EUA acusam Irão de ser o responsável pelo ataque a petroleiros

Os Estados Unidos acusaram o Irão de ser responsável pelos ataques de quinta-feira a dois petroleiros no golfo de Omã, um incidente que levanta receios de uma nova confrontação no Golfo.

Navios em chamas, operações de resgate que envolveram dezenas de marinheiros e os preços do petróleo a subirem nos mercados. As consequências do ataque de que foram alvo os petroleiros norueguês e japonês numa estratégica passagem marítima podem não ficar por aqui. As tensões já tinham sido elevadas desde os ataques anteriores, quase há um mês, contra quatro navios ao largo da costa dos Emirados Árabes Unidos, um ato pelo qual Teerão já tinha sido responsabilizado por Washington. Então, a administração de Donald Trump levou vários dias para chegar a essa conclusão. Na quinta-feira, a reação foi quase imediata.

"É a avaliação dos Estados Unidos de que o Irão é responsável pelos ataques", disse o secretário de Estado Mike Pompeo. "Esta avaliação é baseada em informações, nas armas usadas, no nível de perícia necessário para executar a operação, em recentes ataques iranianos semelhantes ao transporte marítimo e no facto de que nenhum grupo de operacionais na área tem recursos para agir com este alto grau de sofisticação", referiu.

"Este é apenas o mais recente de uma série de ataques instigados pela República Islâmica do Irão contra os interesses norte-americanos e aliados. E devem ser vistos à luz de 40 anos de agressões não provocadas contras as nações pró-liberdade. Em abril de 2017, o Irão prometeu interromper o tráfego de petróleo no estreito de Ormuz. Está agora a trabalhar para cumprir a promessa", acrescentou o secretário de Estado norte-americano.

"O Irão está a atacar porque o regime quer que a nossa bem-sucedida campanha de máxima pressão seja levantada. Nenhuma sanção económica confere à República Islâmica o direito de atacar civis inocentes, perturbar os mercados petrolíferos mundiais e fazer chantagem nuclear", concluiu.

Ataque suspeito, no mínimo

As autoridades iranianas reagiram com desconfiança e apelo ao diálogo numa altura em que o primeiro-ministro japonês está em Teerão para tentar mediar a relação entre o Irão e os Estados Unidos.

"Foram reportados ataques a petroleiros relacionados com o Japão enquanto o primeiro-ministro Shinzo Abe se reunia com o ayatollah Khamenei para conversas profundas e amigáveis. Suspeito é o mínimo para descrever o que provavelmente aconteceu nesta manhã. O Fórum de Diálogo Regional proposto pelo Irão é imperativo" escreveu no Twitter o ministro Javad Zarif.

Por seu turno, Moscovo declarou que não deve haver precipitações em atribuir responsabilidades nem em usar o incidente para pressionar o Irão. "Eu gostaria de usar esta oportunidade para advertir contra tentativas precipitadas de culpar aqueles que são indesejados por uma série de estados bem conhecidos", disse o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Ryabkov. "Não gostaria que os eventos que aconteceram fossem usados especulativamente para desviar ainda mais a situação na direção anti-iraniana", concluiu.

Evolução perigosa

O Conselho de Segurança das Nações Unidas reuniu-se na quinta-feira, à porta fechada, para discutir a questão. O secretário-geral da ONU, António Guterres, exigiu a clarificação das responsabilidades e condenou os ataques ao intervir numa reunião do Conselho de Segurança sobre cooperação entre as Nações Unidas e a Liga Árabe. Guterres disse que acompanha com "profunda preocupação" o incidente e sublinhou que "o mundo não pode permitir-se um confronto de grande escala no golfo Pérsico".

O secretário-geral da Liga Árabe, Ahmed Aboul Gheit, reagiu ao incidente tendo dito que há "uma evolução perigosa" no Médio Oriente. "Ataques a petroleiros e ataques com mísseis no coração da Arábia Saudita, como vimos há dois dias, são uma evolução perigosa que deve levar o Conselho de Segurança a agir contra os responsáveis para manter a segurança e a estabilidade na região", afirmou.

Na mesma reunião de cooperação entre a ONU e a Liga Árabe, que decorreu na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, o embaixador dos EUA na ONU disse que os ataques são "inaceitáveis". "É inaceitável para qualquer parte atacar a navegação comercial e os ataques de hoje aos navios no golfo de Omã levantam preocupações muito sérias", disse o diplomata Jonathan Cohen.

A chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, pediu "máxima contenção" para evitar qualquer "provocação" na região.

Visita histórica

O incidente ocorreu quando o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, está de visita ao Irão, numa altura em que Teerão e Washington assistem a uma escalada de tensão política e militar, tornando o tema um dos pontos centrais das conversas que tem desenvolvido com Hassan Rohani.

A visita de Abe é a primeira de um chefe de governo japonês desde a revolução islâmica de 1979 e a primeira de um líder de um país do G7 desde que o presidente norte-americano, Donald Trump, se retirou do acordo nuclear.

O Japão é um importante aliado dos Estados Unidos da América e tem um histórico de relações comerciais com o Irão muito profundo, o que torna este país um potencial mediador do conflito entre aqueles dois países.

Ao receber o primeiro-ministro japonês, o ayatollah Khamenei rejeitou qualquer possibilidade de diálogo com Donald Trump, que "não é digno de trocar mensagens".

Apesar da acusação direta formulada por Mike Pompeo, a administração dos EUA não anunciou novas represálias contra Teerão. De certa forma, reiterou o apelo ao diálogo, que acabava de ser rejeitado pelo guia supremo iraniano. O presidente dos Estados Unidos mostrou-se agradado pelo encontro de Abe com Khamenei, mas considerou no Twitter que era "demasiado cedo para sequer considerar chegar a um acordo". "Eles não estão prontos e nós também não", escreveu.

Mike Pompeo assegurou que Washington ainda queria que Teerão voltasse à mesa das negociações "quando chegar a altura". "A nossa política continua a ser um esforço económico e diplomático para trazer o Irão de volta à mesa das negociações", disse o secretário de Estado.

Tripulações a salvo

A tripulação do Front Altair, petroleiro norueguês com bandeira das IIhas Marshall, abandonou o navio em águas entre os estados árabes do Golfo e o Irão após uma explosão que uma fonte disse que poderia ter sido de uma mina magnética. O navio estava em chamas, enviando uma enorme nuvem de fumo para o ar. A tripulação foi resgatada por um navio que passava e entregue a um barco de resgate iraniano.

O segundo navio, Kokuka Courageous, navio-tanque de gás japonês, terá sido atingido por um torpedo suspeito, disse a empresa que o fretou, segundo a Reuters. A tripulação também foi recolhida em segurança e a carga de metanol está intacta, informou a empresa Kokuka Sangyo.

Tal como a Marinha iraniana, a Marinha dos Estados Unidos prestou assistência aos petroleiros.

"Fomos informados de um ataque contra petroleiros no golfo de Omã. As forças navais norte-americanas na região receberam duas chamadas de socorro distintas", afirmou em comunicado o comandante Josh Frei, porta-voz da 5.ª Frota da Marinha, responsável por zelar pelos interesses dos Estados Unidos nas águas da região.

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