Cheias, dívidas e coragem de leão 

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São admiráveis as pessoas e os setores de atividade que nunca baixam os braços, nem mesmo perante as piores adversidades. Identifico-me com elas e merecem o maior respeito. Têm a coragem de um leão. Os portugueses que, nos últimos dias, foram afetados pelas cheias, estão entre esses resistentes e corajosos. Muitos ficaram sem nada e terão de encontrar forças para reerguer as suas casas e os seus negócios. Estranhamente, o país vive a mesma situação ano após ano e, tal como nos incêndios, nunca é capaz de encontrar uma solução sustentável. É triste.

Por falar em reerguer vidas e negócios, há cerca de dois anos foi a pandemia que bloqueou o país e o mundo. Os empresários das agências de viagens foram dos mais afetados. Ainda assim, a maioria não só aguentou a paragem como devolveu mais de 300 milhões de euros aos clientes, endividando-se para tal. No regresso ao chamado "normal", as agências iam sendo asfixiadas pelas pressões de tesouraria e voltaram a contrair dívida para se manterem à tona de água.

Renascido das cinzas, o setor regressou à faturação em 2022 e teve uma excelente temporada de verão. A vingança do consumo (que pouco beneficiou certos setores, como, por exemplo, o do vestuário, já que muitos trabalhadores ainda estão em teletrabalho) favoreceu o negócio das viagens.

Os empresários desta área estão associados na APAVT que, no último fim de semana, concluiu o 47º congresso. Nesse encontro, ficou claro que as feridas do passado não ficaram todas saradas. Com a pandemia, o setor perdeu anos de vida e de receitas. Segundo Pedro Costa Ferreira, presidente da APAVT, 2020 e 2021 fizeram com que as agências de viagens perdessem "mais de seis anos de resultados". E hoje "a fragilidade e a necessidade são imensas". Sem papas na língua, pediu ao recém-empossado secretário de Estado do Turismo, Nuno Fazenda, que cumpra "as promessas de dar seguimento à nova tranche do apoiar.pt".

O setor diz-se ainda prejudicado pela ausência do novo aeroporto de Lisboa, prometido há meio século. Para o presidente da associação, a competitividade das agências pode estar em perigo "pela situação anacrónica, vergonhosa e incapacitante das acessibilidades aéreas de Lisboa".

Após tanta espera, os associados já não acreditam numa decisão sobre o aeroporto de Lisboa em 2023 e "nem numa solução que seja implementada nos próximos anos". Por isso, pedem urgência naquilo que é possível fazer agora: obras no aeroporto da Portela, que melhorem a operacionalidade e eficiência desta infraestrutura. Aos políticos e governantes deixam um alerta: "Simplesmente deixem que as obras avancem".

O aeroporto que temos hoje na capital, e que serve também o país, claramente não chega. No verão, os passageiros viveram um inferno na infraestrutura de Lisboa e, à medida que se aproxima o Natal, a situação volta a ficar caótica. Não nos podemos dar ao luxo de considerar que há turismo a mais ou que nem sequer necessitamos dele. A consistência do crescimento nacional vai precisar de um turismo forte, com condições para trabalhar e para ser competitivo a nível internacional. E 2023 pode ser, quanto ao aeroporto, mais um ano perdido.

Diretora do Diário de Notícias

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