Exportações de vinho subiram 2,1% antes do pico da pandemia

As vendas para os mercados extracomunitários cresceram 22,7% até março e permitiram contrariar a quebra de 14,4% no mercado europeu. IVV lançou inquérito para apurar efeitos da covid-19, mas até agora só 150 empresas responderam. Esperam-se grandes quebras nas vendas.

As exportações portuguesas de vinho cresceram 2,1% no primeiro trimestre, ascendendo a 185,5 milhões de euros, mais 3,7 milhões do que nos primeiros três meses de 2019. Bernardo Gouvêa, presidente do Instituto da Vinha e do Vinho, admite que os números traduzam alguma "antecipação de vendas" por parte de "grandes operadores multirregionais" e reconhece que os pequenos e médios operadores, com canais de exportação menos sólidos e menos cobertura de mercados, têm tido "bastante mais dificuldades". E tudo indica que, em abril, os números não sejam tão animadores.

Os dados do INE mostram que, em março, Portugal vendeu mais de 67 milhões de euros de vinhos ao exterior, um aumento de 7,3%. No acumulado do trimestre, o crescimento é mais modesto, de apenas 2,1%, mas em contraciclo com a performance da economia nacional, já que as exportações, no seu todo, caíram 3%. As vendas extracomunitárias de vinhos mostraram uma forte dinâmica, registando um acréscimo de 36,4% em março e de 22,7% no acumulado do trimestre.

Números bem diferentes dos mercados europeus, com as exportações de vinho a derraparem 13,9% no mês de março e 14,4% no conjunto do trimestre. Nos primeiros três meses do ano, a União Europeia comprou 86,6 milhões de euros em vinhos portugueses, menos 14,6 milhões do que um ano antes. Em contrapartida, vendemos para os mercados extracomunitários quase 99 milhões de euros, que comparam com 80,6 milhões no período homólogo.

Bernardo Gouvêa explica que a crise da covid-19 se expandiu de leste para oeste, levando alguns mercados, como os Estados Unidos e o Canadá, a reagirem e a anteciparem encomendas. E mesmo na Europa a performance é distinta, com os mercados nórdicos a "manterem um grande dinamismo" e países como a Alemanha e o Reino Unido, onde o mercado de compra de vinhos online já estava bastante desenvolvido, a registarem "performances bastante boas", apesar do confinamento.

Em Portugal, onde o confinamento foi decretado a partir de 16 de março, com o fim das aulas presenciais, as vendas de vinhos cresceram quase 7% na grande distribuição, segundo os dados da Nielsen mas, em contrapartida, caíram 30% na hotelaria e restauração, um canal com um peso enorme. Na distribuição, destaque para o crescimento de 70% nas vendas de vinhos bag in box de 5 litros, passando de 4,3 milhões para 6,1 milhões de euros. Já as embalagens de cartão de 3 litros mais do que duplicaram: dos 370 mil euros pagos por este tipo de vinho em 2019, os portugueses passaram para 800 mil euros este ano. Uma questão de "aprovisionamento", diz Bernardo Gouvêa.

"As empresas de grande dimensão, com estruturas bem sólidas na exportação, estão a conseguir reagir e, em alguns mercados, até a aumentar as vendas. Já as cooperativas, que têm pouco peso nas exportações, estão-se a segurar no bag in box e na distribuição moderna". Este responsável admite "uma descida bastante mais significativa" das vendas em abril, quer no mercado interno, quer na exportação, no entanto admite que ainda faltam dados para o sustentar. Até porque ainda poucas empresas acederam a responder ao inquérito lançado pelo instituto. "Tenho cerca de 150 respostas, não é, ainda, uma amostra representativa e é isso que estou a procurar conseguir", diz. As primeiras respostas obtidas apontam para quebras de 15% no mercado nacional e de 17% nas exportações a 30 de abril.

Ou seja, muitas empresas se têm queixado publicamente da necessidade urgente de medidas de apoio ao setor, designadamente através de operações de destilação ou de armazenagem de crise, mas Bernardo Gouvêa assume que não há dados, ainda, que permitam antecipar o que será a próxima vindima. Ou como se comportarão as vendas de verão, no mercado nacional, "tão importantes para os brancos e os vinhos Verdes".

"A situação é preocupante e estamos a tentar recolher números e a prepararmo-nos para o caso de ser necessário olhar para stocks excedentários. Mas não tenho números em cima da mesa que o suportem. Preciso de ter uma amostra representativa das grandes empresas, preciso que elas colaborem".

Com ou sem dados, o Governo já veio dizer que 10 milhões de euros do Plano Nacional de Apoio vão ser aplicados em medidas para minimizar o impacto da pandemia de covid-19 no setor do vinho. Um valor que "não compromete os programas em curso e reforça a resposta a uma "necessidade imperiosa de criar condições para minimizar as perdas".

Jornalista do Dinheiro Vivo

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