Preço das casas faz que quatro em cada dez desistam ou adiem compra

Entre os que compram, mais de metade acabam por ter de abdicar de algumas das exigências iniciais, revela estudo da Century 21.

Um apartamento usado, mas com obras feitas, a rondar os cem metros quadrados de área, três quartos, duas casas de banho, arrecadação, garagem, localizado no centro da cidade ou em redor das zonas centrais, numa zona segura e com transportes e serviços. Esta é a casa ideal para a maioria dos portugueses que procuram um imóvel para habitar e pelo qual estão dispostos a pagar cerca de 140 mil euros. A oferta que existe atualmente no mercado mostra que o preço médio pedido ronda os 174 mil euros e que há mais imóveis disponíveis nas zonas periféricas e nos subúrbios. Este desfasamento leva a que quatro em cada dez pessoas acabem por desistir ou adiar a compra de casa e seis em cada dez abdiquem de algum dos critérios iniciais.

Estes são alguns dos resultados de um estudo promovido pela Century 21 no âmbito do Observatório da Habitação em Portugal, que, através de um inquérito a 810 pessoas, procura medir as expectativas, as motivações, os comportamentos e as tendências de quem compra e de quem vende e o desfasamento entre a casa de sonho e a habitação que efetivamente acabam por adquirir ou arrendar.

O afastamento entre uns e outros começa logo a ser notório na questão da área da casa. Os primeiros apostam e querem cem metros quadrados, mas não é este o perfil da maioria dos imóveis disponíveis no mercado, com o estudo a concluir que faltam casas entre os 91 metros quadrados e os 120 metros quadrados. Outro dos itens em que há desfasamento é no número de quartos: a oferta de casas com um a três quartos é menor do que aquilo que os compradores querem e, ao mesmo tempo, as casas com mais de três quartos representam 26% da oferta, além de que apenas são procuradas por 17%.

O fator em que compradores e vendedores mais estão de costas voltadas acaba por ser o preço. A nível nacional, o preço médio de venda é de 173 252 euros, sendo este um montante que excede em 34 mil euros aquilo que os consumidores podem ou querem pagar (138 623 euros).

Esta diferença é ainda mais acentuada se se tiver em conta as realidades das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. Neste caso, a oferta ronda os 192 344 euros e os 171 538 euros, respetivamente, mas a disponibilidade de quem procura casa na zona de Lisboa é de 171 5834 euros e de 137 587 a norte. No Algarve o afastamento é ainda mais acentuado: quem vende pede em média 193 125 euros, superando em 62 417 euros o valor que os consumidores estão dispostos a pagar. O estudo mostra também que um terço da oferta pede valores entre os 200 mil e os 700 mil euros, mas apenas 13% dos compradores estão interessados neste segmento de preços.

Tudo isto acaba por fazer que muitos desistam de comprar casa ou abdiquem de alguns dos critérios que puseram no topo da lista quando partiram para este projeto. Quatro pessoas em cada dez desistem ou adiam a decisão de aquisição de casa, e seis em cada dez acabam por abdicar de algumas características que faziam parte da sua lista inicial.

E os critérios que acabam por ser postos de lado são o tamanho da casa - 26,9% acabam por escolher uma casa com uma área mais reduzida do que aquela que queriam -, o estado da habitação - 23,6% desistem da construção nova ou usada sem necessidade de obras - e a zona de preferência - já que 23,2% acabam por escolher casa num local diferente daquele que pretendiam.

Apesar das diferenças entre quem quer comprar e quem quer vender, e da falta de oferta de imóveis, Ricardo Sousa, CEO da Century 21 Portugal e Espanha, referiu ao DN/Dinheiro Vivo que os mediadores acabam por conseguir encontrar uma solução que se ajuste a ambas as partes. No entanto, assinala, "está a aumentar" o tempo que uma pessoa demora a procurar casa - e que, em média, ronda atualmente os 12 meses.

Ainda que na maior parte das vezes as expectativas do comprador não tenham resposta do lado de quem vende, os dados mostram que há situações em que um e outro lado conseguem entender-se na perfeição. Exemplos? Quando está em causa o tipo de habitação pretendida: 61,2% dos compradores querem um apartamento e 60,2% preferem que seja em segunda mão. A oferta responde na perfeição, já que 80,4% dos imóveis disponíveis e analisados são usados mas remodelados e 63,8% dizem respeito a apartamentos.

Preferência por comprar

A maior parte dos portugueses vive em casa própria e é assim que pretendem continuar. Segundo o estudo, 98,7% veem mais vantagens em viver numa casa própria do que numa arrendada e preferem viver em casa própria, e esta preferência resulta do facto de considerarem o imóvel como um investimento no futuro (58,1% põem esta justificação em primeiro lugar), enquanto o arrendamento é visto como um desperdício de dinheiro (27,1%) ou tão caro como comprar (21,3%).

Entre os 10% que preferem o arrendamento à compra, as dificuldades entre a oferta e a procura mostram também o seu peso. Três quartos querem pagar uma renda até 500 euros, mas a oferta mostra que apenas 61% das casas estão neste patamar de preços (sendo este valor correspondente à média nacional).

Numa análise mais geral ao mercado, Ricardo Sousa sublinha que apesar da "notória recuperação do mercado" observada de 2015 em diante e do registo constante de vários indicadores positivos, "o excesso de otimismo está a conduzir novamente a algumas tomadas de decisão que, daqui a uns anos, podem revelar-se erradas".

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