Até parece que não somos todos guardiões da democracia

Muitas têm sido, as definições de democracia. A essência da democracia, espelhando na prática aquilo que pretende transmitir, será talvez um dos conceitos mais debatidos e discutidos no mundo. Ironicamente, esquecemo-nos por vezes de que o princípio da definição de democracia terá de ser sempre por aquilo que ela simplesmente não é, nunca foi e jamais será: a cultura do ódio e o cultivo da intolerância.

No nosso dia-a-dia de cidadãos portugueses e europeus, herdeiros de Abril e com a memória ainda historicamente fresca acerca da ditadura portuguesa, reagimos com alguma incredulidade inoperante à eleição de Donald Trump. De alguma forma, acreditámos que a sua misoginia e o seu discurso politicamente patológico estavam simplesmente, muito longe. Agora, com Bolsonaro, que fala a nossa língua e é oriundo de um país de filiação histórica e cultural lusófona, o alarme soa-nos bastante mais alto e muito mais perto. A notícia, segundo dados avançados pela Lusa, de que Bolsonaro, no Porto, arrecadou 57,6% dos votos dos brasileiros residentes em Portugal e em Lisboa 56%, convoca-nos, no mínimo, a uma conclusão: à vitória ainda por consumar de Bolsonaro corresponde, desde já, uma derrota consumada da democracia lusófona e global, que não deve deixar de ser alvo de reflexão. Importa, neste momento, mais do que auscultar o sentido do voto, perceber a razão do mesmo.

De todos os números, há talvez um que merece especial atenção: num país que conheceu uma ditadura militar e onde o voto é obrigatório, a taxa de abstenção, nesta primeira volta, rondou os 20,3%. Será um número de esperança? Esperemos que sim. Mas é também um número que, conjugado com os recentes acontecimentos, nos diz que o Brasil, por via de convulsões partidárias inerentes ao seu contexto político, está a perder a confiança no regime democrático, alheando-se do mesmo. Neste momento, no Brasil, assistimos ao déjà vu do candidato autoproclamado "antissistema", que recusa o debate, que usa o recurso a afirmações politicamente incorretas - negadas a posteriori - como demonstração de autenticidade fake e ensaiada e que, apelando à imaginação da insatisfação populista, mais não quer do que dar a aparência de democracia a um fascismo de baú misógino, homofóbico, xenófobo e cultor do ódio à diferença.

Infelizmente, a história dos povos, como todos sabemos, ensina-nos que se há acusação que não podemos imputar a Bolsonaro é a da originalidade. O que fazer, então? Em primeiro lugar, entender que a cultura do ódio não se neutraliza reproduzindo o discurso do mesmo. Em segundo lugar, cultivar a intervenção pela defesa da democracia. Tal como na expressão "paz podre", o que chamaremos a uma democracia que fomenta ódios e discursos racistas? Deve a liberdade de expressão servir impunemente como arma de arremesso contra o direito à diferença? Este é o combate verdadeiramente democrático. Pois ao lutarmos, juntos e independentemente das nossas famílias partidárias, pela inclusão e pelo direito à diferença, estaremos não só do lado certo da história, como é comum agora dizer-se, mas ao lado da mesma e no sentido da justiça. Aceitar democraticamente os resultados nunca poderá impor calar os votos minoritários. O voto ainda é a coerência do discurso.

Deputada do PS

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