Salários, leilões e respostas para crises podem valer o Nobel que não é bem Nobel

O prémio criado pelo banco central da Suécia faz 50 anos e é entregue na segunda-feira. Entre os candidatos há uma mulher que pode quebrar a tradição.

Os nomeados ao chamado Nobel da Economia - na verdade, o prémio para as ciências económicas não foi legado de Alfred Nobel, tendo sido criado apenas em 1968 - são um segredo bem guardado. Mas alguns nomes têm sido avançados como possíveis candidatos na imprensa internacional. Aos 50 anos de existência do prémio, as ciências económicas podem ter neste ano a segunda mulher nobelizada, mas também podem perpetuar a tradição. Não faltam nomes masculinos.

Claudia Goldin: como se formam os clubes de rapazes

Os homens e as mulheres dão-se bem, mas isso não significa que queiram trabalhar juntos. Claudia Goldin, economista de Harvard, é várias vezes citada neste ano para os 50 anos do Nobel que distingue as ciências económicas e pode bem voltar a quebrar uma tradição predominantemente masculina que em meio século conhece uma única exceção: Elinor Ostrom, em 2009. Precisamente, com o seu trabalho sobre a segregação e discriminação da mulher no trabalho.

Um dos seus artigos mais difundidos é "Uma Teoria da Poluição para a Discriminação". Nele, a norte-americana tenta explicar o persistente fosso salarial entre homens e mulheres com base em práticas de segregação profissional. A ideia central é que há muitas carreiras às quais as mulheres não acedem porque a imagem que a sociedade tem da mulher em geral não reflete características vantajosas para a atividade. Assim, os homens que já estão na carreira reagem à entrada de uma mulher como uma ameaça de "poluição", como alguém que possa desprestigiar a profissão, independentemente do mérito individual.

A economista, que há décadas estuda educação, carreiras, trabalho e diferenças salariais, identifica o problema, mas também dá resposta. Para Goldin, estará na "credenciação" das diferentes ocupações. A exigência de qualificações, os testes de admissão e outras provas verificáveis ajudam a minimizar um eventual sinal social "negativo" na admissão de uma mulher. No fundo, um atestado de mérito e capacidade. Como um prémio Nobel, por exemplo.

David Card: o salário mínimo não é uma coisa assim tão má; imigrantes, idem

Quando a generalidade dos manuais de economia dava quebras do emprego como a consequência mais do que certa da fixação de um salário mínimo - sendo outra a do aumento dos preços -, David Card pôs a ideia em teste em conjunto com Alan Krueger. As cobaias foram as operações das cadeias de fast-food nos estados norte-americanos de Nova Jérsia e Pensilvânia e a conclusão foi a de que não havia efeitos negativos para o emprego. Para os consumidores, as conclusões foram menos claras. Mas em nenhum lado houve negócios a fechar portas.

Card também estudou os salários de Portugal, desta vez com a economista Ana Rute Cardoso. E a questão aberta era a de saber se o serviço militar obrigatório tinha algum efeito no nível salarial de quem passava pela tropa. A conclusão foi que sim, valia mais 4% a 5% de rendimentos no final do mês entre aqueles que apenas tinham tido a oportunidade de terminar a instrução primária. Para os restantes, ficava no fim uma experiência "valiosa".

Nos últimos anos, porém, o percurso do canadiano associado à Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, tem estado focado nas políticas ativas de emprego e no impacto da imigração. Mais uma vez, para desfazer mitos sobre aquilo que faz mal à economia. A conclusão dos estudos de Card é que a entrada de trabalhadores estrangeiros num país não ameaça os nacionais, nem mesmo os menos qualificados.

Nobuhiro Kiyotaki e Olivier Blanchard: gastar para crescer, outra vez

Blanchard, antigo economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, e o economista japonês Kiyotaki são dados como dois exemplos recentes de neokeynesianismo com hipóteses para o Nobel. Não estão sós e a Bloomberg - que habitualmente aponta uns cinco nomes prováveis - junta-lhes Janet Yellen, antiga presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos, Michael Woodford, Stanley Fischer, Greg Mankiw, Guillermo Calvo ou David Romer.

Numa longa história de dezenas de laureados norte-americanos, o francês (MIT) e o japonês (Princeton) podem fazer a diferença. Juntos, deram um contributo para pensar os efeitos de estímulos à procura na produtividade e no bem-estar em ambiente de mercado - um tema bastante atual num momento em que o Banco Central Europeu chama os governos (aqueles que o podem) a fazerem despesa como profilaxia para uma eventual recessão. A conclusão é que dinheiro chama dinheiro. Mas na condição de que os salários também respondam aos estímulos.

Alesina, Tabellini, Persson: ou, então, não

Nos antípodas de Blanchard e de Kiyotaki, e muitos mais, estão nomes como os de Alberto Alesina e vários outros. O tema aqui é o défice e a dívida. Alesina, professor de economia política de Harvard, publicou à entrada da última crise, em 2009, com Silvia Ardagna, um artigo que contribuiu para a escola das políticas de austeridade. Trata de saber qual o remédio mais eficaz para as crises. Cortar impostos? Gastar mais? O estudo olha para o pacote de estímulo orçamental norte-americano do pós-crise para concluir que é melhor reduzir impostos do que aumentar o investimento público.

Noutros exercícios, tentou saber qual a melhor receita para um plano de consolidação das finanças públicas - ou de redução de défices, noutras palavras. Aqui, a questão era se reduzir despesa ou aumentar impostos seriam solução. E a resposta com menos custos encontrada pelo italiano foi a dos cortes na despesa - em alguns casos, com efeitos no crescimento da economia.

Mas a chamada austeridade não parece ser hoje um tema popular, apesar de permanecer atual. De resto, as ideias de Alesina e de outros na mesma senda foram fortemente rebatidas por um Nobel entretanto laureado: Paul Krugman.

O contributo vai, no entanto, mais longe e é apontado como relevante no campo de estudos da economia política - isto é, de como a política define a economia e o inverso. Alberto Alesina tem surgido acompanhado dos economistas Guido Tabellini e Torsten Persson como potencial Nobel neste ano.

Paul Milgrom: como funciona mesmo um leilão?

As regras até podem ser as mesmas, mas nem todas as partes têm as mesmas cartas na mão. E um mercado em que uns têm mais informação do que outros tem impacto na concorrência. A contribuição de Paul Milgrom, outro norte-americano citado como possível Nobel da Economia, é feita no campo da teoria dos jogos - em particular, na chamada teoria dos leilões. Estuda o comportamento dos participantes e como se chega aos preços finais, bem como os diferentes caminhos possíveis.

Os estudos de Milgrom têm-se mostrado importantes na análise de comportamento dos mercados financeiros e dos traders, e foram ainda aplicados à licitação de frequências nas comunicações. O economista criou inclusivamente uma empresa de software que aplica as suas teorias económicas, a Auctionomics, e desenhou recentemente um modelo de leilão para a atribuição de espectro 5G.

Maria Caetano é jornalista do Dinheiro Vivo

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