeus. Valores e Transparências, outro pelouro, também me parecem belos nomes, assim cumpram eles o significado de cada um...

Outros novos nomes poderão não ter sido tão felizes. Ao espanhol Josep Borrell, que julgava vir a ser empossado chefe da diplomacia europeia, vai ser, mas num pelouro com entoação guerreira: Europa mais Forte no Mundo (tipo, quem não tem canhoneira caça com semântica). A pasta Vizinhança e Alargamento poderia ser a bem chamada, não fosse a ironia de estar prometida ao comissário húngaro Laszlo Trocsany, cujo país tem governo de ideias musculadas para as suas fronteiras...

Mas toda esta atividade batismal frenética teria passado sem grande polémica, não fosse o novo nome que Ursula von der Leyen quer dar ao pelouro do comissário Margaritis Schinas: Proteção do Nosso Modo de Vida Europeu. Nome sugerido, soltou-se um escarcéu. A alemã Von der Leyen e o grego Schinas são ambos do grupo conservador europeu, o PPE, e houve quem receasse uma intenção malévola no novo nome.

Houve protestos de eurodeputados de vários bordos, até Jean-Claude Juncker, ainda presidente da Comissão mas já futuro antecessor de Von der Leyen, se opôs: "Não me agrada a ideia." E explicou-se: "Da maneira que eu vejo, o modo de vida europeu passa por aceitar aqueles que vêm de longe..." É o problema das palavras, é o problema dos nomes - cada um chama-lhes seu. Ora eu prefiro outros, que não os políticos, a discutir o significado das palavras e dos nomes.
Já o disse em muitas crónicas: não me canso de lembrar Amin Maalouf. É membro da Academia Francesa, cito-o pelo domínio das palavras, mas também pela sua experiência de cidadão do mundo: é libanês de nascimento, é árabe e cristão, e imigrante em França. Bom para reconhecer a Europa. Homem do Levante, do Próximo Oriente, quando este era terra de troca e de diálogo, mas hoje é uma tragédia, Maalouf tem um ensinamento precioso a dar àqueles que tiveram o mesmo destino que o seu, imigrante na Europa.

E é este o conselho de Amin Maalouf: "Primeiro, aprender a cultura da terra de chegada; segundo, oferecer a esta o melhor que trouxe da terra natal"... Isto é, o libanês, árabe e cristão Maalouf propõe que os seus irmãos imigrantes sejam comissários da Proteção do Nosso Modo de Vida Europeu. O que me parece muito acertado para os dois nomes nomeados mais importantes nesta história: a Europa e os imigrados.

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