Acusado novamente de corrupção passiva e de lavagem de dinheiro no contexto da Operação Lava-Jato, Lula da Silva vai alegar em interrogatório nesta quarta-feira, em Curitiba, que não é o dono do sítio de Atibaia e que o assunto não tem relação com o escândalo do petrolão. Uma das diferenças deste processo para o que o levou para a prisão em março deste ano é que já não é a suposta posse de um apartamento tríplex à beira-mar mas sim uma casa rural ao pé da serra que está em causa. Outra diferença é que deixa de ser o futuro ministro do governo de Jair Bolsonaro, juiz Sergio Moro, a interrogá-lo, para assumir a magistrada Gabriela Hardt o papel de antagonista do antigo presidente..O Ministério Público acusa Lula, e mais 12 réus, de ser o beneficiário de obras feitas no local pelas construtoras OAS e Odebrecht e pelo empresário José Carlos Bumlai como contrapartida a operações fraudulentas envolvendo a Petrobras e as duas empresas. A defesa do político do PT contesta que ele seja o dono do imóvel e que tenha praticado qualquer crime contra a petrolífera estatal..De facto, o sítio de Atibaia está em nome dos empresários Fernando Bittar e Jonas Leite Suassuna, e não de Lula, mas, diz o Ministério Público, os dois são sócios de um dos filhos do antigo presidente, que era "o proprietário de facto" do imóvel. Para sustentar a sua versão, a acusação listou mensagens eletrónicas trocadas entre pessoas de confiança de Lula, bens pessoais da sua família no local, o uso da morada da propriedade para entrega de um barco de pesca para a sua falecida mulher Marisa Letícia e câmaras de vigilância colocadas na área pela equipa de segurança do ex-sindicalista..Lula, representado no processo pelo advogado Cristiano Zanin Martins, admite ter frequentado a casa de campo mas nega ser o seu dono. E acrescenta que a equipa que lidera a Lava-Jato jamais indicou qualquer ato da competência do então presidente da República que justificasse ter recebido, como favor, as obras no sítio de Atibaia. Um perito indicado pela defesa não encontrou relação entre os valores registados no setor de comissões a políticos da Odebrecht e as obras realizadas na propriedade..Num dos oito interrogatórios divididos em três audiências realizados por Gabriela Hardt na semana passada, Marcelo Odebrecht, ex-presidente da Odebrecht e outro dos réus no processo, disse que as obras pagas pela empresa foram o primeiro e único "ato pessoal" em relação a Lula mas que nada disso tinha relação com negócios envolvendo a Petrobras. "[As obras] foram realizadas dentro do contexto de atos que sabemos que são ilícitos [mas] a relação da Odebrecht com o Lula não tinha nada a ver com a Petrobras", afirmou o empresário..Ao longo desta semana serão efetuados os restantes interrogatórios, sendo o de Lula o último..Além deste caso, o antigo presidente está ainda envolvido em mais um processo na Lava-Jato, sobre a eventual cedência de um terreno pela Odebrecht para a construção do Instituto Lula, como troca de favores, que aguarda sentença da juíza Hardt, e em ações relativas a outras operações, como a Zelotes e a Janus.