Subitamente, os economistas…

Devagar, subitamente, comecei a ler no Twitter economistas de renome internacional a pedir que os governos por todo o mundo gastassem o que fosse necessário para combater a expansão do vírus que presentemente põe a humanidade em perigo. Essa posição é correctíssima, mas tem um lado estranho. Trata-se na verdade de uma posição unânime, abarcando vários tipos de economistas, incluindo aqueles que ainda há pouco tempo defenderam o contrário para combater a Grande Recessão (2008-2018). O crescendo de opiniões expressas nos meios de comunicação social culminou com recente declaração da presidente do BCE "exigindo" a Centeno e ao Eurogrupo que "voltem a gastar mais". O que é ainda mais notável, vindo como veio da anterior directora do FMI. Sabemos que a actual crise sanitária e a crise financeira que a precedeu são coisas diferentes, mas isso não significa que não possamos retirar lições sobre as razões de tão generalizada mudança de opinião.

Começando pelo que é mais importante, é claro que os economistas que defendem a austeridade como modelo de progresso económico não são imunes ao sofrimento humano. O que está por trás das teorias que defendem são convicções, escolas de pensamento, dinheiro de investigação, departamentos universitários, bancos centrais e revistas científicas que ganham em estarem todos na mesma caixa. Esta constatação é generalizada. Em todo o lado, os colegas economistas comentam as capturas de pensamento institucional que os rodeiam. E todos sabem que isso tem um dia de mudar, para bem do avanço da ciência económica, mas que a mudança tem sido muito difícil.

Assim, naturalmente, todos estamos altamente preocupados com o que se está a passar, quanto à saúde da humanidade. E todos sabemos que os recursos das pessoas e das empresas não chegam para combater a propagação do vírus, que os governos têm de intervir. Mas há uns que o dizem agora e que nada disseram quando viram pessoas a sofrer por causa da austeridade, um país como a Grécia a definhar do mapa, ou as desigualdades a aumentar. Falam agora apenas porque o problema é maior? Pode ser que sim, mas pode também ser que não. E, apesar da gravidade da situação e da convergência das preocupações humanitárias, devemos explorar a possibilidade de estarem a falar por outras razões também. Em abono da saudável discussão científica sobre o papel do pensamento económico no desenho de políticas, é necessário perceber o volte-face quanto ao papel dos gastos públicos no combate aos problemas económicos (e sociais) de escala mundial. Tenho opinião sobre essas razões adicionais, mas prefiro deixar espaço para uma questão mais importante.

Por muita modelização e quantificação que se construa, por muita metodologia em que se avance, a economia nunca será uma ciência exacta. As conclusões são provisórias, podem sempre ser revistas, têm um grande grau de incerteza e dependem enormemente dos pressupostos de partida, isto é, da teoria escolhida. Há lugar para avanços e podemos talvez dizer que sabemos mais hoje do que há algumas décadas, mas os verdadeiros avanços só são conhecidos no tempo futuro. A economia não é um instrumento de desenho de políticas públicas, mas um instrumento de discussão de políticas públicas, como outros, tão ou mais válidos. Todos sabemos isto, mas ainda é algo que tem de ser escrito, dito e repetido.

E temos de ser, acima de tudo, intelectualmente honestos. O "despesismo" (era esse o termo usado) não serve agora, ao contrário do passado recente, porque se trata de uma crise sanitária e não financeira. Serve pelas mesmas razões. Há, por isso, uma contradição em quem mudou de ideias, na qual se deve pensar seriamente.

Nuno Santos

Como fazê-lo? Abrindo os cordões ao pensamento, abrindo as portas à diferença no ensino de economia, nos bancos centrais mais enquistados e, em havendo milagres, até no FMI. Não é uma revolução que se pede, é apenas a necessidade de mudar alguma coisa para que todos possam beneficiar do pensamento económico e da sua tradução em políticas governamentais saudáveis, a nível nacional e internacional. Não é substituir uma ideia por outra, mas usar várias, sempre e em todo o lado. Estamos preparados? Talvez esse possa ser um dos resultados mais positivos da dramática crise por que estamos a passar.

Não há, todavia, grande esperança, porque, afinal, o pensamento económico não tem por si só poder. Precisa sempre da companhia de quem o tem verdadeiramente e é aí que reside o problema. Afortunadamente, para o caso, desta vez, o poder financeiro está com medo do vírus.

Investigador da Universidade de Lisboa

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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