De conselheiro de Belmiro a advogado (e amigo) de Ronaldo

Carlos Osório de Castro é um advogado com reputação de "brilhante" desde a faculdade. Foi um dos cérebros da Sonae e ficou amigo íntimo da família Azevedo. Com Ronaldo, agora o seu cliente mais famoso, passou-se o mesmo.

Nos casos judiciais em que se viu envolvido Cristiano Ronaldo nos últimos tempos, das questões fiscais em Espanha à atual acusação de violação por parte da norte-americana Kathryn Mayorga, emergiu um nome em destaque no universo do melhor futebolista português. Mais do que um mero advogado ao serviço do capitão da seleção nacional ou da empresa que lhe gere a carreira, a Gestifute, Carlos Osório de Castro é hoje uma das figuras mais importantes no núcleo próximo do avançado da Juventus.

"Ele tem uma ligação mais do que profissional com o Ronaldo. São amigos, mesmo. É advogado dele em todas as matérias, dos contratos futebolísticos aos direitos de imagem, comerciais, tudo o que for preciso. Sofre com ele", revela ao DN António Lobo Xavier, sócio de Osório de Castro desde longa data na advocacia, em que o homem que agora coloca a sua assinatura em tudo o que é contrato de Ronaldo (inclusive no alegado acordo de confidencialidade denunciado agora por Mayorga sobre o caso passado em Las Vegas no verão de 2009) ganhou fama sobretudo pelas suas intervenções no mercado de capitais.

Se sofre com Cristiano Ronaldo, não é difícil entender que Osório de Castro esteja "triste" nesta altura com as tormentas que ameaçam a carreira do jogador cinco vezes eleito o melhor do mundo pela FIFA. Não por qualquer peso na consciência, mas apenas porque não gosta de ver o cliente e, sobretudo, amigo "ter de lidar com isto", com o desgaste provocado pelas repercussões públicas destes casos.

Figura de proa da advocacia portuense, com percurso umbilicalmente ligado à Sonae e às grandes batalhas do histórico empresário Belmiro de Azevedo, Carlos Osório de Castro chegou ao mundo do futebol através da sua paixão pelo FC Porto. Portista ferrenho, raramente falhava um jogo no velhinho Estádio das Antas e, na década de 1990, colaborou com Lobo Xavier, com quem partilha também a cor clubística, na preparação dos estatutos da sociedade anónima dos dragões.

Foi nos tempos áureos do FC Porto de José Mourinho, nos primeiros anos do século, que Osório de Castro se cruzou com o empresário Jorge Mendes. Foram épocas recheadas de conquistas nacionais e internacionais para o clube. "Nesses anos íamos ver praticamente todos os jogos, em casa e fora, aqui ou no estrangeiro", recorda Lobo Xavier. Foi também por essa altura que começou a trabalhar com o homem que emergia como o superempresário do futebol mundial. "O Jorge Mendes tinha um problema qualquer e falou com o Carlos, que o conseguiu resolver. O brilhantismo dele deixou o Jorge rendido", revela o antigo deputado do CDS, que confessa ter em Osório de Castro "um grande amigo".

A partir daí, a firma de Carlos Osório de Castro passou a constar de todos os grandes negócios feitos por Jorge Mendes - ou seja, a esmagadora maioria dos grandes negócios do futebol português, de Mourinho a Deco, James, Falcao ou ainda Scolari para o Chelsea. Entre eles, claro, os de Cristiano Ronaldo, o fenómeno que se tornou centro nevrálgico da atuação da Gestifute. "É claramente um advogado de excelência, muito inovador... era difícil apontar uma fragilidade nos seus contratos", conta Angelino Ferreira, ex-administrador financeiro da SAD do FC Porto, que o conheceu ainda no tempo em que ambos atuavam no meio do mercado de capitais.

A fama de genialidade de Carlos Osório de Castro no meio jurídico vem já desde os tempos de estudante, na Faculdade de Direito da Universidade Coimbra, onde se licenciou em 1982 com a média de 18 valores. A advocacia, de resto, fazia já parte de uma tradição familiar que Carlos e a irmã, Carla Osório de Castro, prolongaram.

Cruzou-se com Queiroz em Nampula

Osório de Castro nasceu em setembro de 1959, em Nampula, no norte de Moçambique, onde o pai, Manuel Osório de Castro, exercia como advogado e onde conheceu Carlos Queiroz, antigo selecionador nacional que haveria de defender no conturbado processo de saída da FPF, após o Mundial 2010.

Com a descolonização, a família regressou a Portugal e instalou-se em Vila Nova de Gaia. O pai abriu escritório na Praceta 25 de Abril, em frente à Câmara Municipal de Gaia, e Carlos frequentou o Liceu de Gaia [atual Escola Secundária Almeida Garrett] antes de rumar a Coimbra, onde conheceu o amigo e futuro sócio António Lobo Xavier.

Após o curso, Osório de Castro começou a dar aulas na Universidade Católica e lá conheceu outros professores importantes para a sua carreira profissional, como o caso de Agostinho Guedes, que o cativou então para a equipa jurídica da Sonae. A empresa de Belmiro de Azevedo tornar-se-ia praticamente a sua segunda casa durante os anos seguintes e que lhe proporcionou o palco para pôr em prática a "excelente argumentação jurídica" com que conquistou fama no meio, como recorda Angelino Ferreira.

Foi Osório de Castro quem recomendou depois António Lobo Xavier à Sonae. "Eu estudava os impostos e achava que devia seguir a carreira académica. Estava na Comissão da Reforma Fiscal e o Carlos disse-me: 'As pessoas da Sonae gostavam de falar contigo sobre questões fiscais'", recorda o conselheiro de Estado.

Os dois tornaram-se, desde aí, homens-chave no crescimento do grupo empresarial liderado por Belmiro de Azevedo. Na Sonae, Osório de Castro esteve ligado aos principais negócios, nacionais e internacionais. No litígio entre os herdeiros de Pinto de Magalhães, fundador da empresa, e Belmiro de Azevedo, defendeu o falecido gestor. Do outro lado, em tribunal esteve o advogado Jorge Neto. "Tive alguns contactos profissionais com ele, como na altura em que eu patrocinei a família Pinto de Magalhães no conflito com Belmiro de Azevedo, e noutros mais tarde. A única coisa que posso dizer sobre ele é que se trata de um bom advogado", disse ao DN o antigo deputado do PSD.

Osório de Castro e Lobo Xavier foram figuras de proa no departamento jurídico da Sonae e, quando montaram o próprio escritório - Osório de Castro, Verde Pinho, Vieira Peres, Lobo Xavier e Associados -, em 1989, mantiveram a ligação ao grupo. "O nosso primeiro cliente foi a Sonae. E foi o único durante algum tempo", diz o comentador político. "Foi um período conturbado, esse final dos anos 1980, com a empresa envolvida em diversos processos judiciais, na colocação de sociedades em bolsa, privatizações falhadas, as OPA do BPA e do Totta", recorda Lobo Xavier.

Osório notabilizava-se pelo trabalho na área de mercado de capitais e de fusões de sociedades. É considerado um dos maiores especialistas portugueses e internacionais da matéria, e presença assídua nos destaques do prestigiado guia da Chambers. Foi figura influente na comissão que procedeu à primeira revisão do código do mercado dos valores mobiliários, a chamada Lei Sapateiro (autoria de José Luís Sapateiro), foi autor do anteprojeto de lei que deu origem ao Código da Insolvência e, como jurista da Sonae, teve uma grande vitória ao conseguir que fosse declarada ilegal a lei dos emolumentos notariais.

Já era uma figura mais do que reconhecida na sua área de atuação quando, em 2006, se deu a fusão do escritório portuense com a lisboeta Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva e Associados, alargando a área de influência. A Gestifute de Jorge Mendes já ocupava uma parte do tempo do advogado, mas nada que o impedisse de se dedicar com grande empenho a mais uma OPA que a Sonae lançou sobre a PT em 2006. Osório de Castro, com Lobo Xavier, foi o principal homem nesta batalha perdida.

Na Sonae, de resto, a influência alargou-se até ao círculo mais próximo de Belmiro de Azevedo, de quem se tornou um conselheiro pessoal. É um dos melhores amigos de Paulo de Azevedo, de quem chegou a ser professor num MBA na Escola de Gestão do Porto e de quem foi mesmo padrinho de casamento. O filho de Belmiro, e atual copresidente executivo da Sonae, que no final do ano passará a pasta à irmã Cláudia de Azevedo, é também padrinho de uma das filhas do advogado.

Nos círculos mais próximos, além do "jurista brilhante" com "invulgar memória e rapidez de raciocínio", os amigos realçam o homem "com muito sentido de humor" e com uma "temida ironia" que alia "tiradas repentinas mas ferozes". Católico, politicamente alinhado no centro-direita, Osório de Castro gosta de manter um perfil reservado. "Não é homem de festas nem de salões", conta uma pessoa próxima, mas gosta de cultivar o seu círculo de amigos, com o qual costuma reunir-se regularmente, no Porto, em almoços à sexta-feira.

O maior fã da filha Kika

Desde que regressou de Moçambique, sempre viveu em Vila Nova de Gaia. Casado com Andreia, também advogada, tem duas filhas. A mais velha, Mariana, tirou um curso de Gestão em Inglaterra, enquanto Francisca, a cursar a dupla licenciatura de Direito e Gestão da Católica, ganhou um estatuto mediático, em 2013, como Kika, cantora que lançou já dois discos. O pai é o seu maior fã. "O meu pai foi, sem dúvida, a pessoa que mais vezes ouviu as minhas músicas. Durante meses, não ouviu mais nada, mas, ao contrário da minha irmã, não sabe nenhuma letra de cor", disse a filha mais nova, em 2013, quando, com 16 anos, lançou o primeiro disco, produzido por RedOne, profissional que trabalhou com Jennifer Lopez e Lady Gaga. Foi num jogo do Real Madrid, no Santiago Bernabéu, que Osório de Castro e a filha conheceram o produtor, amigo de Cristiano Ronaldo.

Depois da família e da advocacia, a tecnologia é outras das obsessões de Osório de Castro, um early adopter que procura ter sempre os gadgets mais recentes da Apple. E, claro, o futebol, em que a sua experiência profissional acabou por lhe proporcionar a amizade com figuras como Jorge Mendes, José Mourinho e Cristiano Ronaldo.

"Tenho a sorte de ter como amigo e cliente o maior empresário de futebol do mundo. Em Portugal, os génios não abundam, nem sequer no futebol, creio até que só existem os três de que acabámos de falar", disse o advogado numa entrevista, em 2010, à revista Quem É Quem, sobre os seus clientes mais famosos.

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