A Juventude Socialista (JS) elege este fim de semana o seu 13.º secretário-geral - e o mínimo que se pode dizer é que o caminho para este conclave tem sido azarado. Nem mesmo o facto de haver uma candidata única à liderança da estrutura de juventude tem serenado o caminho ao XXI congresso dos jovens socialistas. Maria Begonha é, nesta altura, um nome sob fogo cruzado: do currículo ao percurso profissional da candidata à liderança da JS, as polémicas já chegaram ao Ministério Público, com o Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa a abrir uma investigação aos erros no currículo da candidata..Os problemas com o percurso de Maria Begonha começaram com a biografia publicada na página da candidatura, onde surgia um mestrado que a jovem socialista frequentou, mas não concluiu. O caso, noticiado pelo jornal Público, acabou na demissão do diretor de campanha, mas as polémicas continuaram. O jornal onlineObservador avançou entretanto que a candidata inscreveu no currículo que foi "assessora na área de Políticas Públicas Autárquicas" na Junta de Freguesa de Benfica, isto quando os documentos oficiais - e a própria presidente da junta - dizem que foi contratada para exercer "serviços de apoio ao secretariado"..A juntar às dúvidas sobre o percurso de Maria Begonha, também houve um pedido de impugnação do congresso, por alegadas irregularidades, desde falsas assinaturas à falta de quórum na reunião que serviu para marcar a reunião magna deste fim de semana - um pedido que o Conselho de Jurisdição considerou "intempestivo", por ter dado entrada fora da data limite, mas reconhecendo que a reunião da Comissão Nacional que marcou o congresso não estava habilitada a tomar essa decisão..Já nesta semana, a jovem socialista reagiu, no Facebook, apontando o que diz ser uma "estratégia de intimidação" e "ataques violentos e desqualificados" à sua candidatura. .Um congresso traumático.Polémica é uma palavra que cola bem com a história da Juventude Socialista, muito pelos temas fraturantes que a estrutura da JS foi levantando ao longo do tempo, muitas vezes em conflito com o próprio partido. Mas também por algumas épicas guerras de poder, que selaram inimizades que se estenderam muito para além da estrutura da juventude e se perpetuaram no partido. É à JS que remonta o princípio da história de António José Seguro e António Costa - ambos integraram a direção de José Apolinário, nos anos 80. Costa acabaria a bater com a porta, Seguro manteve-se ao lado do então secretário-geral dos jovens socialistas, acabando por suceder-lhe, em 1990..Mas data já deste século a mais controversa disputa pela liderança da JS. A 13 de maio de 2000, Jamila Madeira e Ana Catarina Mendes protagonizaram um duro confronto, em Espinho, pela chefia da juventude partidária. Saldo final das votações: 318 votos para a primeira, 317 para a segunda. Ana Catarina Mendes (hoje secretária-geral adjunta do PS) contestou o resultado e, na manhã seguinte, o congresso da JS ainda durava, com as duas candidaturas a discutir a validade de um voto rasurado que ditaria um empate no conclave. Jamila Madeira acabaria por ser declarada vencedora, um resultado que nunca foi reconhecido pela candidatura adversária. O ambiente foi tal que ficou para a história o caso do enfermeiro de Bragança. O jornalista Vítor Matos conta o episódio no livro Os Predadores - numa comissão política posterior, com as duas fações praticamente empatadas em votos, apoiantes de Ana Catarina Mendes fecharam um opositor (um enfermeiro de Bragança) numa casa de banho, para impedi-lo de votar. Só o libertaram depois de terminada a votação. O visado nunca mais terá aparecido na JS..O congresso de Espinho foi de tal forma traumático para os socialistas que daí para a frente há uma clara sucessão na liderança da estrutura da juventude. Jamila Madeira ainda cumpre mais um mandato. Em 2004 é eleito líder da JS Pedro Nuno Santos, o atual secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, depois sucedido por Duarte Cordeiro, Pedro Delgado Alves, João Torres e Ivan Gonçalves - que este fim de semana deixa a liderança da JS. Em todos estes casos o novo líder saiu da direção anterior. Maria Begonha também não foge a este padrão, integrando a direção cessante da Juventude Socialista..As guerras da JS com o... PS.A história da JS faz-se de algumas outras guerras, temas lançados ou promovidos pelos jovens socialistas, contra a opinião maioritária, que foram ganhando terreno dentro do próprio partido. A mais proeminente remonta aos anos 90, com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, quando Sérgio Sousa Pinto pôs os jovens socialistas a empunhar esta bandeira - que tinha do outro lado da barricada António Guterres, então secretário-geral do PS e primeiro-ministro. A batalha, que dividiria o país ao meio, foi perdida em 1998, quando o referendo combinado entre Guterres e Marcelo Rebelo de Sousa, à data líder do PSD, redundou na vitória do não. Sérgio Sousa Pinto contaria, numa entrevista ao DN no ano passado: "O grau de violência e crispação foi suficientemente grande para eu ser obrigado, a conselho da polícia, a sair de minha casa e a refugiar-me na casa de um amigo, Rocha Andrade [ex-secretário de Estado e atual deputado do PS].".Outra luta da JS na altura faria um caminho mais célere. O reconhecimento das uniões de facto entre casais do mesmo sexo, que se concretizou em 1999..Em 2006, a JS avança com outro tema fraturante, ainda com poucos adeptos no próprio partido - o casamento de casais do mesmo sexo. O anteprojeto da Juventude Socialista nunca foi agendado pela bancada parlamentar do partido. Dois anos depois, serão o Bloco de Esquerda e o PEV a levar um projeto a votos - o PS vota contra, com exceção do líder da JS, Pedro Nuno Santos, que vota favoravelmente com a anuência da direção da bancada parlamentar, e de Manuel Alegre, que fura a disciplina de voto. O casamento civil entre pessoas do mesmo sexo seria aprovado no Parlamento a 8 de janeiro de 2010.
A Juventude Socialista (JS) elege este fim de semana o seu 13.º secretário-geral - e o mínimo que se pode dizer é que o caminho para este conclave tem sido azarado. Nem mesmo o facto de haver uma candidata única à liderança da estrutura de juventude tem serenado o caminho ao XXI congresso dos jovens socialistas. Maria Begonha é, nesta altura, um nome sob fogo cruzado: do currículo ao percurso profissional da candidata à liderança da JS, as polémicas já chegaram ao Ministério Público, com o Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa a abrir uma investigação aos erros no currículo da candidata..Os problemas com o percurso de Maria Begonha começaram com a biografia publicada na página da candidatura, onde surgia um mestrado que a jovem socialista frequentou, mas não concluiu. O caso, noticiado pelo jornal Público, acabou na demissão do diretor de campanha, mas as polémicas continuaram. O jornal onlineObservador avançou entretanto que a candidata inscreveu no currículo que foi "assessora na área de Políticas Públicas Autárquicas" na Junta de Freguesa de Benfica, isto quando os documentos oficiais - e a própria presidente da junta - dizem que foi contratada para exercer "serviços de apoio ao secretariado"..A juntar às dúvidas sobre o percurso de Maria Begonha, também houve um pedido de impugnação do congresso, por alegadas irregularidades, desde falsas assinaturas à falta de quórum na reunião que serviu para marcar a reunião magna deste fim de semana - um pedido que o Conselho de Jurisdição considerou "intempestivo", por ter dado entrada fora da data limite, mas reconhecendo que a reunião da Comissão Nacional que marcou o congresso não estava habilitada a tomar essa decisão..Já nesta semana, a jovem socialista reagiu, no Facebook, apontando o que diz ser uma "estratégia de intimidação" e "ataques violentos e desqualificados" à sua candidatura. .Um congresso traumático.Polémica é uma palavra que cola bem com a história da Juventude Socialista, muito pelos temas fraturantes que a estrutura da JS foi levantando ao longo do tempo, muitas vezes em conflito com o próprio partido. Mas também por algumas épicas guerras de poder, que selaram inimizades que se estenderam muito para além da estrutura da juventude e se perpetuaram no partido. É à JS que remonta o princípio da história de António José Seguro e António Costa - ambos integraram a direção de José Apolinário, nos anos 80. Costa acabaria a bater com a porta, Seguro manteve-se ao lado do então secretário-geral dos jovens socialistas, acabando por suceder-lhe, em 1990..Mas data já deste século a mais controversa disputa pela liderança da JS. A 13 de maio de 2000, Jamila Madeira e Ana Catarina Mendes protagonizaram um duro confronto, em Espinho, pela chefia da juventude partidária. Saldo final das votações: 318 votos para a primeira, 317 para a segunda. Ana Catarina Mendes (hoje secretária-geral adjunta do PS) contestou o resultado e, na manhã seguinte, o congresso da JS ainda durava, com as duas candidaturas a discutir a validade de um voto rasurado que ditaria um empate no conclave. Jamila Madeira acabaria por ser declarada vencedora, um resultado que nunca foi reconhecido pela candidatura adversária. O ambiente foi tal que ficou para a história o caso do enfermeiro de Bragança. O jornalista Vítor Matos conta o episódio no livro Os Predadores - numa comissão política posterior, com as duas fações praticamente empatadas em votos, apoiantes de Ana Catarina Mendes fecharam um opositor (um enfermeiro de Bragança) numa casa de banho, para impedi-lo de votar. Só o libertaram depois de terminada a votação. O visado nunca mais terá aparecido na JS..O congresso de Espinho foi de tal forma traumático para os socialistas que daí para a frente há uma clara sucessão na liderança da estrutura da juventude. Jamila Madeira ainda cumpre mais um mandato. Em 2004 é eleito líder da JS Pedro Nuno Santos, o atual secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, depois sucedido por Duarte Cordeiro, Pedro Delgado Alves, João Torres e Ivan Gonçalves - que este fim de semana deixa a liderança da JS. Em todos estes casos o novo líder saiu da direção anterior. Maria Begonha também não foge a este padrão, integrando a direção cessante da Juventude Socialista..As guerras da JS com o... PS.A história da JS faz-se de algumas outras guerras, temas lançados ou promovidos pelos jovens socialistas, contra a opinião maioritária, que foram ganhando terreno dentro do próprio partido. A mais proeminente remonta aos anos 90, com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, quando Sérgio Sousa Pinto pôs os jovens socialistas a empunhar esta bandeira - que tinha do outro lado da barricada António Guterres, então secretário-geral do PS e primeiro-ministro. A batalha, que dividiria o país ao meio, foi perdida em 1998, quando o referendo combinado entre Guterres e Marcelo Rebelo de Sousa, à data líder do PSD, redundou na vitória do não. Sérgio Sousa Pinto contaria, numa entrevista ao DN no ano passado: "O grau de violência e crispação foi suficientemente grande para eu ser obrigado, a conselho da polícia, a sair de minha casa e a refugiar-me na casa de um amigo, Rocha Andrade [ex-secretário de Estado e atual deputado do PS].".Outra luta da JS na altura faria um caminho mais célere. O reconhecimento das uniões de facto entre casais do mesmo sexo, que se concretizou em 1999..Em 2006, a JS avança com outro tema fraturante, ainda com poucos adeptos no próprio partido - o casamento de casais do mesmo sexo. O anteprojeto da Juventude Socialista nunca foi agendado pela bancada parlamentar do partido. Dois anos depois, serão o Bloco de Esquerda e o PEV a levar um projeto a votos - o PS vota contra, com exceção do líder da JS, Pedro Nuno Santos, que vota favoravelmente com a anuência da direção da bancada parlamentar, e de Manuel Alegre, que fura a disciplina de voto. O casamento civil entre pessoas do mesmo sexo seria aprovado no Parlamento a 8 de janeiro de 2010.