Daniela Braga: "Um sítio não me chega, tenho de circular"

A fundadora e CEO da DefinedCrowd conta como chegou a liderar uma das 100 empresas mais promissoras na área de inteligência artificial do mundo e a única com uma portuguesa à frente entre as 500 melhores startups para trabalhar nos Estados Unidos,

Se a vida tivesse seguido o caminho normal, provavelmente Daniela dedicava hoje os seus dias a ensinar línguas na faculdade, talvez no seu Porto-natal. "Seria tristíssimo", ri-se. O sorriso a par da descontração dá-lhe musicalidade ao discurso, marcado pela difusão de idiomas em que é fluente. Fala seis - além do português, latim, espanhol, inglês, francês e chinês - fruto da licenciatura em Línguas e Literatura da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e da experiência que foi acumulando no destino que traçou para si.

Quando nos ligamos por videochamada, são 10.00 em Seattle e Daniela Braga já aviou uma conferência virtual para Stanford, a marcar o Dia Internacional da Mulher. Não há dias calmos para quem está ao leme de uma das 30 empresas tecnológicas que mais crescem nos Estados Unidos, entre as 100 mais promissoras na área de inteligência artificial do mundo e a única fundada e liderada por uma portuguesa a figurar entre as 500 melhores startups para trabalhar nos Estados Unidos, na lista que a Forbes libertou nesta semana.

O acaso só o é para quem deixa que as coisas lhe aconteçam e Daniela não tem de todo esse perfil. Por isso foi mudando o mundo à sua volta sempre que não lhe agradava o caminho que via à frente. Foi assim logo desde os 20 anos, quando trocou uma mais que provável carreira académica pela tecnologia de ponta. Em lugar de seguir os estudos de línguas nos Estados Unidos, como tinha pensado, agarrou a oportunidade de uma bolsa que arrancava então na Universidade de Engenharia do Porto, um projeto para desenvolvimento de um sistema de síntese de voz para cegos.

"Era o início de interdisciplinaridade na Europa e eu era a única disponível com este background. Foi a minha primeira milestone", conta. Embrenhou-se na aprendizagem de uma área em que mal sabia comunicar, fez caminho, aprendeu a programar e enquanto dava aulas para garantir o seu rendimento fez o mestrado em Linguística Aplicada e o doutoramento em Tecnologia do Discurso pela Universidade da Corunha. "Logo em 2000, fiz dois artigos fundadores da tese de doutoramento e pus no papel a programação por regras da fonética da língua portuguesa - os engenheiros não conseguiam pôr em código o funcionamento do cérebro ao nível das línguas. Daí evoluí para machine learning, big data, research para indústria, aplicações concretas e sistemas data driven", explica, abrindo a janela para as raízes do que viria a resultar na criação da sua DefinedCrowd.

Mas por esta altura, não tinha ainda todas as sementes na mão. Ou não tinha vivido todas as vidas que a transportariam à realidade atual - "É possível ter várias vidas, buscar sempre novas experiências, procurar superar-se; é cansativo mas muito interessante."

Fora-de-série

Depois de quase dois anos a viver em Pequim, para onde se mudou já depois de recrutada pela Microsoft em Portugal e de uma temporada em Espanha, aterrou em Seattle, puxada para a sede da companhia, com uma criança de dois anos ao colo, separada e pronta para se dedicar a um trabalho em que estava quase tudo por fazer.

Estávamos em 2012 e Daniela Braga, então com 33 anos, aventurava-se no incrível mundo da inteligência artificial no país que tinha tudo para dar à criatividade, pela mão da gigante tecnológica. Mas se esperava poder, nos Estados Unidos, cumprir os sonhos que não podia atingir numa sociedade muito mais fechada, estatizada e masculinizada como a chinesa, não levou muito tempo a desiludir-se. "Ao fim de um ano, deixei a Microsoft, desencantada com a falta de ambição e direção na inteligência artificial - então speech technology. Tinha-se perdido o espírito de inovação." A tecnológica que fora pioneira nesta área continuava a vê-la como uma experiência engraçada e deixara-se ultrapassar por empresas como a Apple ou a Google. E Daniela aprendeu mais uma lição: "Nunca se pode subestimar a concorrência. Eu nunca o faço."

A coragem de trocar uma gigante por uma empresa local a dar os primeiros passos deu-lhe perspetiva. Como diretora de data science na Voice Box, a servir clientes como a Samsung e a Toyota à frente de uma equipa de 15 pessoas, passou de uma dimensão em que tinha orçamento ilimitado mas trabalhava num "projeto nice to have para assumir um produto que era fonte de sobrevivência". E bastou um ano para que a empreendedora portuguesa entendesse que "havia uma necessidade que não estava coberta no mundo, de organizar dados em grande escala". E sem saber deixar-se ficar, Daniela foi atrás de uma nova vida, agarrando a oportunidade para desenhar a sua própria empresa - uma plataforma que recorre à inteligência artificial para purificar os dados que ainda levou a pitch à Microsoft. "Pensei, em vez de esperar que o mundo se organize à minha volta, vou eu mudá-lo à minha volta."

No verão de 2015, nascia a DefinedCrowd, com um financiamento de 200 mil dólares recebido de business angels. Hoje tem escritórios em Lisboa - incubou-se na Startup Lisboa e foi a primeira vencedora do Prémio João Vasconcelos, logo em 2019 -, no Porto e nos Estados Unidos e clientes que vão da Amazon à Google. "Nunca imaginei chegar aqui, estava longe de imaginar este percurso. Mas quanto mais avanço mais acho que estou ainda muito longe de cumprir os objetivos, que estou apenas na ponta do iceberg. Estabelecemos objetivos a dois anos, chegamos lá e parece que fizemos o unlock de um mundo novo num videogame, em que há tudo por descobrir", descreve a criadora de uma empresa com crescimentos anuais da ordem dos 600%.

Não é que Daniela despreze as conquistas - tem-nas até muito presentes e orgulha-se com toda a justiça do sucesso atingido, mas para a sua personalidade curiosa "a jornada é o mais interessante, resolver um problema mundial; e tenho muito a noção de tudo o que não sei. Ter a humildade de aprender, ouvir e adaptar é muito importante - adaptabilidade e resiliência aliados ao medo, não paralisante mas que provoca adrenalina, e ao espírito competitivo" são os ingredientes da receita para estar como quer: "No culminar de uma experiência intercultural, multilinguística e multidisciplinar. E ainda só estamos na primeira de quatro fases da inteligência artificial: a narrow, depois virá a fase em que as máquinas se tornam sencientes, depois semelhantes ao cérebro humano e enfim a fase em que o superam, que é o que nos mete medo."

Entusiasma-se a falar do trabalho que a prende à frente do computador umas 12 horas por dia há mais de cinco anos - "férias é uma palavra que não existe, posso estar num cenário mais bonito, com praia e calor, mas nunca consegui estar mais de 24 horas afastada do trabalho", diz. Para logo confessar que conseguir tirar uma semana seria "ótimo, mas apavorante".

Lições da pandemia

Quando o mundo girava com normalidade, sem fronteiras bloqueadas e pessoas fechadas em casa, Daniela passava muito tempo fora - pelo menos uma viagem intercontinental por mês e várias domésticas. Por isso, o tempo que lhe restava dividia-se entre os amigos e sobretudo a filha, agora com 11 anos. "Na pandemia, ganhámos muito nesse aspeto, estamos muito mais tempo juntas e isso fez-me realizar que voltando à estrada tenho de pôr um pé no travão." Não que isso implique cortar nas viagens - a riqueza de conhecer pessoas, diferentes culturas, línguas, ambientes, cenários é algo que nunca dispensará -, mas fazê-lo mais recreativamente do que em trabalho melhoraria as suas perspetivas. É por isso que não se vê a morar em Portugal, ainda que nem hesite em responder: "Adoro Portugal, a minha filha passa dois meses por ano e eu estou em pulgas por ir em abril. Portugal mudou muito nos últimos anos, mas ainda é pequeno, como a maioria dos lugares, incluindo muitos estados dos EUA. O melhor para mim é viver entre cidades, um sítio não chega; tenho de circular entre pessoas culturas, tenho imensos interesses. Gostava de viver noutros países, talvez na América Latina, noutros sítios da Ásia, ajudar pessoas a sair de espartilhos sociais."

Não sabe se ainda o fará e para isso pesam dois argumentos. O primeiro: "Não me sinto confortável a viver onde não seja fluente na língua." E o segundo, fundamental, a educação da filha - que também contribuiu para a mudança para os Estados Unidos. "É muito mais fácil criar uma criança aqui, sem a poluição de Pequim, tendo assistência em inglês, um suporte diferente, escolas. Apesar de também ter dificuldades e conservadorismo, é um dos maiores risk takers do mundo, ainda é um país de imigrantes, ainda tem aquela dose de loucura e risco que nos leva a atirar-nos de um precipício e descobrir como se abre o paraquedas no caminho."

Essa é uma das maiores diferenças que encontra entre os Estados Unidos e a Europa. E o facto de no país que escolheu para viver as pessoas seguirem modelos como responsabilização, o estímulo ao trabalho e a liderança pelo exemplo. "Na Europa, os líderes tiram 15 dias de férias e desligam; aqui isso é impossível para manter um crescimento como o da DefinedCrowd. Se eu não fizer, a responsabilidade cai sobre os ombros de outros."

A abertura que encontrou nos EUA faz questão de dá-la à filha, que assume criar "da forma mais programming free possível", para evitar todo o tipo de amarras, incluindo as de género. "Ainda somos criados, sobretudo as mulheres, em estruturas baseadas em expectativas de comportamentos, de papéis, privilegiando o hardcore academic em vez da adaptabilidade, da resiliência, da criatividade. Eu quero que ela veja que o céu é o limite. Claro que isto tem um senão: crescer sem estruturas ou perdida nas possibilidades, mas não há sistemas perfeitos."

Daniela Braga não tem dúvidas de que as soft skills serão cada vez mais importantes, sobretudo num contexto de digitalização e robotização da sociedade. Só não concorda que essas capacidades sejam soft. "São temas de liderança, de team playing, de criatividade" - e a educação dos miúdos deve começar a ter mais atenção a essas áreas para os adaptar ao mundo. "Gerir equilíbrios não se ensina nas universidades, a inteligência emocional, o saber ler o cliente, o chefe, o colega, o parceiro. E são aspetos fundamentais." E que não desaparecerão, antes se intensificarão por efeito das restrições e adaptações que a pandemia impôs.

"A pandemia ajudou-nos a crescer mais depressa, mas foi tudo muito mais difícil." Exemplifica: "A DefinedCrowd passou de 195 para 320 empregados todos online, e contratar online é quase como um online dating. O alinhamento cultural, com muitas muitas timezones, pessoas com backgrounds completamente diferentes... Nesse aspeto sou muito old school, não acredito que vá passar a fazer-se tudo de forma digital. As empresas e a confiança constroem-se com contacto humano, construindo pontes de aspetos comuns e isso só se consegue no cara a cara."

Admite que o contexto da pandemia lhe deu uma perspetiva diferente na forma de encarar o mundo, não apenas num certo abrandar de ritmo como nas questões climáticas. "Todos conseguimos dar um contributo para melhorar o ambiente se viajarmos menos, escolhendo um carro elétrico, usando produtos biodegradáveis..." Essa experiência colheu-a no Havai, onde vai regularmente e cujos habitantes têm uma forma muito única "de se relacionar com o planeta". Não seria porém esse o destino que escolheria se pudéssemos estar sentadas frente afrente a conversar. "Apetecia-me estar no Brasil, no Rio ou em Salvador ou num sítio com essa energia positiva - a covid deixou-nos a todos sem energia."

Não vale a pena perguntar se ainda tem muito que fazer. Daniela Braga é daquelas pessoas que veem sempre mais possibilidades quando cruzam uma porta. Mas há um projeto que fixou: levar a DefinedCrowd à bolsa. "Nesta área tecnológica, só há 20 empresas lideradas por mulheres que foram a IPO." Daniela Braga tem tudo para ser a 21ª.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG