"Ou me conheço ou me amo. As duas não consigo"

Ricardo Araújo Pereira esteve na Praça do Município para conversar sobre o novo livro, a linguagem e o Natal, essa "grande festa do colesterol e do Messias".

Ricardo Araújo Pereira é sobejamente conhecido. Nasceu a 28 de abril de 1974, em São Sebastião da Pedreira, e hoje conhecemo-lo como um dos grandes humoristas nacionais. No palco vamos falar do livro, no ano passado lançou Entra a Doença e a Morte num Bar, e tem outros como a Boca do Inferno. O mais recente, Estar Vivo Aleija , é uma recolha das crónicas que Ricardo Araújo Pereira escreve para a Folha de S. Paulo. Uma conversa na Praça do Município, no âmbito das Histórias de Natal DN/KIA, com direito a perguntas da plateia.

A última frase é: "Não sei se já disse, mas não tenho muitos amigos." Não acredito nesta frase. Quanto mais não seja, amigos interesseiros não devem faltar. Mas não há verdadeiros amigos?

Há, mas não são muitos. Não sei se acontece com a generalidade das pessoas, mas quantos amigos a sério é que a gente tem? Não são... Não é como no Facebook. Aquilo que se chama amigo é uma paródia do conceito de amigo, é uma das coisas que me afligem nessa rede social - foi inventada por uma pessoa que, ao que parece, não sabe bem o que a amizade é. Aquele filme que se chama A Rede Social, do David Fincher, parece ser claro nisso. É um pouco inquietante que isto a que as pessoas chamam de amigos, a uma lista de duas mil pessoas no Facebook, não são exatamente amigos.

Já vimos a última frase, vamos agora à primeira. "Eu não tenho nada para dizer ao público brasileiro, mas não vale a pena o público brasileiro começar a sentir-se especial." Isto é uma confissão de que o nosso público, os leitores e os espectadores portugueses é que são os mais importantes? Ou é apenas para dar graxa aos brasileiros?

Ora bem. É claro que estes são os mais importantes. Sempre que estou à frente de uma plateia, essa é a mais importante. O que diz aí é que não tenho nada a dizer ao público brasileiro, mas não vale a pena o público brasileiro sentir-se especial porque não tenho nada a dizer a público nenhum. A dificuldade é que eu aos portugueses tenho a sensação, provavelmente bizarra, e claramente errada, de que os conheço. Quando estou a escrever uma crónica cá, tenho a sensação de que conheço o público para o qual estou a escrever, no Brasil tenho a sensação de não o conhecer. Como é obvio, não o conheço aqui, ou no Brasil. Mas no Brasil conheço menos ainda. Portanto, aquilo que optei por fazer foi falar sobre coisas que qualquer ser humano entenderia. E, nessa medida, falo bastante mais de mim do que é costume. Falando de mim estou, em princípio, a falar de toda a gente. Cá dentro, tenho todas as coisas que toda a gente tem, cobardias, vergonhas, ridículos.

"É um pouco inquietante que isto a que as pessoas chamam de amigos, a uma lista de duas mil pessoas no Facebook, não são exatamente amigos."

Quer dar um exemplo?

Uma pessoa não precisa de ter ido à guerra para saber o que a coragem é. Acho que a última vez com que me confrontei com a minha falta de coragem foi quando estava a mexer no telefone, já muitos anos depois de a minha avó ter morrido, e ocorreu-me, mais uma vez, que começava a ser mais doloroso ver o nome da minha avó na lista telefónica do que finalmente ter coragem para apagar o número de telefone. Só que isso, apesar de tudo, requer alguma coragem. Como não tenho muita... o que eu fiz foi reduzir ao mínimo a coragem que é preciso ter. A primeira coisa que fiz foi mudar o sistema operativo do telefone para inglês. As coisas em inglês têm outro som. Melhor. Por exemplo. Foste despedido? Não, fui alvo de um downsizing. É outra coisa, parece mais prestigiante. Neste caso, mudar o sistema operativo do telefone para inglês ajudou-me porque consigo mais facilmente responder afirmativamente à pergunta "Delete Entry Avó?" do que à pergunta "Apagar Avó". Eu a essa não seria capaz de carregar no sim. E, portanto, a questão é essa. Andar à procura de coisas com as quais as pessoas se relacionem. Às vezes são coisas minúsculas. E invariavelmente ridículas. Está uma crónica nesse livro sobre o facto de uma vez ter entrado no carro, ter posto uma morada no GPS e, pela primeira vez, me ter apercebido de que quando a gente põe uma morada no GPS, o GPS pergunta "aceitar destino?". De repente aquela pergunta pareceu-me ter um peso que não tinha reparado, parecia que estava numa peça do Sófocles. Estava-me a perguntar se aceitava aquele destino que, naquele dia, era ir ao supermercado comprar cerveja. Não me senti preparado para responder afirmativamente à pergunta "aceitar destino" sendo o destino uma coisa tão... fajuta como essa. E pronto. É sobre isso que eu escrevo e é assim que as minhas filhas comem.

E já comem há muitos anos.

Não estão muito gordas, mas comem, sim.

Quando estás a escrever para os teus leitores brasileiros pensas em quê? Pensas naquela novela Gabriela, no Sinhozinho Malta? Pensas na Maitê Proença? Em que é que pensas?

Eu para pensar na Maitê Proença não preciso de estar a escrever para o Brasil. Acontece muitas vezes. Quando estou no banho... enfim, em várias ocasiões da minha vida. Uma das coisas é se lisonjeio o gosto brasileiro optando por um gerúndio aqui e outro acolá. Não costumo usar gerúndios a não ser que venha mesmo a calhar. Mas, confesso que, apesar de o livro não deixar transparecer isso, quando estou a escrever para um jornal brasileiro não me custa nada escrever ónibus em vez de autocarro. E, por isso, faço-o. Às vezes sinto que começo a pensar assim... falando como... inevitavelmente sinto-me o Batatinha. Mas tento resistir a essa tentação de escrever um português mais cantado. Não sei exatamente se foi isso ou se o português que está aí é uma espécie de meio caminho entre o nosso e o deles.

A mim parece-me mais do nosso do que do deles. Até me levanta aquela questão: eles nunca sugeriram mudar algumas alterações, alguns termos?

Às vezes a Folha de S. Paulo manda-me um e-mail a dizer "esta expressão cá não existe". Eu esforço-me para não usar expressões que eles não usem. Basicamente quero que me entendam, quero ser percebido. Às vezes ando a fazer pesquisas no Google um bocado estranhas. Como é que os brasileiros dizem esfregona? Preciso falar de esfregonas e curiosamente eles dizem esfregona... Mas tenho de andar a ver sites brasileiros que vendam esfregonas para ver como é.

"Para pensar na Maitê Proença não preciso de estar a escrever para o Brasil. Acontece muitas vezes. Quando estou no banho... enfim, em várias ocasiões da minha vida."

O Ricardo tem andado nos últimos meses nalguma internacionalização. Esteve no Brasil, há uns tempos, na FLIP, depois esteve na Feira do Livro do México, e foi para os EUA numa espécie de tournée. Agora acaba aqui, na Praça do Município. Há um desejo de publicar lá fora sem ser na língua portuguesa? Por exemplo nos EUA? Porquê?

Confesso que, se isso acontecer, ótimo mas não é uma coisa em que eu pense. Devo dizer que fui à FLIP, de facto, por causa da minha editora. Ela é super foçona. E arranjou maneira de, não sei como, que eu fosse à FLIP. Uma feira literária numa terra chamada Parati, num sítio lindo, entre o Rio de Janeiro e São Paulo. E eu disse baboseiras lá - como, aliás, é costume -, o Folha de S. Paulo viu isso e convidou-me para escrever para o jornal. É por causa da Bárbara Bulhosa, da Tinta da China, que escrevo no Folha de S. Paulo. Mas isso é simpático e no México, na feira de Guadalajara, saiu a tradução espanhola do livro anterior, A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar. A tradução é do Jerónimo Pizarro, especialista colombiano em Fernando Pessoa, e soa muito melhor do que o original português. Por isso, para responder à sua pergunta, provavelmente sim, desejo que haja traduções para que, os tradutores, como foi o caso do Jerónimo, melhorem um pouco o trabalho. Talvez o ideal fosse fazer a tradução para português da tradução espanhola do Jerónimo. Isso é que dava um livro mais ou menos.

"Lisonjeio o gosto brasileiro optando por um gerúndio aqui e outro acolá. Não costumo usar gerúndios a não ser que venha mesmo a calhar."

Eu vi que o Jerónimo na entrevista tentava fazer piadas melhores do que as do Ricardo. É normal isso acontecer? Quem faz a entrevista costuma tentar ser tão engraçado como o Ricardo?

Não é muito difícil. As pessoas na rua tentam-me contar piadas. Não tenho nada contra isso. Entendo o ato de contar uma piada a outra pessoa e não quero dizer um ato de amor porque se calhar é um exagero, mas é qualquer coisa simpática. O riso dá prazer. Há poucas coisas nas quais todos os filósofos concordam em relação ao amor e ao riso, etc. Mas há uma em que todos concordam. O riso dá prazer. Ora, contar uma piada a outra pessoa é procurar dar-lhe prazer. Sem lhe tocar. É uma coisa decente, ainda por cima. E isso eu valorizo. Não tenho nada contra, muito pelo contrário.

Ainda hoje, apesar de vermos o Ricardo a solo, constantemente, é quase impossível esquecer os Gato Fedorento. Parece que esse quarteto que agora é em forma terceto vai voltar à televisão. É verdade, mesmo?

Não é o Gato Fedorento no sentido em que éramos quatro. Sempre que há eleições a gente costuma fazer um programa em que falamos sobre a campanha eleitoral, mas um programa diário é muito cansativo e levar lá um político todos os dias também envolve uma preparação, das entrevistas, de ver onde escondemos a carteira... estou a brincar. A sério. A contragosto para os canais de televisão que nos albergam, que têm a simpatia de nos albergar, porque gostariam que se continuasse a fazer aquilo, temos a tendência para, no fim desse período, acabar com o programa. Como estão sempre a propor que a gente faça uma coisa desse tipo, agora resolvemos aceitar fazer uma coisa desse tipo mas semanal, uma espécie de suplemento humorístico do jornal de domingo. Além do Zé Diogo, do Miguel, convidámos outras pessoas [Joana Marques, Manuel Cardoso, Cátia Domingues, Cláudio Almeida e o Guilherme Fonseca] para virem escrever o programa connosco e espero que isso seja divertido para essas pessoas. O meu grande desejo para isto é que a gente se divirta a fazê-lo.

"É muito cansativo e levar lá um político todos os dias também envolve uma preparação, das entrevistas, de ver onde escondemos a carteira ... estou a brincar."

Tenho uma pergunta que não posso evitar, e não tem nada que ver com o Ricardo. Só quero saber a sua opinião. Vimos há pouco tempo a aparecer novas velhas estrelas na televisão. Manuela Moura Guedes, com o seu colarzinho com a pistola, e, agora, na semana passada, José Eduardo Moniz. Eles são casados. É correto esta concorrência conjugal na própria casa, com dois canais diferentes concorrentes?

Ora bem... eu responderei com bastante cuidado mesmo porque, não sei se sabe, mas a minha mulher vai ter um programa na SIC. Portanto...

Era por isso...

Sinto algum embaraço em responder a esta questão. Em princípio acho que é ótimo. Acontece. Pessoas serem casadas e trabalharem uma num sítio e outra noutro. Tem um aspeto bizarro que neste momento o povo português sabe exatamente qual é a opinião da família Moniz. Se os filhos arranjarem um programa na RTP ficamos com uma panorâmica mais geral e tudo. Para já temos a opinião do casal. Nada contra. O meu problema não é quem está a falar, é quem não está a falar. Mais gente deveria falar.

Tenho a ideia de ter lido neste livro que hoje não é preciso nenhum requisito para se falar na televisão, qualquer um fala. Isso chegou assim a um nível tão baixo?

Às vezes o requisito até prejudica. Eu participo, como se sabe, num programa chamado Governo Sombra. Somos quatro e nenhum de nós é especialista em nada. Basicamente o conceito do programa, o que gostávamos que o programa fosse era "conversa de café sofisticada". Na maior parte das vezes é só uma conversa de café em que eu nunca levo sofisticação. Esqueço-me sempre. Se calhar o discurso de um especialista não se coaduna com a respiração da televisão e o especialista precisa de tempo, para contextualizar o que está a dizer, para aprofundar as questões. Às vezes tem uma complexidade que, se calhar, a televisão não está disposta a receber. Talvez os jornais tenham outro fôlego, tenham outra capacidade de receber, lá está, esse tipo de raciocínio mais complexo.

Quer um emprego no Diário de Notícias?

Não, isso não posso, que a Visão não deixa. E o Diário de Notícias não está interessado. Não quero, com isto, desvalorizar o papel da televisão. Quero dizer que às vezes o próprio se calhar não se adequa exatamente a um determinado tipo de discurso. É claro que se houver vontade para isso a gente podia ter esse tipo de discurso, sei lá, à uma da manhã. Mas, pelos vistos, nem aí.

Eu não resisto a falar do Governo Sombra. Nos tempos do politicamente correto, como vivemos atualmente, não é um pouco estranho aparecerem quatro homens, creio que todos heterossexuais, vestidos de preto... não é estranho?

Mas já não se pode vestir de preto? O que quer dizer com isso?

Há ali muita uniformidade.

Estou chocado por ter assumido o nosso género, é uma coisa que hoje não se deve fazer. E mesmo sobre a nossa sexualidade tenho dúvidas. Acho que deve haver mais gente a falar e não cortar a palavra àqueles que falam. Houve um programa, por exemplo, parecido, que era composto só por mulheres. Não sei porque acabou, mas eu via. Mas há uma coisa que me incomoda. Como calcula sou a favor da igualdade de direitos entre homens e mulheres, sou a favor que as mulheres tenham uma visibilidade, por exemplo mediática, igual à dos homens. Deixe-me aliviar a carga da culpa para cima de Carlos Vaz Marques, foi ele que convidou o painel porque é o autor do programa e, por isso, o pérfido machismo que presidiu à escolha é todo dele. Agora há um argumento que me costuma fazer confusão, que é as pessoas dizerem assim "pois, o Governo Sombra são só homens. Faz lá falta uma mulher para termos uma perspetiva feminina". Ora, uma mulher não dá a perspetiva feminina. Isso é o raciocínio racista de que "elas são todas iguais". Há um tipo de sociólogo português, muito subtil, que costuma lecionar ao balcão de uma taberna, com um palito na boca, e que costuma referir-se a grupos de pessoas no singular. Do género "o cigano é um gajo que não gosta de trabalhar", os ciganos são de tal forma homogéneos que eles os designam no singular. Parece-me que essa ideia é a mesma. Ou seja, falta ali uma mulher para termos uma perspetiva feminina. Como assim uma perspetiva feminina? Eu não tenho a perspetiva masculina. Quem é que tem, na Assembleia, a perspetiva feminina? Assunção Cristas ou a Mariana Mortágua? São duas mulheres e pensam as duas de maneira completamente diferente. Além de que não basta termos uma mulher para termos aquilo que essas pessoas chamam a perspetiva feminina.

Em tempos, o Ricardo disse que os políticos fazem "tanta asneira que roubam o papel aos humoristas". Continua a sentir essa dificuldade? Continua a fazer humor com esta classe política?

Às vezes, em Portugal, acontece uma determinada ocorrência ser de tal forma rocambolesca que nós não conseguiríamos inventá-la. Isso, por exemplo, no caso de Tancos, parece-me que foi óbvio. Por mais que me esforçasse, não teria conseguido inventar que, primeiro, a tropa se deixava roubar. Não tenho armas em casa precisamente porque um dos meus medos é que o gatuno entre e me tire a arma. Fui dado como inapto para o serviço militar, é normal que me roubem armas. Agora, à tropa... não estava à espera. Portanto, primeiro a tropa deixa-se roubar, depois dizem que não sabem exatamente o que foi roubado porque têm para lá um papel mas não muito rigoroso e o ministro diz que se calhar nem houve roubo. Nisto o ladrão vem, devolve as armas roubadas e acrescenta duas caixas. É o tipo de gatuno que eu gostava que me assaltasse a casa.

"Quem é que tem, na Assembleia, a perspetiva feminina? Assunção Cristas ou a Mariana Mortágua? São duas mulheres e pensam as duas de maneira completamente diferente."

Com garrafas de whisky?

Exato. Que repusesse o stock a dobrar. Mas, depois, entretanto, descobriu-se que ele não deu a mais, deu a menos. E assim sucessivamente até ao ponto, para mim o pináculo dessa história. No estrangeiro, quando assistimos a coisas deste tipo - roubo de armas de guerra -, normalmente acaba em tráfico internacional e as armas vão parar às mãos de uns talibãs quaisquer. Portugal, o que fez o gatuno das armas? Escondeu-as onde? Em casa da avó. É de facto muito difícil competir com este tipo de realidade.

Mas, mais difícil de competir ainda é com o deputado do PAN. Isso vocês não conseguem. Nem nos melhores tempos do Gato Fedorento vocês conseguem chegar lá.

Eu fico um bocado cansado porque é um assunto que me incomoda, este das palavras, do que a linguagem significa, como é que a linguagem funciona, se dizer uma coisa é ou não equivalente a fazer uma coisa. Nesta semana, ao que parece, acontece que as pessoas que lutam pela defesa dos direitos dos animais, que é uma causa nobre, devo dizer - adoro animais, tenho animais, sou a favor de não causar sofrimento aos animais -, pretendem minorar o sofrimento dos animais com o seguinte - em vez de dizer "isto tudo ficou em águas de bacalhau" dizer "isto ficou tudo em águas de tremoço". O André Silva do PAN diz que já usa esta expressão "fica tudo em águas de tremoço". Isto levanta algumas questões. A primeira é que a PETA - este assunto está na ordem do dia porque a associação americana disse que queria substituir algumas expressões por outras. Por exemplo. Eles lá dizem "to kill two birds with a stone", é o nosso equivalente a "matar dois coelhos com uma cajadada", eles dizem matar dois pássaros com uma pedra "to kill two birds with a stone". E eles propõem mudar para "to feed two birds with a scone", ou seja, alimentar dois pássaros com um scone. Ora, alimentar dois pássaros com o scone, o scone leva ovos e manteiga e, portanto, parece-me que esta expressão esquece o colesterol das aves, que é um assassino silencioso, como sabem. E não é só isso, a questão é enquanto a PETA alertava para coisas que causam um sofrimento como matar dois coelhos de uma queijadada ou matar dois pássaros com uma pedra, o André Dias diz que também devemos substituir a galinha da minha vizinha é mais gorda do que a minha. Respeito as pessoas que são vegetarianas e vegan, mas, em princípio, comer uma galinha não é imoral. Mas achar que é imoral e pretender que a linguagem atue sobre isso parece-me demais. Além de que eu cantei muitas vezes o Atirei o Pau ao Gato e na verdade nunca atirei um pau a um gato, nem acho aceitável ou legítimo que se atirem paus a gatos. Não sei se sou o único, mas sempre pensei que a linguagem funciona assim. É possível cantar uma canção como a Atirei o Pau ao Gato e não sair e desatar a atirar paus a gatos.

Falando ainda do André Silva, ele quer mudar estas expressões e ainda vai acabar por mudar a expressão geringonça. Agora tão perto das eleições é capaz de ir a isso.

Ora aí está. Tocou num ponto interessante. Repare, geringonça é um termo depreciativo que foi criado pela oposição para atacar os partidos que compõem a geringonça. O que é que os partidos que compõem a geringonça fizeram e bem? Foi apropriar-se do termo e usá-lo como natural. Assim fizeram que a carga negativa do termo geringonça desaparecesse. Por exemplo, a comunidade homossexual fez o mesmo durante muito tempo. A palavra queer é um insulto. N'A Alice no País das Maravilhas, sempre que acontece alguma coisa anormal ela diz how queer. Queer quer dizer anormal, desviante da norma, estranho. O que é que os homossexuais fizeram? Hoje entramos numa livraria e está lá escrito queer studies. Pegaram no insulto e colocaram no peito como um emblema. Acho essa maneira de reagir a palavras de que não gostamos a mais inteligente e mais eficaz do que a proibição.

Nós aqui neste livro, na badana, onde tem a biografia de Ricardo Araújo Pereira, termina a dizer "é o sócio número 12 049 do Sport Lisboa e Benfica". Os tempos estão complicados para o Benfica e para os sócios do Benfica.

Sim, é certo. Mas isso faz parte da minha biografia. O que me pedem são os factos essenciais da minha biografia. É claro que o facto de eu ser o sócio número 12 049 é um dos factos essenciais. Aliás, só está em último lugar porque o editor o põe em último lugar, eu teria posto antes da data de nascimento. Há um autor brasileiro chamado Nelson Rodrigues, que era adepto do Fluminense, e ele dizia que a pertença a um clube é anterior à sexualidade. Ainda no outro dia pensava sobre isso. Quem não tem clube não entende, mas o que significa amar um clube? O Benfica que me foi apresentado era composto por Bento, Bastos Lopes, Chalana, Diamantino, Carlos Manuel, Shéu, Nené, Pietra... nenhum desses jogadores existe agora e contribuíram para a ideia que eu tenho do Benfica. Assim como o Eusébio. Às vezes estou em casa e penso se o Benfica seria este Benfica sem o Eusébio, por exemplo. Ou sem a cor vermelha. Muitas vezes me ponho a pensar porque sou do Benfica. Há uma razão que é bastante comezinha. Porque o cabelo do meu primo António cresce muito depressa, de três em três semanas o meu primo António tinha de ir ao barbeiro. O barbeiro era do Benfica e convenceu o meu primo António de que o Benfica era o maior. Que é, aliás, uma tarefa fácil, como sabem. Depois foi o meu primo António que me convenceu do mesmo. Portanto, a minha geneologia benfiquista vai até ao barbeiro. Eu não sei quem convenceu o barbeiro do meu primo António de que o Benfica era o maior. Isso já não consigo saber.

Vamos voltar a uma das crónicas do livro. "Uma vez encontrei o meu verdadeiro eu e não ficámos amigos." O Ricardo tem passado por várias épocas de sucesso, várias etapas de sucesso. Já se questionou sobre o seu verdadeiro eu?

Essa frase, acho eu, é dita porque hoje as pessoas estão à procura do seu verdadeiro eu, entendem-se a si próprias como um enigma que é preciso decifrar. Eu respeito essa procura, o meu problema é que o conselho dos gregos era "conhece-te a ti mesmo" e o que hoje os gurus da autoajuda dizem é "ama-te a ti mesmo". No meu caso são dois conselhos incompatíveis. Porque eu ou me conheço, ou me amo. As duas não consigo. Em princípio, depois de me conhecer não dá para o amor. Parece-me até imoral... eu andar-me a amar. E, portanto, eu conheço-me de vista, apenas. Conheço-me o suficiente para, quando me vejo a aparecer, atravessar para o outro lado. É essa a relação que tenho comigo próprio. Atravesso para o outro passeio. Viu como consegui não responder à sua pergunta?

Vamos deixar a plateia fazer perguntas.

[Ferreira Fernandes] Sou diretor do Diário de Notícias e não vou fazer uma pergunta, é um Direito de Resposta. Fui insultado. Foi dito aí um fake news tão grande como o que estamos habituados. Foi dito aí que o Diário de Notícias não estava interessado no Ricardo Araújo Pereira. É insuportável ouvir isso. Primeiro ponto.

O segundo é... eu queria apanhar a boleia da conversa que aí foi feita por um passear da língua portuguesa pelo mundo. Era uma coisa que eu gostaria, sempre, saber o que é porque eu sei ao contrário. Aprendi a ler brasileiro, porque aprendi muito cedo, e isso fez-me imensamente bem. Os brasileiros escrevem em português que é aquele que Ricardo Araújo Pereira tem e até fazem imagem disso. A mim formou-me imensamente. Agora, foi muito bom ter ouvido um cronista, um humorista que está a entrar no mercado brasileiro e a angústia que se lhe põe. É que o humor e a maneira de falar são bastante diferentes, mesmo que a língua seja a mesma. Eu sou de Luanda e das coisas que mais me comovem é ouvir o povo de Luanda a falar. É duma riqueza da língua portuguesa, de uma invenção absolutamente extraordinária. Ora bem, eu queria perguntar, porque estamos aqui numa praça emblemática da cidade de Lisboa. Estamos aqui com Ricardo Araújo Pereira, já o ouvi uma vez a contar como ergueu a primeira filha como Águas, aliás, em angolano, como Águas ergueu a primeira filha, pelos campeões europeus, o Benfica, eu queria perguntar, ao Ricardo Araújo Pereira o que, pelo facto de ser lisboeta, o marcou para fazer tão bom humor.

Sou lisboeta, não há dúvida nenhuma. Está documentado, nasci e sinto-me em casa aqui. No entanto, eu não sou um lisboeta puro. Se calhar não há lisboetas puros, aliás. Se eu fizer uma piada muito desagradável sobre uma localidade qualquer, em princípio vou receber cartas "não se brinca com Angra do Heroísmo, seu palerma". Mas se fizer uma piada sobre Lisboa ninguém me escreve. Ninguém sente Lisboa. Por um lado é uma prova de grandeza, por outro é a prova de que, na verdade, ninguém de Lisboa é apenas de Lisboa. É o meu caso, também sou de Viana do Castelo. Porque a minha avó era de Viana do Castelo e em casa da minha avó, na verdade, embora a casa ficasse em Lisboa, nós vivíamos em Viana do Castelo. Todos os dias, comíamos como se come em Viana do Castelo, a maneira como ela falava era à maneira de Viana do Castelo, e quando dava o Boletim Meteorológico ela dizia: "Vê lá que temperatura é que dão para Viana do Castelo." Percebo exatamente o que diz sobre o modo de falar africano, angolano, moçambicano e o modo de falar brasileiro. Há uma agilidade na língua que nos surpreende, porque é nova para nós. Eu sei que eles também acham o nosso sotaque divertido. E mesmo a nossa construção sintática, digamos assim, acham-na simpática. Sempre estive convencido de que uma maneira de falar também é maneira de pensar e, por isso, uma maneira de encarar as coisas, de estar vivo.

Uma das coisas em que eu encontro vários pontos de contacto são os pontos em que a nossa língua, o português de Portugal, o português do Brasil e, imagino eu, todos os falantes de português, se encontram. Por exemplo. Quentinho. Os ingleses não sabem o que é quentinho. E é muito diferente de dizer quente. Toma isto que está quente. É uma coisa. Isto que está quentinho é outra. Quando eu digo "eh pá! está a chover, se calhar vou ficar no quentinho". Eles não fazem ideia de que quentinho também pode ser substantivo. Há outro ponto que vou encontrando em comum entre todos os falantes de português, que é a maneira como falamos de comida. A sensação que dá é que falar de comida em português é nutritivo. Também alimenta. É uma parte da refeição. Nunca me aconteceu isso com estrangeiros, mas a almoçar com falantes de português, e falamos sobre o almoço, recordamos almoços passados e projetamos almoços futuros. Talvez seja por não sermos ricos. Não sei se acontece com vocês, mas quando eu vou jantar a casa de gente rica, primeiro como em casa. Porque já sei que vou encontrar três ervilhas, um risco de molho e quando eu descubro qual é o garfo com que como já o empregado o levou. Quando vou a casa de gente pobre é o contrário. É um sequestro ternurento. "Não sai daqui sem provar este presunto." Estamos lá sob ameaça e para sairmos temos de provar o presunto. E, portanto, se for jantar a casa de gente que não é rica faço jejum durante uma semana. Se for jantar a casa de gente rica como bem antes de ir.

Respondendo à sua pergunta... o meu português é aquele que se chama, em gramática, português padrão, norma de Lisboa. É como se este que eu falo fosse a marca branca e isso permite-me achar graça aos outros todos. Era muito raro a minha avó meter-se com o meu sotaque porque entende-se que o sotaque de Lisboa é o correto. Não faz sentido. Mas, mesmo assim, a minha avó, como todas as pessoas do norte, dizia "leite" e acusava-me de dizer "laite". Aos ouvidos dela leite, como eu digo, soava laite. E, pronto, eram tardes bem passadas em casa da minha avó.

(Volta ao entrevistador)

Aproveito para perguntar como vai ser o seu Natal. Com bacalhauzinho ou peruzinho?

Essa é outra. Repare, esses diminutivos, bacalhauzinho, cabritinho. É sempre assim. Comer um cabritinho é uma coisa que um inglês não sabe o que é. Eles não dizem isso e eu à partida desconfio de línguas que não distinguem o ser do estar. Nós sabemos o que é ser e o que é estar. Os ingleses e os franceses não. Como é possível viver sem saber a diferença entre ter bêbado e estar bêbado? Não consigo entender. Assim como ser bonito e estar bonito. Uma coisa é dizer estou bonita, uma coisa temporária, não quero dar muita confiança. Sou bonita, aí é outra coisa.

Mas o Natal...

Sim, o Natal. Estava à espera de que já se tivesse esquecido. Vai ser o costume, família e tal. Haverá bacalhau, mas ainda por cima misturam-se muitas tradições porque há transmontanos também na família e é um pretexto para comer tudo. Bacalhau tem de ser, polvo porque em Trás-os-Montes comem polvo. Depois alguém gosta de leitão, então também vem leitão. É a grande festa do colesterol e do Messias. Do nascimento do Messias. Mas, primeiro, está o colesterol. Na minha casa.

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