Alcoentre perpétua. Há quem chame lar à terra onde cumpriu pena de prisão

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Alcoentre perpétua. Há quem chame lar à terra onde cumpriu pena de prisão

Ficaram livres, mas escolheram ficar a viver ao lado da prisão onde passaram anos atrás das grades. Mudaram-se para fora das grades, mas nunca mais saíram dali. (Artigo publicado originalmente a 14 de julho de 2019)

"Não chores, matei um homem", foi assim que José Maria Ventura contou à mulher o que tinha acabado de acontecer. Era sábado. No dia seguinte ia batizar o filho, um bebé de 28 dias. As mulheres ficaram paradas na cozinha e esqueceram-se dos bolos e das toalhas a corar. Josélia ouviu o marido e obedeceu-lhe, não chorando. Veio atrás dele para Alcoentre, ali criou o filho e ali lhe nasceram os netos. "Esta agora é a nossa terra", diz. Odemira acabou-se-lhes na véspera do batizado.

Manuel Pequeno bem tentou fugir da terra para onde veio trabalhar na extração do barro. Casou-se com uma moça de Alcoentre e um dia matou-lhe o tio. "Ameaçava-me de morte há muito tempo. Atirei-lhe uma pedra à cabeça e ele morreu quinze dias depois." Livre, não regressou ao Alentejo. Vive a cem metros do sítio onde matou o homem que, insiste, prometeu tirar-lhe a vida. Ele só o conseguiu fazer primeiro.

Rosa também chegou à terra, com duas filhas pela mão, vinda do Alentejo. Mudou de sítio e de vida para ficar mais perto do marido, preso em Alcoentre. "Dizem que matou um homem, mas eu não acredito. Ele também nunca disse que o fez." A terra acolheu-os, sem fazer perguntas. Havia trabalho no campo e eles trabalharam. A única diferença é que o tempo já não custava a passar.

Alcoentre é uma freguesia do concelho de Azambuja, no coração do Ribatejo, onde moram 3500 habitantes. Fica a apenas uma hora de Lisboa, mas é como se o tempo ali tivesse parado. Continua profundamente rural, apesar do café moderno na rua principal, de um gabinete de estética junto à igreja ou do cartaz da CDU a apelar ao voto nas eleições europeias. É conhecida como a terra das duas prisões. A cadeia de Vale de Judeus é a mais famosa, mesmo só tendo recebido o primeiro recluso na década de 1970, mais de trinta anos depois da inauguração daquela que então se chamava Colónia Penitenciária de Alcoentre. Apenas cinco quilómetros separam as duas cadeias.

As pessoas habituaram-se a ver os presos trabalharem nos terrenos agrícolas da prisão, o que talvez explique a forma como acolheram aqueles que uma vez livres escolheram permanecer na freguesia. Alcoentre era e ainda é uma cadeia agrícola. "Cumpria a pena o fulano que a meio de uma discussão e com um pouco de álcool tinha dado com um sacho na cabeça do outro mas que até era um bom pai de família e trabalhador", descreveu Paulo de Melo, que passou 20 anos na prisão onde o pai era orientador social, ao jornal O Mirante.

"Lembro-me de serem às centenas os que trabalhavam no campo, chamavam-se as brigadas. Isto era tudo da prisão", diz um dos habitantes mais velhos de Alcoentre, enquanto olha para cima e em diante, o braço demasiado pequeno para descrever um ângulo que abarque tudo o que chegou a pertencer à cadeia. "Depois do 25 de Abril a câmara apanhou isto, agora dizem que é tudo de um banco", conta José, que apesar de garantir que nunca ninguém olhou de viés para os ex-reclusos, prefere que não se escreva o apelido. "É uma terra pequena", justifica.

Pequenos é que não eram os carregamentos que saíam dos portões da prisão. "Esta cadeia produzia comida que dava para todas as cadeias do país", recorda. Vinho, azeite, trigo. "Todos os presos trabalhavam. É o que faz falta agora...", lamenta. Ninguém estranhou, por isso, que uma vez cá fora, os antigos reclusos procurassem trabalho nos campos de Alcoentre. E que ali construíssem casa e aumentassem a família. Muitos deles já morreram, e apesar de em alguns casos já se terem passado quase 50 anos desde que, cumprida a pena, assentaram arraiais na terra, da alcunha nunca se livraram.

São conhecidos como o Manel Preso ou o Zé Preso. Ninguém sabe ao certo os crimes que cometeram, nem o tempo exato da pena que cumpriram. "Talvez tenham matado, não sei. Diz-se que mataram. Muitos deles, quando estavam presos, vendiam logo a terra que lá tinham e quando saíam compravam terra aqui para não voltarem para lá", conta José e abana a cabeça em negativa, que não, ali "nunca houve ninguém que dissesse assim "tu és malandro, mataste este ou aquele". Aqui não", reforça.

As histórias de Manuel Pequeno, José Ventura ou de Zé das Cabras, como era conhecido o ex-marido de Rosa, não são as únicas. Ninguém se esquece do Alemão. Conta-se que era do norte e que também cumpriu pena por homicídio, mas não teria sido ele a cometer o crime. "Foi o filho ou o pai. Naquele tempo às vezes quem tinha feito o mal era quem sustentava a casa e então um familiar dava-se como culpado", explica José.

Se é verdade que os antigos presos da colónia penitenciária foram bem recebidos, a terra não foge ao complexo de lugar de condenados. Não há quem não conheça o caso de um dos funcionários mais expeditos da Junta de Freguesia de Alcoentre, também ele um ex-recluso, oriundo do Douro, e que ali ficou a morar como tantos outros. Francisco Morgado, presidente da Junta de Freguesia de Alcoentre, não quis comentar o caso do seu funcionário nem falar sobre os outros moradores que a terra herdou da prisão. Ninguém se esquece de onde vieram, mas todos fingem já ter esquecido.

"Talvez murmure, Terra maldita, só por grande tristeza o estará dizendo, que de razões particulares não encontraria uma, ou todas são, e então nenhuma terra escapará à sentença, todas malditas, condenadas e condenadoras, dor de estar nascido."(José Saramago, Levantado do Chão)

Foi de Lavre, a terra que serviu de palco à obra Levantado do Chão, do Nobel José Saramago, que Manuel Pequeno chegou a Alcoentre, há mais de 60 anos. Tinha 18 anos e como muitos outros rapazes do Alentejo migrou para trabalhar na extração do barro. Enamorou-se por uma rapariga dali e, após casar, comprou um pedaço de terra em Casais das Boiças, uma aldeia da freguesia. Foi a cem metros da casa onde ainda hoje mora que matou o tio da mulher. Tinha 24 anos e foi condenado a 14 de prisão. Saiu depois de cumprir metade da pena, mas não voltou para a terra natal.

O que mais custou: "o tempo a passar"

"Muita gente me censurava por eu ter voltado. Portei-me bem, tinha a minha família à minha espera", justifica, os olhos pequeninos fixos no sítio onde, garante, fugiu da morte matando. Conta que o homem a quem tirou a vida há muito que o ameaçava de morte. "Um dia vinha de bicicleta e avisaram-me de que ele estava à minha espera. Eu levava uma pedra no bolso e quando ele apareceu na curva para me atacar com um pau, atirei-lhe a pedra à cabeça", conta. O tio da mulher acabou no chão e Manuel Pequeno foi entregar-se à polícia. "Mas como ele ainda foi para o hospital - só morreu ao fim de quinze dias - mandaram-me para casa."

Na prisão aprendeu o ofício de carpinteiro e como sabia ler e escrever ainda foi monitor escolar. A filha tinha 1 ano quando foi preso, quando saiu já tinha mais de 8. Manuel Pequeno" conta a desgraça como se esta já não lhe pesasse aos 81 anos, mas quebra a voz e chora baixinho quando se lhe pergunta o que custou mais. "O tempo a passar", responde. Sabe bem o que o fez aguentar: "A esperança. E a fé." Na cadeia aprendeu verdades e conheceu a certeza do amor da mulher, que esperou por ele. "Foi na cadeia que descobri quem era meu amigo e quem não era", afirma. Houve momentos de revolta, pois houve, Manuel Pequeno não os nega.

"Sentia-me sozinho e senti que me tinham roubado parte da vida, mas ninguém tem culpa disso", dispara. "Saí de lá com gana de arranjar uma vida para mim e para a minha família." Não regressou logo a Alcoentre, até porque o filho do homem que matara prometera vingança. "Quando saí, saí com medo", diz. Foi trabalhar para uma terra próxima, para a central elétrica, como carpinteiro. "Gostava de trabalhar e trabalhava muito", afirma. Na prisão, para passar o tempo, rezava. Manuel Pequeno, que matou um homem e que por causa disso cumpriu mais de oito anos atrás das grades, tem um único arrependimento na vida: "A única mágoa que tenho é a de ter tirado a minha filha da escola", desabafa.

Matou amigo que era como um irmão

José Maria Ventura ou Zé Maria, como é conhecido em Alcoentre, tem hoje 82 anos. Tinha 26 quando matou o melhor amigo, em Odemira, onde nasceu. Foi condenado a 13 anos de prisão, cumpriu metade. Foi libertado em junho de 1974 e decidiu ficar a viver com a família na terra onde cumpriu pena. Ali compraram terreno e fizeram casa e ali nasceram os netos. São dois, correm e brincam no quintal indiferentes à história que o avô conta.

"Não há muito a saber. Nesse dia, ele deitou-me as mãos ao pescoço e eu espetei-lhe a navalha na barriga. O mal foi ter-me deitado as mãos ao pescoço..." José Maria quer acreditar nisto, que não foi o álcool em excesso - "pois, tínhamos estado a beber" -, que se calhar não devia andar de navalha na mão e pronto para a briga. O homem que matou "era como um irmão". Custa-lhe mais isto do que a pena de prisão que cumpriu ou a vergonha que pesa sobre toda a família. Por isso, nunca mais voltou a Odemira.

Antes de estar preso em Alcoentre, ainda passou pela antiga cadeia de Alcobaça. A mulher seguiu-o para todo o lado com o filho - 28 dias quando o pai matou o amigo - no colo e depois pela mão. "Fui sempre atrás dele", conta Josélia Santos Maria, "Casei-me com ele e prometi que era para toda a vida", resume.

Zé Maria afirma que foi em Alcoentre que "começou de novo". "Fui sempre bem tratado nesta terra", diz. Depois de sair da cadeia trabalhou na extração de resina, em obras públicas. "Nunca tive vergonha de ninguém. Nem na prisão, respeitavam-me." A cadeia deu-lhe estudos, foi lá que fez a quarta classe. José Maria Ventura tem pena, sobretudo, do que fez à mulher. "Fui valente", concede Josélia.

O filho passou a infância a olhar o pai do outro lado do arame farpado. "Pegava na bicicleta e ia vê-lo, porque o meu marido trabalhava no campo da cadeia", recorda Josélia. Zé Maria saiu da prisão há 45 anos. Como foi esse tempo de reclusão? "Cumpriu-se. Eu tinha feito mal", admite.

"Não, este homem não é para estar fechado." Foi com esta frase que o antigo diretor da Colónia Penitenciária de Alcoentre salvou da loucura José Manuel Pereira Quaresma, ou Zé das Cabras, a alcunha que ganhou como pastor. Natural de Santiago do Escoural, em Montemor-o-Novo, Alentejo, o homem que sempre se disse inocente no caso do homicídio de um colega, também pastor, decidiu fixar-se em Alcoentre mal saiu em liberdade condicional. Mas não terá passado mais do que dois dias numa cela. "O diretor mandou-o para a vacaria, era onde ele dormia", conta Rosa Torrinhas, a ex-mulher de José Quaresma. O antigo recluso suicidou-se há cinco anos no Alentejo. Tinha 61 anos.

É viúva pela boca das gentes de Alcoentre, que quando Zé das Cabras decidiu que era a hora de partir, o divórcio já tinha saído há seis anos. Rosa fugiu de um mau pai mas acabou por entrar num mau casamento, não pelo crime que acusaram o ex-marido, mas pelos ciúmes que diz quase lhe terem roubado "o resto da dignidade". "Eu gostava dele. Sempre gostei, mesmo quando decidi que já chegava", garante.

Já tinha as duas filhas - uma com 6 e outra com 3 anos - quando uma noite, pelas duas da manhã, José Quaresma lhe chega a casa "branco como a cal. Ele estava aterrorizado", recorda. Como pastor, dormia na vacaria e contou à mulher que o colega tinha levado um tiro. Nunca lhe disse que tinha sido o autor do disparo e em tribunal reclamou inocência.

Reclamou sempre inocência

No dia seguinte, bateram à porta de Rosa. "Ouvi murros, mas não abri. Até que ouvi a voz dele." Abriu a porta e viu quatro homens - dois com o então marido e outros dois que a agarraram à porta. Eram agentes da Polícia Judiciária. Só voltaria a ver José Quaresma livre quase oito anos depois, já depois de este ter passado um ano em Évora preso, à espera de julgamento e depois de ter gasto todo o dinheiro que tinha para lhe pagar a defesa.

"Paguei 50 contos. Contratei um advogado muito bom. Era de Évora e comunista. Ele cobrava mais dinheiro mas aceitou o que eu tinha." José Quaresma, que se dizia inocente, foi condenado a oito anos de prisão.

Antes de ser enviado para Alcoentre, ainda passou uma temporada no hospital-prisão de Caxias. "Ele levou porrada da Judiciária, ficou com uma hérnia e teve de ser operado", conta Rosa. Sobre a noite do crime, José Quaresma nunca abriu a boca, nem para a mulher nem para as filhas.

Chegada a liberdade, o casal decidiu não voltar para o Alentejo. "Ele tinha medo de represálias da família do rapaz. Eu vinha de visita a Alcoentre e gostei do sítio, lá não tinha apoio da família, por isso tanto me dava. Mas aqui as pessoas já estavam habituadas aos presos", diz. Enquanto o marido esteve detido, Rosa ia vê-lo, de autocarro. "Chegava ao meio-dia, e esperava duas horas pelo horário da visita." Numa época em que não havia visitas conjugais, a mulher esperou por ele. "Foi complicado criar as minhas filhas sozinha, mas eu tinha de aguentar, por elas e por ele."

Em Alcoentre nunca sentiu o preconceito de ser mulher de um ex-condenado. "Isso sentia no Alentejo", recorda. Nunca mais lá voltou. Mas foi em Santiago de Escoural que o ex-marido decidiu acabar com a vida. Era um Domingo de Páscoa. "Custou-me muito. Nunca lhe desejei mal", desabafa.

O crime que José Quaresma sempre disse nunca ter cometido aconteceu há 35 anos. Carla Quaresma, a filha mais nova, gostava de saber o que realmente aconteceu nessa noite. "O meu pai viveu sempre atormentado por isso. Sempre soubemos que ele um dia se matava", lamenta.

"Um homem pode andar por cá uma vida toda e nunca se achar, se nasceu perdido. E tanto lhe fará morrer, chegada a hora."
(José Saramago, Levantado do Chão).

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