Antígua e Barbuda. A praia é só o começo

Mala de viagem (7). Um retrato muito pessoal de Antígua e Barbuda.

Para um europeu, o Carnaval realizado em agosto é como o Natal quente do hemisfério sul do planeta. Um pouco estranho. Viajei para um pequeno país insular caribenho com a intenção de sentir por perto os dez dias de um Carnaval que celebra, na ilha de Antígua, a abolição da escravatura (1834). O Carnaval é a maior atração anual, do final de julho até à primeira terça-feira de agosto, com figurinos coloridos, espetáculos de talentos e de música, feiras gastronómicas e concursos de beleza. Isso foi-me dito logo no primeiro dia junto ao hotel por um velho residente que num banco de rua me explicou a essência deste festejo. A população total do país ronda os 100 mil habitantes. A sua capital é Saint John, onde me instalei e se ouve anglofonia por todo o lado, dado ter sido colónia inglesa até 1981, ano da independência. A maioria da população da cidade reflete a do resto do país, com pessoas de ascendência africana e euro-africanos e com uma minoria de europeus, incluindo ingleses e portugueses. A ilha tem tantas praias quanto os dias do ano (365). No segundo dia, decidi ir a Ffryers Beach, que já serviu de cenário para filmes e ensaios fotográficos de modelos internacionais. Na praia extensa e no azul maravilhoso do mar, havia uma sessão de fotos de um corpo escultural. Deixei-me estar no areal até que o pôr-do-sol me confirmasse o imperdível. Um belo momento para os amantes de fotografia, com ou sem belezas esculturais por perto. Nos dias seguintes, deliciei-me nos festejos do Carnaval. Dançarinos usando folhas de banana e chifres de animais participaram no Touro John, enquanto os cantores desfilaram com longos postes cobertos de lanternas, chamados de "carol trees", cantando com acompanhamento de uma concertina. Assisti ao desfile das concorrentes ao Concurso Miss Antígua. Chegou o veredicto final e foi escolhida a vencedora, que representaria o país nos concursos de Miss Mundo e de Miss Universo. O seu rosto não me era estranho. Algo me disse que era a mesma que eu vira, antes, esculturalmente, a ser fotografada na praia. Na noite desse dia, uma festa para alojados no hotel também contava com convidados, precisamente as concorrentes ao certame de beleza e os elementos da organização. O ambiente era requintado. Soube depois de que este é um concurso muito aguardado pelas gentes de Antígua e, sobretudo, pelas jovens potencialmente candidatas todos os anos. St. John também é um centro animado para compras e jantares. Antes de partir, nas manhãs de sexta e sábado, entranhei-me no mercado de agricultores no sul da cidade, um espaço vibrante e colorido, com artesanato, frutas tropicais e uma multidão agitada e faladora. Bem longe dos tempos de sujeição em que os escravos eram proibidos de falar nos campos e de se comunicarem uns com os outros, mas que inspirou um dos géneros musicais, o Calipso, forma poliglota improvisada que depende em grande parte da habilidade de um solista, o calipsoniano, que tece os sons de muitas culturas num todo lírico. Ele ali estava a sonorizar as manhãs da cidade.

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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