Nesta semana, o movimento Europa e Liberdade organizou a sua segunda convenção. A coisa durou dois dias. No primeiro, houve seis atos enquadrados pelo tema tragédia. Dentro da terrível tragédia política que, pelos vistos, vivemos, foram analisadas as questões da "ditadura do politicamente correto e o domínio cultural da esquerda radical", "o Estado capturador e capturado de interesses e o seu papel da manutenção da corrupção", passando pela "manipulação da esfera pública"..No segundo dia, abordou-se a refundação. A bonança que se quer construir depois da tempestade, digamos. Para haver refundação é necessário haver alternativas. Para tal, Miguel Morgado, Cotrim de Figueiredo e André Ventura mostraram o que devem ser as "novas alternativas ao espaço da extrema-esquerda e do socialismo radical". Faz sentido. De facto, não consigo imaginar ninguém melhor para dar soluções de extrema-direita ou de direita radical do que Miguel Morgado e André Ventura..A imprensa deu nota de que, sim senhor, disseram-se muitas coisas, mas a grande questão foi a necessidade de um líder para a direita. Entendo que as pessoas sem filiação partidária que estiveram nesse encontro pudessem ter essa discussão, já acho um bocadinho estranho que militantes do PSD ou do CDS possam ter embarcado nessa conversa. Também lá estiveram pessoas que pensaram que aquilo era um fórum para a discussão dos desafios do centro-direita e até, com certeza, o fizeram, mas não foi esse o propósito do encontro, muito longe disso..Um dos que lá estiveram e não acharam piada nenhuma à busca do suposto salvador da direita foi André Ventura. Pudera, o oportunista do Chega sabe que sozinho vale mais votos do que todos os líderes partidários e pretendentes a fazedores de reis que lá estiveram..Esse é um dos problemas dos organizadores destes encontros e dos ideólogos do projeto refundação da direita: não têm votos. E não os têm porque, muito simplesmente, o que defendem não tem respaldo nos cidadãos. Não admira que pessoas como Francisco Louçã tenham ajudado a promover este evento, ele sabe bem que se esta gente tomasse conta do centro-direita a esquerda tinha o poder garantido por muito tempo. Como se pode negar muita coisa a esta rapaziada mas não inteligência, inventaram duas farsas para ultrapassar a maçada de não terem apoio popular - esse problema aborrecido das democracias: a federação das direitas e o fantasma comunista. Repetem constantemente que existe uma ameaça comunista. Vivemos num regime socialista dominado pela extrema-esquerda. A nossa liberdade está em perigo não só porque os socialistas radicais dominam o país, mas também porque a ditadura do politicamente correto (conceito que não se preocupam em definir para caber tudo) impera. Toda a gente que não defenda o que esta espécie de tea party à portuguesa defender é imediatamente rotulado de esquerdista e tudo o que digam é para contrariar..Com tudo isto evita-se falar da agenda ultraliberal na economia, profundamente conservadora nos costumes e com uma pulsão autoritária difícil de esconder..A outra farsa que criaram é a da federação das direitas. Não querem plataforma comum nenhuma, querem sim impor os seus valores e princípios políticos ao resto da direita. Não querem refundação de direita nenhuma, querem construir uma direita que nunca existiu em Portugal e que não tem base de apoio social. E, claro, para isso precisam de um líder forte que o eleitorado de centro-direita aprecie mas que consigam controlar ou que partilhe, também de forma escondida, as convicções do grupúsculo. Não é em vão que suspiram por Passos Coelho..Esta gente tem, porém, um grande problema. Chama-se PSD. As tentativas para o destruir não têm corrido bem: nem o seu eleitorado fixo desapareceu nem as tentativas de o fragmentar foram bem-sucedidas. O partido é bem mais resiliente do que as pessoas que o querem destruir pensavam e é muitíssimo menos à direita do que alguns militantes com apenas alguns anos de partido julgavam..O facto é que, como reconheceu Miguel Morgado, não é possível construir uma alternativa ao PS sem o PSD. É, aliás, por isso que ele e os seus compagnons de route não saem do partido, apesar de a tendência de que se reclamam nunca ter existido no PSD. É verdade que o PSD abarca muitas sensibilidades, mas não a de Venturas sofisticados. Resta-lhes voltar ao plano A e tentar conquistar o PSD. Estão enganados se pensam que derrubando Rui Rio conseguem tomar conta do partido. Porém, foi esse um dos grandes objetivos deste encontro - só uma grande dose de fair-play levou a que um dirigente de primeira linha do PSD lá tivesse estivesse. Mas se o conseguissem e lá pusessem alguém com as suas convicções, o PSD tornar-se-ia rapidamente um partido de franja sem qualquer hipótese de ser poder. Mesmo com Passos Coelho..Juntos e solidários.O texto a cima é uma tentativa de normalidade. Uma esperança de que aquilo por que estamos a passar não passará de um pesadelo de que acordaremos rapidamente e que nem vale a pena fazermos um intervalo nas nossas desavenças..Estou cheio de medo. Por mim, pela minha família, pelos meus amigos, pelos meus adversários, pelos meus inimigos, pela minha comunidade, por todas as comunidades. Como quase todos os medos, o meu advém da ignorância, do desconhecido, de não conseguir ver para onde vamos..Sei, assim, poucas coisas. Sei as que toda a gente já sabe, as que dizem respeito aos cuidados básicos e que são, neste momento, decisivas. Mas há uma de que não tenho qualquer dúvida: sei que só juntos conseguiremos sair desta situação..A nossa solidariedade tem de se exprimir nos cuidados que temos de ter na nossa vida social, suspendendo-a, se assim nos for dito. O que nos for dito, reforço. Vivemos tempos de anarquia comunicacional, chegam-nos milhares de mensagens a impelir-nos a fazer isto ou aquilo, a explicar-nos que as autoridades deviam tomar esta ou aquela medida, gente que sabe tudo. É fundamental, é crucial, não há outra maneira de enfrentar esta situação que não seja confiar nas autoridades. É tempo de obedecer e confiar nos nossos líderes, de suspender as nossas certezas políticas ou outras quaisquer..Se tudo correr bem, o pior serão as consequências económicas. Se os últimos dias foram assustadores, os próximos tempos serão aterradores. O desafio será enorme e, mais uma vez, se não encararmos a situação como uma missão comum, a catástrofe será um dado adquirido..Este tipo de acontecimentos fazem perder a memória, mas não me recordo de uma crise que exija tanto que funcionemos como um só como esta. Em todas as suas dimensões. Sim, só um de nós pode pôr em causa o esforço de todos. E é preciso que quem nos governa perceba que a autoridade e a força servem para proteger a comunidade. Que não haja receio de as utilizar.