Boris Johnson e a pergunta do momento

Afinal, ao contrário do que esperava, a estratégia do Brexit compensou, isto é, os resultados das eleições desta semana deram uma confortável maioria parlamentar ao homem que prometeu a saída do Reino Unido da União Europeia. A dimensão da vitória põe de lado explicações baseadas na manipulação das redes sociais, da imprensa ou do eleitorado. E também põe de lado explicações que colocam o desfecho como a vitória de uma parte do país contra outras, como se constata da observação do mapa dos resultados eleitorais. Também não se pode usar o argumento de que a vitória dependeu de um melhor uso das redes sociais, pois esse uso estava ao alcance de todos e se o Partido Trabalhista não o fez só ele pode ser responsabilizado. O Partido Conservador foi mais profícuo em mentiras declaradas, mas o Partido Trabalhista prometeu coisas a mais, o que é diferente eticamente, mas não do ponto de vista da política eleitoral. A exceção, importante, mas sempre exceção, dada a dimensão relativa da região, foi a Escócia, onde Boris Johnson não entrou. Mas a verdade é que o Partido Conservador conseguiu importantes vitórias em muitos círculos tradicionalmente trabalhistas. Era nessas áreas que o Manifesto de esquerda tradicional teria mais hipóteses de ganhar, pois são as áreas mais afetadas pela austeridade dos últimos nove anos. Mas tudo saiu ao contrário. Porquê?

As razões da vitória conservadora passam pela explicação de uma série de elementos, que nos devem levar a pensar, pois tem extensões em outras partes da Europa, incluindo Portugal.

O eleitorado britânico preferiu a saída da União Europeia à maior justiça social; preferiu o afastamento do bloco europeu a uma maior igualdade entre regiões e diferentes grupos sociais; preferiu dar mais poderes aos políticos nacionais à maior participação no concerto das nações; preferiu o Atlântico à Europa Central e do Leste; preferiu promessas de crescimento, baseado em empresas multinacionais pouco tributadas, ao crescimento industrial e dos serviços, no contexto do estado social europeu; e preferiu o mau funcionamento das infraestruturas privatizadas de saúde, ensino, transportes e comunicações à promessa de serviços públicos regulados e mais baratos para todos. Se reduzirmos tudo o isto a uma só dicotomia, podemos concluir que o eleitorado britânico preferiu um futuro diferente à recuperação de um passado, de longa data conhecido, de uma certa organização da sociedade.

A vitória conservadora desta semana compara-se às de Margaret Thatcher de há 40 anos. Mas os contextos são naturalmente diferentes. À data, a economia britânica encontrava-se travada pela incapacidade política e social para mudar uma estrutura industrial obsoleta, isolada da Europa Ocidental, e foi contra isso que Thatcher ganhou. Hoje, a economia britânica está relativamente bem, integrada no contexto internacional, mas marcada sobretudo por problemas sociais e de distribuição da riqueza. Johnson ganhou porque prometeu maior integração e porque conseguiu fazer esquecer momentaneamente os problemas sociais. Certo que para o fim da campanha convenceu os seus eleitores, tradicionais ou novos, que iria investir nos serviços públicos, coisa que restará saber se fará. Mas, como já se disse, essa não foi seguramente a principal cartada.

Que lições podemos então retirar de tudo isto, quanto ao futuro da justiça social, da maior igualdade e do maior equilíbrio entre pessoas e regiões? A lição será talvez a de que não basta apelar ao espírito da solidariedade, da tranquilidade social, da necessidade de garantir a segurança ambiental. Será preciso mais, será preciso garantir o espaço para a renovação de ideias, para o advento de futuros diferentes, para caminhos não explorados, para outras sociedades. É isso que se faz nas redes sociais, é isso que fazem as grandes companhias da Internet, é isso que fazem as finanças internacionais pouco ou nada controladas, é isso que faz (porventura) o maior confronto social. A defesa da saúde, do ensino, dos transportes, da justiça para todos já não chega. Ou, pelo menos, não chegou ao derrotado Partido Trabalhista. Sendo assim, o que fazer para juntar renovação económica à justiça social? Essa é a pergunta do momento, a pergunta que a vitória conservadora no Reino Unido provoca. Responda quem souber.

Investigador da Universidade de Lisboa

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