BCE cauteloso vai manter juros em 0% até final de 2019

Num momento em que Mario Draghi anuncia o fim do programa de estímulos e com a economia da zona euro a dar sinais de fraqueza, economistas acreditam que juros vão manter-se no 0% mais um ano.

O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, oficializou o fim das compras de ativos. Mas manteve o jogo em aberto sobre a evolução das taxas de referência da zona euro. O líder da autoridade monetária reconheceu que os últimos sinais vindos da economia foram "mais fracos do que o esperado" e que isso tem levado os mercados a pensar que os juros irão demorar mais tempo a subir. Mas garantiu que o timing das subidas dos juros não foi discutido.

O guião oficial do BCE é de que "as taxas de juro diretoras se mantenham nos níveis atuais, pelo menos até ao verão de 2019". O banco central garante que assim se irão manter "enquanto for necessário". A autoridade monetária tem a taxa de depósitos em valores negativos (-0,40%) e a taxa de referência em 0%. Os juros em mínimos históricos servem para estimular os bancos a concederem crédito a juros baixos para apoiar a economia. E levaram as Euribor (os indexantes que ditam parte do valor da prestação do crédito a taxa variável, por exemplo nos créditos à habitação) para valores abaixo de 0%.

A estratégia de Draghi, como a corrida de Maradona nos quartos-de-final do Mundial de 86

A maior parte dos analistas avisa que, como a economia está a enfraquecer, os juros terão de permanecer em mínimos por mais tempo do que o indicado pelo BCE. Nadia Gharbi, economista da gestora Pictet, estima, numa nota a investidores, que a taxa de depósito suba apenas em setembro do próximo ano, seguida de novo aumento em todos os juros de referência no final do próximo ano.

Mas a especialista salientou que "os riscos para este cenário estão direcionados para um adiamento das subidas devido aos recentes dados relativamente desapontantes. Por outras palavras, existe o risco de o BCE não ser capaz de subir as taxas em 2019".

BCE entre a confiança e a cautela

Mario Draghi diz que apesar de o BCE "continuar confiante" está também "mais cauteloso". O líder do BCE considerou que "os riscos em torno das perspetivas de crescimento da área do euro ainda podem ser avaliados como globalmente equilibrados". Mas reconheceu que "o conjunto de perigos está a deslocar-se em sentido descendente, devido à persistência de incertezas relacionadas com fatores geopolíticos, a ameaça do protecionismo, as vulnerabilidades nos mercados emergentes e a volatilidade dos mercados financeiros".

Esse cenário mais negativo resultou em revisões em baixa das estimativas do BCE para o crescimento e a inflação no próximo ano. Para 2019 os especialistas do banco preveem agora uma subida de 1,7% do PIB e uma inflação de 1,6%. Ambas as estimativas tiveram um corte de uma décima face às previsões feitas em setembro. Os economistas já antecipavam esta revisão em baixa. Mas Jan von Gerinch, analista do Nordea Bank, realça que o BCE pode estar a ser otimista.

As expectativas vindas do mercado são de que as Euribor apenas regressem a valores positivos em 2020, devido a um início mais tardio do ciclo de subida dos juros do BCE. E Mario Draghi aparenta concordar com a leitura que o mercado está a fazer. "Quando questionado se os mercados financeiros têm estado corretos em refrear as suas expectativas sobre a primeira subida de juro de setembro para o final do ano, Draghi disse que a alteração era uma resposta aos dados desapontantes, deixando implícito que isso foi justificado", observa Jennifer McKeown, economista da Capital Economics, num relatório.

O presidente do BCE afirma que essa leitura dos mercados surge porque "pensam que a economia vai piorar". E reconhece que isso "demonstra que percebem muito bem a nossa função de reação". Mas, apesar de poder ter dado uma pista, rapidamente tratou de a desfazer, dizendo que essa expectativa nos mercados manteria as condições de financiamento favoráveis, o que poderia ajudar a economia e, assim, levar a que não se cumprisse a previsão de os juros levarem mais tempo a subir.

Draghi a imitar Maradona?

Os economistas realçam que Draghi quer manter as opções em aberto para gerir as expectativas do mercado. A Bloomberg notou, depois da reunião, que o presidente do BCE pode estar a seguir uma teoria de política monetária inspirada em Maradona. Em 2005, Mervyn King, que era governador do Banco de Inglaterra, explicou que as decisões dos bancos centrais funcionam de forma similar a um dos golos mais famosos de Maradona.

Nos quartos-de-final do Mundial de 1986, Maradona correu 55 metros com a bola passando por cinco adversários antes de fazer o segundo golo diante da Inglaterra. "O verdadeiramente notável foi que Maradona correu praticamente em linha reta. Como se consegue bater cinco defesas correndo em linha reta? A resposta é que os defesas ingleses reagiram ao que esperavam que Maradona fosse fazer. Esperavam que Maradona se movesse ou para a esquerda ou para a direita, o que lhe permitiu seguir em frente", disse Mervyn King num discurso feito em 2005.

O antigo banqueiro central considerou que isso "é um exemplo do poder das expectativas na teoria moderna das taxas de juro". Draghi já provou no passado que conseguia fintar a pressão nos mercados. E os analistas notam que quer garantir margem de manobra para o voltar a fazer caso seja necessário.

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